
An American Girl in Italy (1951), de Ruth Orkin
Ruth Orkin e Henri Cartier-Bresson teriam muito com que discordar.
Cartier-Bresson é o pai do fotojornalismo, o mestre que definiu a fotografia como a captação do «momento decisivo» da reportagem fotográfica. Para ele, a grande fotografia era «o reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado do acontecimento, bem como da precisa organização das formas que dá ao acontecimento a sua exacta expressão.» (consultar post O Fotógrafo InvisÃvel)
Truman Capote, então um jornalista de 22 anos, acompanhou-o em 1946 numa reportagem em New Orleans e descreveu-o assim:
Dançava na calçada como uma libélula inquieta, três grandes Leica penduradas ao pescoço, a quarta colada ao olho, tac-tac-tac (a máquina parece fazer parte do seu corpo), disparando cliques com uma intensa alegria e uma concentração religiosa de todo o seu ser. Nervoso e alegre, dedicado ao seu ofÃcio, Cartier-Bresson é um homem solitário no plano da arte, uma espécie de fanático.
Os momentos decisivos descobre-os Cartier-Bresson no ambiente que o rodeia, procurando antecipar-se ao tempo e às circunstâncias:«A grande fotografia é um presente do acaso e devemos tirar proveito do acaso», afirmou.
Ruth Orkin, contudo, encara o fotojornalismo de uma forma mais «conceptual» e mostra como também é possÃvel criar-se um editorial usando apenas a imagem. Na sua fotografia mais famosa – An American Girl in Italy, tirada em 1951 – o «momento decisivo» é a ideia, um conceito de foto que não depende do acaso; captar a imagem acaba por ser apenas uma questão de técnica.
Orkin viajou para Itália em 1951 com a ideia de recriar os problemas que enfrentavam as jovens mulheres quando decidiam viajar sozinhas – entre estes, lidar com homens e rapazes de sangue quente, sangue latino. Viajou em conjunto com uma belÃssima amiga, a modelo Jinx Allen, sabendo de antemão que tipo de fotografia procurava.
Queria captar uma situação ainda vulgar nos nossos dias: uma mulher passando pela rua (neste caso a esquina da Piazza Della Repubblica) sujeita ao olhar intenso dos homens, aos sorrisos, às «bocas» ordinárias, às provocações.
O que fez a diferença entre uma fotografia puramente encenada e esta American Girl in Italy? Em vez de recriar artificialmente a situação em estúdio, Orkin fez uma «experiência»: colocou a belÃssima amiga a passar sozinha diante de um numeroso grupo de homens italianos e fotografou o que sucedeu a seguir. As pessoas, a iluminação das ruas e o pano de fundo dos edifÃcios são «naturais», mas é difÃcil observar esta foto sem pensar que o fotojornalismo vive entre duas correntes antagónicas: a visão romântica e documental de Cartier-Bresson e a sua incessante busca pelo «momento decisivo» recebendo-o como uma prenda ou uma dádiva; e a pragmática e documental Ruth Orkin, cujas fotos não mentem mas «forçam» os momentos, transformando pessoas em «apanhados».
A fotografia acabou por servir a Orkin para ilustrar um artigo intitulado Don’t Be Afraid to Travel Alone, publicado pela revista Cosmopolitan. Acaba por ser uma grande foto, desde que não a observemos pelos olhos de Cartier-Bresson.


Batota. LÃbano, 2006: a fotografia «retocada» e a original: efeitos do bombardeamento intensificados…
A questão da manipulação da realidade por parte dos fotojornalistas de forma a criar um efeito mais dramático e convincente (expediente que muitos fotográfos poderão considerar desonesto) é muito notado nas fotografias de guerra. A era da manipulação digital e dos programas de edição de imagem veio dar uma ferramenta muito poderosa de encenação da realidade. Os exemplos abundam – e alguns resultaram mesmo no despedimento do fotógrafo. Uma página completamente dedicada à s «fraudes da Reuters» passa em revista (e de uma forma impiedosa) uma série de fotos tiradas no LÃbano durante a invasão israelita e denuncia todos os truques usados pelos «repórteres» fotográficos: desde encenações grosseiras a manipulações em Photoshop. São fotos tiradas em 2006.































6 comentários
bom post este…gostei bastante de ver as fraudes da reuters,ou dos fotografos a seu serviço.dá que pensar…
Que fotografia! Encenada ou não, apanhar aqueles olhos todos, ver cada uma daquelas personagens, individualá-las… Lindo! (olhinhos de cão mal morto, todos eles… isto o sangue, quando aflui a partes recônditas prega-nos umas partidas e põe-nos nas beiças um sorrisinho ridÃculo! valha-nos Deus!)
Quanto à construção das fotografias… já não podemos confiar em ninguém… nem já naquilo que vemos (ainda que o vejamos pelos olhos de outro). Isto é muito mau!
Boa Marco :eek_wp:
Conseguiste me dar saudades dos tempo de Florença, essa foto está divinal, é foto mesmo para a fotografia, mas o mais engraçado é que só há um homem que não olha para ela, é cúmulo dos cúmulos foi com ele que a senhora se casou :mrgreen_wp:
Não sei porquê lembrei-me do fabuloso “Senza Fine” da Monica Mancini. Glamour à s “toneladas”!
Arranjas esse som para colocar aqui, Marco?
Fernando: Vou ver :wink_wp:
Grandes nomes da fotografia, Cartier e Ruth Otkin…
Gostaria que Ruth tivesse tido a ideias de tirar uma foto de um belo rapaz atravessando um trecho de rua em que só houvesse mulheres, de todas as idades e em várias situações de rotina…IrÃamos ver que o valoroso ‘macho man’ ao se ver em situação de inferioridade numérica absoluta encolher-se-ia como um filhote de cão…As duas fotos juntas atravessariam o mundo.