→ 03/04/2010 @2:47

A destruição da imagem pode destruir uma vida

Esta é a história de como a precipitação de quem procura informação, a negligência dos media ao interpretá-la e a utilização absurdamente abusiva de uma fotografia podem mudar para sempre a vida de uma pessoa. Mudar para pior. Muito pior.

Neda Soltan

A história começa com uma morte. Uma morte horrível. Vocês lembram-se: Neda Agha Soltan, 27 anos, iraniana, morre a 20 de Junho do ano passado numa manifestação de protesto da oposição verde em Teerão. Neda é atingida no coração por uma bala disparada por um sniper das milícias Basij – forças paramilitares fundadas em Novembro de 1979 por ordem do Ayatollah Khomeini.

A morte é filmada pelo telemóvel de um manifestante, chega à Web, primeiro via Twitter, depois YouTube, finalmente aos telejornais, uma morte estúpida e devastadora multiplicada milhares de vezes.

A Neda que nunca conhecemos termina os dias derrubada como um manequim de montra, os olhos sem expressão cruzando-se com os nossos, como se o manifestante que a filmou nos tivesse colocado entre ela e o caminho desconhecido que se prepara para seguir.

Quando o sangue jorra pelo nariz e boca, a rapariga já passou por nós, o professor de música, que a acompanhava naquela tarde, grita «não tenhas medo, Neda, não tenhas medo, fica comigo, Neda, fica comigo», mas essa Neda foi-se embora dois minutos depois de ser atingida a tiro.

Nos dias seguintes nascerá uma outra Neda, a mártir, o ícone da oposição rebelde, «o anjo do Irão», a Neda que nos comoverá a todos para sempre, reencarnada em posters e t-shirts mostrados por manifestantes em todo o mundo; a rapariga bonita e inocente cuja morte alimentou a nossa revolta perante a absurda estupidez dos homens.

É preciso saber quem é esta rapariga. Os media lançam-se na busca desenfreada de um perfil: é urgente arranjar fotos, saber o nome, idade, quem, o quê, onde. Neda é um nome muito comum no Irão, mas rapidamente se chega a um apelido, Soltan, e a uma ocupação: estudante na Universidade Islâmica de Teerão.

O mundo está de olhos postos no Irão e espera com impaciência por notícias. Inicia-se uma busca frenética de perfis no Facebook, porque é preciso reconstituir aquela vida de forma a potenciar nos espectadores o sentimento de perda.

Existe outra mulher, jovem, bonita e iraniana, que também se chama Neda e tem perfil no Facebook. Nunca se saberá quem foi o responsável pelo engano, mas o anónimo que procurou por Neda Soltan, a estudante morta, acaba por descobrir o perfil de uma Neda Soltani, professora.

A pessoa copia a foto da professora Neda Soltani do Facebook e distribui-a, afirmando tratar-se da estudante assassinada. A imagem espalha-se às redes sociais, blogues, portais, chega mesmo a ilustrar as primeiras versões da página da Wikipédia sobre Neda Soltan. Ávidas de informação, as grandes cadeias televisivas mundiais – as americanas CNN e CBS, a inglesa BBC, as alemãs ZDF e ARD – divulgam a foto ao mundo inteiro sem notar que a mulher da foto tinha um apelido diferente: Soltani, em vez de Soltan.

Neda SoltanNeda Soltani

À esquerda, Neda Soltan; à direita, Neda Soltani

Neda Soltani, professora de Literatura Inglesa na Universidade Islâmica Azad, que estava bem, e viva, acabara de concluir um longo trabalho sobre a simbologia feminina na obra de Joseph Conrad. Tinha uma carreira. De um dia para o outro, vê o seu rosto nas fotografias de uma mulher morta. Na manhã de 21 de Junho, um dia depois do assassinato da estudante, milhares de pessoas de todo o mundo pedem para se tornar suas amigas no Facebook. É o primeiro choque. Depois é confrontada com os telefonemas de pessoas que começam a chorar ao verificar que ela, afinal, está viva. A 22 de Junho, o seu rosto já surge em cartazes empunhados pelos manifestantes, em t-shirts, em altares erguidos nas ruas. O seu rosto passa a ser «o anjo do Irão».

