→ 29/05/2007 @15:46

«Apanhar» a realidade

An American Girl in Italy (1951), de Ruth Orkin

Ruth Orkin e Henri Cartier-Bresson teriam muito com que discordar.
Cartier-Bresson é o pai do fotojornalismo, o mestre que definiu a fotografia como a captação do «momento decisivo» da reportagem fotográfica. Para ele, a grande fotografia era «o reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado do acontecimento, bem como da precisa organização das formas que dá ao acontecimento a sua exacta expressão.» (consultar post O Fotógrafo Invisível)
Truman Capote, então um jornalista de 22 anos, acompanhou-o em 1946 numa reportagem em New Orleans e descreveu-o assim:

Dançava na calçada como uma libélula inquieta, três grandes Leica penduradas ao pescoço, a quarta colada ao olho, tac-tac-tac (a máquina parece fazer parte do seu corpo), disparando cliques com uma intensa alegria e uma concentração religiosa de todo o seu ser. Nervoso e alegre, dedicado ao seu ofício, Cartier-Bresson é um homem solitário no plano da arte, uma espécie de fanático.

Os momentos decisivos descobre-os Cartier-Bresson no ambiente que o rodeia, procurando antecipar-se ao tempo e às circunstâncias:«A grande fotografia é um presente do acaso e devemos tirar proveito do acaso», afirmou.
Ruth Orkin, contudo, encara o fotojornalismo de uma forma mais «conceptual» e mostra como também é possível criar-se um editorial usando apenas a imagem. Na sua fotografia mais famosa – An American Girl in Italy, tirada em 1951 – o «momento decisivo» é a ideia, um conceito de foto que não depende do acaso; captar a imagem acaba por ser apenas uma questão de técnica.
Orkin viajou para Itália em 1951 com a ideia de recriar os problemas que enfrentavam as jovens mulheres quando decidiam viajar sozinhas – entre estes, lidar com homens e rapazes de sangue quente, sangue latino. Viajou em conjunto com uma belíssima amiga, a modelo Jinx Allen, sabendo de antemão que tipo de fotografia procurava.
Queria captar uma situação ainda vulgar nos nossos dias: uma mulher passando pela rua (neste caso a esquina da Piazza Della Repubblica) sujeita ao olhar intenso dos homens, aos sorrisos, às «bocas» ordinárias, às provocações.
O que fez a diferença entre uma fotografia puramente encenada e esta American Girl in Italy? Em vez de recriar artificialmente a situação em estúdio, Orkin fez uma «experiência»: colocou a belíssima amiga a passar sozinha diante de um numeroso grupo de homens italianos e fotografou o que sucedeu a seguir. As pessoas, a iluminação das ruas e o pano de fundo dos edifícios são «naturais», mas é difícil observar esta foto sem pensar que o fotojornalismo vive entre duas correntes antagónicas: a visão romântica e documental de Cartier-Bresson e a sua incessante busca pelo «momento decisivo» recebendo-o como uma prenda ou uma dádiva; e a pragmática e documental Ruth Orkin, cujas fotos não mentem mas «forçam» os momentos, transformando pessoas em «apanhados».
A fotografia acabou por servir a Orkin para ilustrar um artigo intitulado Don’t Be Afraid to Travel Alone, publicado pela revista Cosmopolitan. Acaba por ser uma grande foto, desde que não a observemos pelos olhos de Cartier-Bresson.

Batota. Líbano, 2006: a fotografia «retocada» e a original: efeitos do bombardeamento intensificados…

A questão da manipulação da realidade por parte dos fotojornalistas de forma a criar um efeito mais dramático e convincente (expediente que muitos fotográfos poderão considerar desonesto) é muito notado nas fotografias de guerra. A era da manipulação digital e dos programas de edição de imagem veio dar uma ferramenta muito poderosa de encenação da realidade. Os exemplos abundam – e alguns resultaram mesmo no despedimento do fotógrafo. Uma página completamente dedicada às «fraudes da Reuters» passa em revista (e de uma forma impiedosa) uma série de fotos tiradas no Líbano durante a invasão israelita e denuncia todos os truques usados pelos «repórteres» fotográficos: desde encenações grosseiras a manipulações em Photoshop. São fotos tiradas em 2006.

6 comentários

  • 1
    velf
    com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Windows XP Windows XP
    29 de Maio de 2007 - 17:11 | Link permamente

    bom post este…gostei bastante de ver as fraudes da reuters,ou dos fotografos a seu serviço.dá que pensar…

  • 2
    João
    com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Windows XP Windows XP
    29 de Maio de 2007 - 19:41 | Link permamente

    An American Girl in Italy (1951), de Ruth Orkin

    Que fotografia! Encenada ou não, apanhar aqueles olhos todos, ver cada uma daquelas personagens, individualá-las… Lindo! (olhinhos de cão mal morto, todos eles… isto o sangue, quando aflui a partes recônditas prega-nos umas partidas e põe-nos nas beiças um sorrisinho ridículo! valha-nos Deus!)

    Quanto à construção das fotografias… já não podemos confiar em ninguém… nem já naquilo que vemos (ainda que o vejamos pelos olhos de outro). Isto é muito mau!

  • 3
    filipe
    com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Ubuntu Ubuntu
    29 de Maio de 2007 - 20:29 | Link permamente

    Boa Marco :eek_wp:

    Conseguiste me dar saudades dos tempo de Florença, essa foto está divinal, é foto mesmo para a fotografia, mas o mais engraçado é que só há um homem que não olha para ela, é cúmulo dos cúmulos foi com ele que a senhora se casou :mrgreen_wp:

  • 4
    Fernando
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Maio de 2007 - 10:38 | Link permamente

    Não sei porquê lembrei-me do fabuloso “Senza Fine” da Monica Mancini. Glamour às “toneladas”!
    Arranjas esse som para colocar aqui, Marco?

  • 5
    com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Ubuntu 7.04 Ubuntu 7.04
    30 de Maio de 2007 - 14:11 | Link permamente

    Fernando: Vou ver :wink_wp:

  • 6
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    6 de Junho de 2007 - 20:49 | Link permamente

    Grandes nomes da fotografia, Cartier e Ruth Otkin…
    Gostaria que Ruth tivesse tido a ideias de tirar uma foto de um belo rapaz atravessando um trecho de rua em que só houvesse mulheres, de todas as idades e em várias situações de rotina…Iríamos ver que o valoroso ‘macho man’ ao se ver em situação de inferioridade numérica absoluta encolher-se-ia como um filhote de cão…As duas fotos juntas atravessariam o mundo.

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