
Há fotografias tão reveladoras – esta imagem de Atta Kenare cobre um evento ocorrido há dois dias: uma manifestação diante da embaixada britânica em Teerão para apoiar o presidente Ahmadinejad e protestar pela «interferência europeia» nos acontecimentos posteriores à divulgação do resultado das eleições.
Mas não é o acontecimento em si que é revelador – estamos em plena guerra propagandística destinada a fazer-nos ver que o Irão não é apenas aquele que protesta nas ruas contra Ahmadinejad, portanto é normal que ocorram contra-manifestações.
O que me chama a atenção nesta foto é a diferença na postura das mulheres que apoiaram o candidato reformista e as que apoiaram o conservador.

Comparem-nas, por exemplo, com as apoiantes que surgem nesta foto, tirada a 9 de Junho e já aqui publicada.
Tudo isto é subjectivo e pode ser resultado da minha imaginação ou da forma como estou condicionado pela minha cultura ocidental, mas o que vejo nas expressões daquelas mulheres de Ahmadinejad é a falta de brilho no olhar, como se estivessem conformadas com o papel piedoso que a sociedade religiosa lhes reservou. Vestem-se de negro, cor que associamos ao luto e à morte, reforçando a impressão de que lhes falta o pulsar da vida, a alegria, a motivação e a juventude que vemos nas muçulmanas da outra foto.
Mas estarei a interpretar justamente? Será que as mulheres dessa primeira foto não podem ser também vistas como um símbolo de identidade religiosa e sua postura uma forma de dizer: “somos diferentes do mundo ocidental e orgulhamo-nos disso.” Não existirá dignidade e coragem nessa postura perante um mundo globalizado que julga e tira conclusões à velocidade da luz?
Mesmo assim… que diferença entre as mulheres das duas fotos. Que significado poderão ter as diferenças que observamos? Que o Irão se divide entre as pobres mulheres oprimidas e as que querem ser ocidentais? É assim tão simples? Será que no Irão se trava uma luta entre duas visões antagónicas do papel da mulher na sociedade e que essas diferenças também se reflectem na forma como se vestem?
Quanto mais leio sobre o assunto, mais me surpreendo com a complexidade do que não conhecemos. Por exemplo, uma mulher propriamente vestida – como as que vemos na primeira foto – é vista como uma muçulmana devota, casta e, por isso, os seus maridos e parentes são homens de virtude.
A roupa afasta o pecado, dela e dos homens que eventualmente encontrar. O uso do véu serve para evitar o assédio sexual, preservar a castidade até ao casamento e desencorajar transgressões sexuais, pois o cabelo da mulher é, para o homem, uma grande tentação.
Esta é a visão retrógrada e machista do Islão à qual estamos habituados, pois coloca sobre os ombros da mulher a responsabilidade das falhas do homem, ou seja, o mal tem sempre origem na mulher. Mas também temos destes problemas neste nosso mundo civilizado, não é? Quantas vezes uma mulher, vítima de violação, foi sub-repticiamente responsabilizada na nossa sociedade de ter “provocado” o violador por usar mini-saia?
Há quem veja também no véu um novo símbolo de modernidade, pois permite concretizar o desejo da mulher de participar na vida pública, entre os homens e ao mesmo nível que estes. Ao usar o véu, as mulheres conciliam as suas ambições com a regra da separação (hijab) que o Islão impõe. Sendo assim, o véu já não é visto como o símbolo de uma sociedade retrógrada e opressiva, mas como um acessório importante para a mulher moderna. Agora vejam: ambas as mulheres existem no Irão. As fotos demonstram-no.
Se pensarmos bem sobre todas estas coisas, a informação que as fotos nos revelam e a informação que podemos procurar para além da histeria noticiosa, chegamos à conclusão de que a nossa visão sobre culturas que não conhecemos continua a ser maniqueísta: todas as mulheres que se vestem de forma recatada são sempre umas pobres oprimidas que aspiram secretamente à libertação do jugo islâmico; todas as mulheres que se vestem de forma moderna desejam virar as costas aos seus costumes, tradições e identidade, e viver como nós. Não é óbvia a falácia da visão que temos sobre estas pessoas?































17 comentários
Ponha maniqueísta nisso que subscrevo
… se bem que muita da liberdade efectiva passe pela consciência das coisas…
Relativamente à sensualidade do cabelo, Baudelaire tem um belíssimo poema:
http://fleursdumal.org/poem/203
Tendo em conta a tendência ocidental para a hiper-depilação, a ostentação de muito cabelo no Irão ocidentalizado poderá a ser considerado altamente anti-túsico.