A 23 de Junho, desesperada, escreve à Voice of America, a televisão americana destinada ao estrangeiro e que é acompanhada por muitos simpatizantes da oposição iraniana. Explica-lhes que se trata de um erro, a fotografia que estão a divulgar não é a fotografia certa. Como prova, envia-lhes outra foto sua, para que possam comparar.

O que se segue é demonstrativo do comportamento dos media quando se deixa controlar pelo histerismo noticioso: em vez de repor a verdade, a Voice of America divulga-a como sendo uma nova fotografia da falecida estudante. Em breve, a estação de televisão CBS faz o mesmo. Ninguém pára cinco segundos para pensar, ninguém questiona a informação.

Verdadeiramente assustada, Neda Soltani apaga a sua foto de perfil no Facebook. Os bloggers simpatizantes da oposição iraniana interpretam o desaparecimento da foto como uma manobra de censura do regime e voltam a espalhá-la por todo o lado – um sinal de rebeldia e resistência. Nem quando os pais da verdadeira Neda resolvem disponibilizar fotos da filha este processo se inverte: por azar, são vagamente parecidas. E quando amigos da professora tentam repor a verdade em fóruns de discussão, são frequentemente insultados, acusados de querer roubar «o anjo do Irão».

As autoridades iranianas decidem então aproveitar a confusão com as fotos e usá-la como arma contra a oposição, tentando demonstrar que os manifestantes estavam a ser manipulados pelo Ocidente. Neda Soltani começa a receber ameaças.

A 2 de Julho, tomada pelo pânico, foge do país sem sequer se despedir dos pais. Todas as suas economias são gastas para pagar aos passadores, os homens que a ajudam nesta fuga clandestina do Irão e dos telefonemas ameaçadores. Passa pela Grécia e chega à Alemanha sem nada, excepto uma mochila. Está agora com um primo em Bochum, recebe uma pensão do Estado alemão de 180 euros por mês, vive num quarto. E tem medo que a família possa sofrer represálias.

Contou finalmente a sua história ao jornalista David Schraven, do jornal Suddeutsche Zeitung, em Fevereiro deste ano. O artigo foi publicado este mês em Portugal pela revista Courrier Internacional, traduzido do original alemão por Fernanda Barão.

Ainda hoje é frequente ver nos media a sua fotografia como «anjo do Irão». Muitos jornais e cadeias de televisão já publicaram desmentidos e esclarecimentos, mas o erro persiste: em Novembro do ano passado, a CNN passou uma reportagem sobre o Irão e, mais uma vez, mostrou a foto errada. Neda enviou um email à CNN, pedindo que a sua imagem fosse apagada. Recebeu uma resposta automática no correio electrónico, na qual se agradecia antecipadamente o facto de a cadeia de TV não poder responder pessoalmente a todas as mensagens recebidas.

Por baixo desta mensagem de resposta, a assinatura: CNN, The most trusted name in News.

21 comentários

  • 1
    Marcos
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
    3 de Abril de 2010 - 08:50 | Link permamente

    Também és fã do Courrier Internacional? Melhor Revista que anda aí!
    :wink:

  • 2
    Gingerbread Girl
    com Firefox 3.5.8 Firefox 3.5.8 em Windows XP Windows XP
    3 de Abril de 2010 - 11:07 | Link permamente

    A minha alma está parva. Desconhecia isto completamente. 8O

    Elas não são vagamente parecidas. Elas são parecidíssimas! Mas o facto de ela não conseguir desfazer o equívoco é algo de estupidamente surreal.

    Olha que realmente…

  • 3
    com Namoroka 3.6.3pre Namoroka 3.6.3pre em Windows XP Windows XP
    3 de Abril de 2010 - 13:00 | Link permamente

    Marcos, olha lá isso que ainda sou acusado de plágio! ;)
    A referência à Corrier Internacional só ainda não está no texto porque eu estupidamente perdi a minha mala no café e não tenho forma de dizer o nome do jornalista que entrevistou a Neda e outras referências… Queria metê-las completas. Provavelmente só poderei recuperar a mala amanhã. Se tiveres aí a revista à mão e me puderes dizer os nomes, agradeço.

