
Esta fotografia de John Moore, da Getty Images, apareceu na capa do New York Times no Memorial Day – dia que os americanos dedicam a lembrar os entes queridos que morreram em combate. Tirou-a na secção 60 do Arlington National Cemetery a 27 de Maio deste ano. Esta é uma secção do cemitério preenchida apenas pelas campas dos que tombaram no Iraque e no Afeganistão.
A rapariga da foto chama-se Mary MacHugh e encontrava-se junto à campa do noivo, o sargento James J. Regan, 26 anos, morto a 9 de Fevereiro quando um engenho explosivo detonou perto do carro-patrulha em que seguia, algures numa estrada no norte do Iraque.
John Moore, o fotógrafo, esteve durante mais de cinco anos em zonas de combate, tanto no Iraque como no Afeganistão. «Vi o pior que alguém pode ver: o ódio, a raiva, a desolação e o desespero, muitas mortes, tanta destruição» e, por fim, referindo-se a esta foto, «uma jovem rapariga chorando o seu amor perdido para sempre».
A foto correu mundo: capta muito bem a dor da perda, a destruição dos sonhos e dos planos de uma jovem pela infame estupidez da guerra. A forma como ela se encontra sozinha no cemitério, rodeada de dezenas de tumbas de mármore, lembra-nos a solidão que todos os seres vivos devem sentir perante a morte. Descalçou os sapatos, deitando-se sobre a campa do noivo como se o quisesse abraçar – é um momento muito Ãntimo.
Há quem considere que o sucesso desta fotografia tem a ver com a sua carga erótica. Jerry Monaco, uma das estrelas do Live Journal, descreve no seu blogue o poder de manipulação desta imagem: «Se em vez de uma jovem bonita, o fotógrafo tivesse captado uma mãe gorda de meia-idade deitada com os pés descalços chorando a perda do filho, a foto não teria metade do impacto e provavelmente nem sequer chegaria à capa do New York Times». Monaco considera esta foto um exemplo do que chama «luto sexualizado». Explica que a foto segue a tendência de um certo tipo de arte do século passado (pinturas e esculturas) nas quais nos é apresentada uma ligação entre morte e beleza.
Haverá realmente uma carga sexual neste foto? Digam de vossa justiça. Não lhe vemos a cara, é verdade – o que significa que é a nossa imaginação que se encarrega de lhe dar um rosto. Temos então uma mulher jovem, elegante, frágil, exposta. Não inspirará um certo tipo de ternura lânguida?


Podemos manipular uma foto de forma a potenciar um certo tipo de mensagem? A imagem que saiu no New York Times não é exactamente a mesma que o original enviado por John Moore. A parte de cima da foto foi propositadamente ‘cortada’ pelos editores do jornal de forma a potenciar-lhe certas caracterÃsticas. Ao «apagar» as outras pessoas e o cenário, deixando só as campas e a rapariga, conseguimos o retrato da solidão e da morte.
John Moore, como bom fotógrafo que é, soube escolher a melhor foto. Na primeira que ele tirou (à esquerda), já se vê que a rapariga não está tão sozinha – e a foto perde toda a sua força anterior. Uma simples mudança de ângulo é suficiente para alterar toda a história e transformar uma imagem num sÃmbolo que alguns consideraram ter apenas objectivos de propaganda polÃtica. Ver mais aqui































13 comentários
Por momentos fiquei sem palavras, está mais que provado que o segredo deste blog está como consegues “falar por palavras”. Parabéns é cativante a tua escrita.
Sim é verdade consegue-se manipular uma imagem ou um vÃdeo, a ver bem qualquer coisa, para ter a interpretação que desejamos. Não sou a favor da guerra, de maneira nenhum, ainda para mais de um pais que diz ser o PaÃs das oportunidades, não considero carga sexual nenhuma nesta foto, é claro que se fosse uma mãe gorda como descreveram não teria tanto impacto, mas também ai se manipulava para ter o seu impacto não era?
O que vejo nesta foto são sonhos, projectos, vidas alteradas por uma guerra. A solidão é o pior dos sentimentos ( a meu ver) a estar assim sem poder ter feito nada e ver das pessoas mais importantes da nossa vida assim, desaparecer pelo pais da Liberdade. Além da parte de estar descalçada pode ter muitas conectividades..
postas destas são musica meu caro, isto é musica pá… isto é Zappa.
A foto é excelente, mas nota-se que foi trabalhada (pose, etc…).
Lamento por quem morreu em combate, mas é no que dá os americanos terem a merda da mania de querer conquistar tudo e combater o “terrorismo”.
“Se fosse uma gorda nao tinha tanto impacto”
E então? Não é uma gorda…e a foto está brutal.
E mm que fosse uma gorda poderia dar uma foto excelente…
como diria a minha amiga Katie Melua:
“(…)
I could tell you to go to war,
Or I could march for peace and fighting no more,
How do I know which is right,
And I hope he does when he sends you to fight.
Because the line between wrong and right,
Is the width of a thread from a spider’s web,(…)”
Concordo que em termos de impacto a foto após ser manipulada apresenta-nos algo mais forte, diferente. No entanto o objectivo considerado polÃtico tem toda a razão de ser.
Abraço
A qualidade deste artigo, é a razão pela qual visito o blogue diariamente!
Cumprimentos
O resultado de uma guerra é inevitavelmente a morte, não é este o mundo em que eu gosto de viver? Quanto sangue ainda terá que ser derramado em troca de petróleo?! Enough is enough.
A
@Joao Fernandes,
Se não for por causa do petroelo, sera por outro motivo qualquer. Não substimes a criatividade humana. Ha de se arranjar sempre alguma coisa sobre a qual lutar.
Conclusão, peguem no vosso dinheiro e invistam nas empresas de armamento que essas têm sempre trabalho.
A foto é de facto magnÃfica. Um momento triste e intÃmo para ser capturado, mas com uma força enorme. Haveria tanto para dizer sobre isto, mas a foto fala por si…
Sinceramente não vejo qualquer conotação erótica nesta fotografia, apenas saudade e um sentimento de perda e tristeza de quem perdeu alguém que lhe era muito especial.
O facto de a fotografia ter sido “manipulada” penso que seria para evidenciar o que anteriormente referi.
Mas sem dúvida uma imagem que deverá correr mundo…
Cada cabeça cada sentença…até o fato de a moça tirar os sapatos já fará algum engraçadinmho dizer que ela assim lembra melhor do motel onde certamente passaram grandes momentos…
Outros criticam a escolha da melhor incidência da pose capturada, para realçar os seus sentimentos….outros criticam o petróleo como o grande causador de tudo…outros insinuam exibicionismo…meu Deus, até um instante de dor tem de passar por um cenógrafo e um crÃtico de arte? E se fosse uma mãe velha e gorda e feia, a beleza de sua dor não mereceria nosso respeito? Ora, vão catar coquinhos!