→ 23/09/2008 @0:54

A morte é um botão que se carrega

O repórter fotográfico do New York Times Michael Kamber retirou da experiência na guerra do Iraque uma descrição pouco usual: chama-lhe «the pushbutton war». «Eu já fiz a cobertura de inúmeros conflitos», escreveu ele num artigo para a Digital Journalist. «Tirando os piores dias na Libéria, esta violência no Iraque atingiu um nível totalmente novo».

Ao contrário de outras situações de conflito em que esteve presente, frequentemente não existem situações em que se adivinha que a violência vai acontecer. Tudo acontece de forma rápida e inesperada até que «alguém carrega num botão e surge um clarão; então estás morto ou não».

Foi precisamente o que sucedeu na manhã de 19 de Maio de 2007, quando Michael Kamber tirou a foto mostrando a evacuação de um soldado americano ferido por um IED, ou seja, um dispositivo explosivo improvisado, improvised explosive device. Publicada no New York Times e reproduzida em jornais e revistas de todo o mundo, a foto foi eleita pelo site PopPhoto a melhor imagem foto-jornalística do ano.

A 19 de Maio, mais uma vez alguém carregou num botão. Uma patrulha fazia uma busca no sul de Bagdade por três soldados que haviam sido raptados na região quando a mina explodiu. «De repente deu-se uma enorme e horrível explosão», recorda Kamber. «Quando o fumo baixou, vi um soldado americano morto e três outros feridos.» Um deles, mais maltratado do que os outros mas com hipóteses de sobrevivência, fora colocado numa maca para ser evacuado de helicóptero – um momento registado de forma belíssima pelo fotógrafo, sobretudo pela cor mortiça e baça da foto, como se os fumos de guerra cobrissem o Iraque e o país tivesse perdido o Sol para sempre.

O soldado ferido da foto não parava de perguntar pelo sargento, recorda Kamber. «Estou preocupado com ele», repetia. Ninguém lhe disse que o sargento fora precisamente o homem que morrera na explosão. «Eu tirei a foto e afastei-me. Não iria ser eu a dizer-lhe.»

O ferido estava já deitado na maca quando um dos soldados que o acompanhava se debruçou e começou a dizer-lhe «Eu adoro-te, pá, eu adoro-te».

«Muitos dos soldados americanos que conheci no Iraque são zaragateiros de bar que contam anedotas de paneleiros», afirma Kamber. «Mas aquele não parava de dizer ‘Adoro-te, pá’. Finalmente, o ferido reagiu: ‘Para que estás a dizer que me adoras, pára de dizer isso’. E o outro, magoado, respondeu ‘Eu posso dizer que te adoro se eu quiser’».


Michael KamberMichael KamberMichael KamberMichael KamberMichael Kamber

A morte de um soldado: artigo original e sequência completa de fotos aqui


Quando a poeira da explosão amainou, Kamber aproximara-se do local «vendo tudo mas não processando nada do que via», tirando algumas fotografias, até que o capitão do pelotão o fizera parar: «Não tires mais fotos!» Enquanto pensava numa maneira de lhe responder, o paramédico que assistia um dos feridos pedira-lhe ajuda. «Alternei entre ajudar o médico a cuidar dos feridos e fotografar a cena. Eu estava autorizado a estar ali, estava ali para fazer o meu trabalho, mas ajudar a colocar as ligaduras no soldado ferido fez-me sentir menos abutre.»

O que deixou Kamber a pensar foi a forma como «uma vida é mudada num instante. Não há nenhum processo gradual através do qual és lançado nesta luta. Estás bem, mas no momento seguinte foste feito em pedaços.»

2 comentários

  • 1
    joba
    com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em Windows Vista Windows Vista
    23 de Setembro de 2008 - 11:12 | Link permamente

    “abutre”… gostei imenso da expressão!

    e já agora parabéns pelo blog..

  • 2
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    23 de Setembro de 2008 - 13:42 | Link permamente

    Moço, está virando uma questão de honra para mim; se você não achar “O Clube do Bangue Bangue” por aí (sugiro entrar em contato com o Jaime ou a Débora, da Livraria Pó dos Livros), avise-me que eu, assim que folgar a algibeira, mando um exemplar.
    Abs

    Suzana

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