  • 4
    com Opera 10.10 Opera 10.10 em GNU/Linux GNU/Linux
    3 de Abril de 2010 - 14:13 | Link permamente

    Que loucura! o_O

    Sei que dinheiro nenhum pagará os danos morais pelos quais Neda passou, mas depois de tudo isso só nos resta espalhar bastante essa versão da história e desejar que ela consiga uma boa indenização.

  • 5
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows XP Windows XP
    3 de Abril de 2010 - 14:44 | Link permamente

    O que a mídia não faz pra ganhar ibope mesmo heim ? São um bando de gente que não respeita ninguem além de seus interesses. São os que mais falam sobre os direitos humanos, mas são os que mais a infringem. Entre elas o direito a privacidade.

    Estou chocado com o que li, inacreditável, mal sei o que responder.

    Parabéns pelo conteúdo do blog, fantástico.

  • 6
    Marcos
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
    3 de Abril de 2010 - 15:08 | Link permamente

    Oh a minha intenção não era essa… Foi simplesmente bom encontrar alguém que lê o Courrier, se tivesse-mos os dois facebook criava já um grupo de amigos do Facebook :P

    Quanto ao artigo:

    Courrier Internacional, Mês Abril, Número 170.

    Jornal: Suddeutsche Zeitung
    Autora: David Schraven
    Data: 18.02.2010
    Tradutora: Fernanda Barão.

    Um abraço

    • 7
      com Namoroka 3.6.4pre Namoroka 3.6.4pre em Windows XP Windows XP
      3 de Abril de 2010 - 15:15 | Link permamente

      Ah, obrigado. Eram estes elementos que me faltavam. Ainda consegui o nome do jornalista que entrevistou a Neda Soltani, mas faltava-me mesmo o nome da tradutora. Obrigado!

      P.S. – Bem sei que não foi essa a tua intenção, estava na brincadeira. Lestes os dois textos, portanto estás em boa posição para ver as diferenças entre um e outro… Excepto nos factos relatados, claro ;)

  • 8
    Marcos
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
    3 de Abril de 2010 - 15:25 | Link permamente

    :D

    Falando do que interessa mesmo, a noticia, é semelhante ao caso “Leandro”, em que o rapaz só quis ir dar umas braçadas e afogou-se tendo vindo os meios de comunicação com a história do bullying. Li não sei aonde que, neste mundo de excesso de informação há que se ter uma boa capacidade de filtrar, seleccionar e compreender.

    • 9
      com Namoroka 3.6.4pre Namoroka 3.6.4pre em Windows XP Windows XP
      3 de Abril de 2010 - 15:48 | Link permamente

      Talvez tenhas lido aqui ;)
      Farto-me de falar nisso, pelo menos.

  • 10
    l3gion
    com Safari 4.0.5 Safari 4.0.5 em Mac OS X 10.6.3 Mac OS X 10.6.3
    3 de Abril de 2010 - 18:30 | Link permamente

    Wow! Que história mais “caricata”. Desconhecia esta história.

    EDIT: Que linda foto que eu tenho..e este/esta não é nada parecida comigo. :D

  • 11
    com Google Chrome 4.1.249.1045 Google Chrome 4.1.249.1045 em Windows 7 Windows 7
    3 de Abril de 2010 - 18:30 | Link permamente

    Só soube desta história através deste artigo e devo dizer que é caso para ficar “chocado”.

    É inadmissível o que se passou. Começam a pegar umas pontas aqui, outras pontas ali e acaba sempre por dar “merda”, desculpe-me a expressão.

    Abraço!

