
8 de Junho de 1972. Um avião da Força Aérea Vietnamita bombardeia Trang Bang, uma população sul-vietnamita situada a 38 quilómetros de Saigão. Centenas de homens, mulheres e crianças morrem em consequência desse bombardeamento com napalm.
O ataque não ocorreu por engano: tratou-se de uma operação militar destinada a travar o avanço dos vietcongs sobre a capital e proteger a retaguarda dos soldados vietnamitas. Os americanos não estiveram directamente envolvidos na operação: o processo de retirada de tropas do terreno ficará concluÃdo a 12 de Agosto desse ano, embora a acção dos bombardeiros B-52 se tenha intensificado nesse perÃodo (fonte). Mais tarde, comentando as circunstâncias em que o ataque aconteceu, veteranos do Vietname afirmaram que os vietcongs tinham usado a população como escudo – daà os danos colaterais.
Das consequências deste ataque ficou-nos uma imagem que se tornaria uma das grandes fotografias da guerra, de todas as guerras: crianças inocentes – os tais «danos colaterais» – fugindo ao horror do napalm.
Talvez por parecer ainda mais frágil do que as outras, o olhar do fotógrafo vietnamita Nic Ut centra-se na menina de 9 anos de quem mais tarde se tornará amigo e protector, Kim Phuc. Vê-a correr na sua direcção, gritando «muito quente, muito quente», com as costas, os ombros e os braços queimados pelo napalm. O rapaz que se vê a correr à frente dela, do lado esquerdo na foto, é o seu irmão mais velho, Phan Thanh Tam. Nic Ut tirará mais fotos deste episódio, incluindo uma em que a avó da menina foge com o neto ao colo, um bebé que não resistiu às queimaduras e acabou por morrer nos seus braços.
Caminhando na mesma estrada, os soldados parecem indiferentes ao sofrimento das crianças, o que torna a foto ainda mais reveladora de como a guerra também é capaz de despedaçar um ser humano por dentro.
Nem todos se mostrarão indiferentes: como recordará a própria Kim Phouc à BBC, numa entrevista dada a 29 de Abril de 2005, um dos soldados deixa-se tocar pelo sofrimento da menina, dá-lhe de beber do seu cantil, deita-lhe água sobre as costas queimadas julgando assim que lhe aliviará a dor.
A famÃlia sobrevivente reúne-se à volta de Kim Phouc e do grupo de jornalistas. Nic é vietnamita e o único capaz de comunicar com as pessoas que, desesperadas, pedem aos repórteres para as levar para o hospital. Nic sabe que as fotos que tirou são importantes e devem ser enviadas o mais rápido possÃvel, mas acaba por concordar em levar a menina ao hospital de carro. Com ele seguem os dois irmãos, um tio e uma tia.
Dirigem-se ao hospital de Cu Chi, a meio caminho de Saigão. A rapariga grita de dores, pede água, diz sentir-se a morrer. Cada movimento do carro provoca-lhe dores imensas quando a pele queimada entra em contacto com o banco. O fotógrafo recordará mais tarde que a menina gritou até desmaiar.
Uma hora depois chegam ao hospital.
A regra ali é a seguinte: tratar primeiro os doentes que os médicos consideram ter hipótese de sobreviver, deixar os casos mais graves para depois. A menina faz parte deste último grupo – por esta altura, já o fotógrafo está demasiado envolvido com o drama e recusa abandoná-la a uma morte certa. Puxa dos galões de jornalista: conta aos médicos o drama que presenciou, diz-lhes que o rosto da menina que eles não querem tratar estará nos principais jornais em todo o mundo.
Acaba por convencê-los.
Só quando se certifica de que a criança entrou na sala de operações é que abandona o hospital para enviar as fotos. Kim Phouc ficou internada no hospital 14 meses e fez 17 operações ao todo. O fotógrafo foi sempre visitá-la.
Meses depois de as fotos terem sido publicadas e o nome Nik Tut se tornar famoso em todo o mundo, o fotógrafo foi entrevistado para recordar as circunstâncias em que as imagens foram tiradas.
Nic contou tudo o que se passou, excepto a parte em que se meteu no carro e procurou salvar a vida de uma menina.
Só 28 anos depois do dia em que a fotografia foi tirada o mundo soube do papel do fotógrafo. E foi a própria Kim Phouc quem o revelou quando finalmente o conseguiu reencontrar, em Londres, durante uma audiência com a Rainha. Abraçando-o, apresentou-o como «o homem que salvou a minha vida».
Entrevista a Kim Phouc | Digital Jornalist: A História contada pelo fotógrafo
Entrevistada pela CBS a 19 de Setembro de 2000, Kim Phouc dirá que, ao olhar para a foto, sente-se ainda como «se tudo aquilo tivesse sucedido ontem». Mas a conversão ao Cristianismo, afirma, ajudou-a a resolver os fantasmas do passado: «Eu fui uma vÃtima da guerra, fui uma vÃtima de muitas coisas. Mas penso que consegui uma vitória, pois entretanto aprendi a perdoar».
Kim Phouc julgou que nunca mais seria atraente aos olhos de um homem por causa da extensão das queimaduras nos ombros, nos braços e nas costas, mas hoje em dia é casada e mãe de dois filhos. Fez as pazes com o mundo.
Sempre recusou que a sua história e a foto fossem usadas para fins de propaganda polÃtica, tanto por vietnamitas como por americanos.
Fugiu do Vietname e refugiou-se no Canadá, onde ainda vive. É numerosas vezes chamada para contar a sua história à s novas gerações. Fundou a Kim Foundation, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a ajudar crianças vÃtimas da guerra. É Embaixadora da UNESCO e a sua missão é levar uma mensagem de paz ao mundo.