Sorry:
* considerada
* anti-túsica
Concordo em parte, se alguém e conservador e retrograda e ponto final, é a forma como vemos as coisas , mas esta barreira existe não só pela nossa ignorância mas também pelos meios mais conservadores, que insistem em alienar-se do restante mundo.
Uma tentativa de ser “superior” que , a meu ver, torna as pessoas intolerantes e isto para mim é o grande problema, da mesma forma que nós não respeitamos totalmente as suas crenças, “eles” não se expressam de forma a mudar as nossas ideias e muitas vezes fazem o contrário, atacando, aumentado assim mais a “indiferença”.
PS: as imagens são muito boas!
Isto é totalmente verídico. Infelizmente, a nossa sociedade não é digna de apreciação.
No Irão o machismo prevalece, na Europa prevalece à mesma.
Filipe: sim, é o problema dos fundamentalistas de ambos os lados e de pessoas como esse Ahmadinejad.
@ Filipe Cabaço – Por acaso esqueci-me de referir o que referiste e que, a meu ver, está muito bem exposto: “Uma tentativa de ser “superior” que , a meu ver, torna as pessoas intolerantes(…)”
O que os está a safar e a Internet (nomeadamente Twitter e Youtube) que vai sem duvida vai mudar aquele pais e a forma como nos vimos o pais.
Antes destas eleições, eu (e muita gente aposto…) via o povo do Irão como um povo que aceitava e não reagia (um povo português no fundo
) mas graças a esta grande divulgação pelos novos media ajudou em muito a curar parte da minha ignorância.
Acho que dizer que estão de preto chama ao luto, isso só o é porque na nossa sociedade é a cor associada a. Se for pelo olhar, talvez sim, alguma, vá, tristeza ou mesmo conformismo.
Por comparação destas duas, e somente destas duas fotos, claro que a segunda ressalta por se ver alegria, sentimento mais que de sociedades, de pessoas, de bem estar, universal!
Em todo o caso, a interpretação é (quase) sempre do nosso ponto de vista, dos nossos valores e da nossa sociedade. E o trajar delas e a cor são o típico da cultura.
Qualquer interpretação, a meu ver, deverá ser feita dlas palavras delas, pelo que sentem e não pelo que nós, ocidentais, vemos de diferente da nossa cultura.
Achei esteartigo interessante pois menciona que grande parte da população do Irão é pobre e só um terço tem acesso á Internet. Sendo assim não é de admirar as classes terem votado em quem representa mais os seus interesses.
Quanto ás fotos, pode-se julgar que as de cima podem ser de mulheres de uma classe pobre e as de baixo de uma classe com mais meios económicos incluindo universitários, etc.
sinceramente acho este post uma grande treta.
A visão que temos das pessoas, claro, depende sempre do poleiro onde nos encontramos, neste caso o mencionado é o poleiro ocidental, mas a este poleiro chegam as coisas que alguém quis que chegassem, não é sempre assim?
Há uns tempos um bom amigo árabe, amante do seu povo mas reprovador das suas crenças e por isso perseguido, dizia-me que o que mais o entristecia eram, precisamente, as mulheres, sempre prontas a dizer o que achavam que as salvariam de males maiores… e por toda a história medieval, que infelizmente se estende abusiva até aos nossos dias, se encontram as mulheres prontas a representar o papel de agredir e acusar as outras mulheres, seres sempre tidos como frágeis, mas que, assim, talvez nem tanto, e sim, é tão difícil compreender o que se passa tão tão longe da vista e do coração do poleiro onde nos inclinamos, alguns, tantas vezes, a tentar descortinar o que vai no andor do autor lado do entendimento…
* do outro lado do entendimento
(ao bitaites só falta um corrector ortográfico para proteger os alucinados do léxico que nunca bate certo..)
Não percebo.
Neste artigo faz-se uma comparação intrigante.
Desenvolve-se para uma questão de interpretação parcial.
Depois para uma crítica pessoal de uma das facções em particular.
E finalmente voltamos à questão da parcialidade, generalizando (uma perspectiva que é pessoal) o mundo ocidental.
Mas em que é que ficamos?
não ficamos em lado nenhum
tens o melhor blogue do país. parabéns!
Que ninguém seja prisioneiro da sua cultura…..