  • 12
    com Safari 4.0.4 Safari 4.0.4 em Mac OS X 10.4.11 Mac OS X 10.4.11
    3 de Abril de 2010 - 19:00 | Link permamente

    Mesmo que pareça fútil dizer isto, vou dizê-lo à mesma: A Neda assassinada tinha um belo rosto que faz lembrar divas do cinema clássico de Hollywood. É só tirar o lenço da cabeça para imaginar associações…

    • 13
      com Namoroka 3.6.4pre Namoroka 3.6.4pre em Windows XP Windows XP
      3 de Abril de 2010 - 19:01 | Link permamente

      É verdade, Victor. Belíssima mulher.

  • 14
    com Google Chrome 5.0.307.11 Google Chrome 5.0.307.11 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    3 de Abril de 2010 - 21:40 | Link permamente

    Fooo*******.
    Marco, ainda bem que não escreveste este post no dia 1!
    Como é teu hábito, desmascaras aqui algumas situações que à primeira vista parecem de outra ordem mas sinceramente nunca esperei uma coisa destas.

    @braço.

  • 15
    Gonçalo
    com Safari 4.0.5 Safari 4.0.5 em Mac OS X 10.5.8 Mac OS X 10.5.8
    4 de Abril de 2010 - 14:43 | Link permamente

    Marco, “Lestes os dois textos”?

    • 16
      com Namoroka 3.6.4pre Namoroka 3.6.4pre em Windows XP Windows XP
      4 de Abril de 2010 - 15:14 | Link permamente

      Gonçalo, eu nem tinha reparado, mas vou deixar ficar. São erros de quem está a escrever rápido em conversa com outra pessoa.

  • 17
    Gonçalo
    com Safari 4.0.5 Safari 4.0.5 em Mac OS X 10.5.8 Mac OS X 10.5.8
    4 de Abril de 2010 - 15:40 | Link permamente

    Homem que é homem não erra, redefine :-)

  • 18
    Tortov Roddle
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows Vista Windows Vista
    4 de Abril de 2010 - 22:45 | Link permamente

    Não acho que a questão da Neda tenha sido pura jogada da mídia ou foi utilizada apenas para dar audiência.

    A Neda desempenhou um papel muito importante na resistênica iraniana em 2009, ainda mais porque o Irã tem toda uma tradição de heróis mártires. Em 1979 foram justamente os funerais dos mártires, relizados 40 dias depois da sua morte que fizeram a revolução ganhar e força e momentum novamente. Toda luta que segue esse modelo precisa de seus símbolos.

    E da forma como o governo do Irã lidou com a censura, seja física ou eletrônica, a prioridade era liberar o máximo de informação possível, errada ou não, e o twitter foi essencial nisso. Mousavi, que se tornou a principal figura da resistência, foi anunciado morto ou preso inúmeras vezes. Levando em conta tudo isso não é de se estranhar que na época ninguém tenha se importado de saber se aquela foto que utilizavam estava certa ou não, ainda mais correndo-se o risco de ser preso e torturado, como aconteceu com muita gente.

    O problema que vejo foi que depois que a poeria baixou ninguém se preocupou realmente em desfazer o mal-entendido. Eu mesmo, que acompanhei tudo na época, tinha como imagem da Neda a foto errada e só soube desse mal-entendido agora. O problema não foi tanto o excesso de mídia, mas a indiferença ao caso dela depois.

  • 19
    Boni
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
    5 de Abril de 2010 - 08:34 | Link permamente

    Tudo isso é evidência que a mídia de massa e a maioria das pessoas não estão nem aí para inocentes, mulheres ou crianças recebendo bala no peito ou na cabeça. O interessa está na notícia, na popularidade, em atender emoções sentimentalistas BARATAS.

    E depois tais veículos de notícias tentam engrandecer o próprio trabalho. Não passam de abutres que regurgitam boa parte da carniça infectada em cima de si mesmos e depois tentam justificar que não fizeram nada de errado.

  • 20
    O Presidente
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    7 de Abril de 2010 - 11:32 | Link permamente

    Artigo fantástico! História “kafkiana”!!!! Ainda vai dar em filme…

  • 21
    Evita
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows Vista Windows Vista
    7 de Abril de 2010 - 14:29 | Link permamente

    Antigamente todas as mulheres em Portugal, tambem, era parecidas…

  • Dizer NÃO à taxa