Numa luta mortal de seres contra seres da mesma espécie, a distanciação imposta aos soldados tem nas fardas o seu sÃmbolo mais poderoso. Cada nação, ou grupo de nações, tem a sua própria farda – e vesti-la permite distanciar seres humanos e criar, de forma artificial, uma subespécie de homens mentalizados para destruir outras subespécies que também são criadas artificialmente.
Esta distanciação é conseguida à força da disciplina e de conceitos abstractos como «patriotismo» e «justiça» ou seja lá o que for que aos falcões da guerra der jeito inventar.
No caso da Guerra do Vietname, a palavra-chave foi «Democracia». A «Democracia» seria transportada em aviões e navios de guerra e servida a um povo sedento de Liberdade (outra palavra) e desejoso de se libertar do jugo comunista do Vietname do Norte.
Mas como dizia um soldado americano que combatia no Vietname, no filme Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick, «Democracia é apenas uma palavra. Se andamos aqui a combater por uma palavra, então eu prefiro combater pela palavra ‘Foder’, que é a minha preferida.» Neste sentido, «Democracia» tem um significado tão dúbio e falacioso como a expressão «Danos colaterais».
O objectivo das fardas é colocar sucessivos obstáculos à nossa consciência moral que nos diz que o soldado inimigo é um ser humano como nós e que, noutras circunstâncias, não desejaremos matá-lo. Se nos recusarmos a usar fardas, visÃveis ou invisÃveis, é mais difÃcil que os Donald Rumsfeld deste mundo convençam os povos de que a guerra faz todo o sentido. Porque não faz. Não faz mesmo.

Talvez as fotos mais marcantes do Vietname sejam aquelas em que o fotógrafo consegue desfazer a ilusão da farda e das palavras vazias, e mostrar-nos um ser humano em vez do inimigo, retirando qualquer sentido que os falcões possam querer dar a uma guerra.
A célebre foto tirada a 8 de Junho de 1972 pelo vietnamita Nip Tuk (prémio Pulitzer) mostra-nos que a guerra é sempre feita contra a Humanidade, a Humanidade dentro de nós: vemos crianças fugindo aterrorizadas das nuvens de Napalm e, ao mesmo tempo, um grupo de soldados que caminham na mesma estrada, parecendo indiferentes ao seu sofrimento. A nossa compaixão é dirigida à s crianças, mas o mais chocante deste foto é que poderÃamos ter ocupado o lugar daqueles soldados, vÃtimas, como aqueles, do mesmo processo de distanciamento artificial entre seres humanos que age à sombra de uma guerra e a torna possÃvel. Tanto pode ser induzido pela farda como pela distância fÃsica, como foi o caso do piloto do avião (sobre a identidade do piloto: post em preparação), impossibilitado de presenciar a tragédia individual que as suas bombas provocaram.
Tudo o que mina as nossas esperanças para o futuro da Humanidade se desenrola ali, naquela foto: crianças cujo instinto nos impele a proteger são mortas e, se sobrevivem, vêmo-las em pânico e em sofrimento, abandonadas; homens que em circunstâncias normais as protegeriam caminham com indiferença porque, como escreveu o escritor e ensaÃsta Edward Bond, se encontram «despedaçados por dentro» pela crueldade da guerra.
Derrotando a moral do inimigo: As fundações psicológicas da guerra de manobra | Vietname War































10 comentários
Marco, estas palavras deveriam ser gravadas em granito, tal a beleza e a verdade aqui encerradas….parabens pelo alto grau de sensibilidade
-infelizmente inutil, pois o bicho homem é sem dúvida o animal mais inferior da escala zoológica, praticando o mal e sabendo disto….haverá um dia outro tipo de mentalidade?
Porque será que natureza humana é como é…?
Boas, concordo plenamente com sergio rebouças, trata-se de um artigo muito profundo e demasiado real para nossa tristeza
Não percas o andamento, continua com estes artigos, gosto bastante da tua escrita.
tudo o que queria dizer já foi dito.
excelente selecção de artigos, todos os três. Pessoalmente os melhores que tiveste aqui no Bitaites.
abraço
conheces esta do Bansky?
http://www.banksy.co.uk/indoors/napalm.html
João Fernandes: Obrigado.
Matarbustos: A Democratização do Mundo Segundo Banksy?
Conhecia, sim. Aliás, cheguei a escrever um post sobre ele que ainda não tive tempo de passar do antigo Bitaites para este.
EDIT: Acabei de o passar para cá.
Demasiado hediondo
Boa noite,
Ja leio o bitaites á algum tempo, no entanto esta é a primeira vez que eu deixo um comment. Queria desde ja dar os parabens ao Marco pois este é um dos melhores blogs que conheço e não deixo de aparecer neste blog todos os dias. Eu geralmente não gosto de maçar os bloggers com textos que não interessam a ninguém, mas sem duvida que esta historia marcou-me, do principio ao fim. Era uma historia que eu desconhecia, e que é realmente impressionante, todas as fotografias e o dom que tens para escrever. Uma historia realmente triste, mas que tem uma grande mensagem. E conseguiu deixar-me com uma lagrima no canto do olho. Espero que continues o bom trabalho que tens vindo a fazer com o blog.
João Rodrigues
Quem precisa sofrer asssim???
niguewm ne????
as guerras são a destruição do mundo.
ainda bem que eu moro num pais da paz o brasil é e tomara que sempre continue assim um pais tranqüilo.