→ 18/03/2008 @17:24

No divã de Freud

A fotografia libertou a pintura da «obrigação» de representar a realidade «como ela é». Mas a realidade «como ela é» também pode ser muito enganadora, como nos demonstraram as descobertas da Física Quântica. Talvez a realidade «como ela é» não seja mais do que um fenómeno estatístico tão fantasmagórico como os milhões de electrões que formam uma imagem coerente num ecrã. Talvez não signifique grande coisa. Se 1000 pessoas observarem uma laranja existem grandes possibilidades de que a grande maioria a identifique como tal. Portanto só pode ser uma laranja. Ou não?
Um pintor poderia dizer que o olhar é apenas uma das formas de percepcionar a realidade – e provavelmente nem será a mais importante.
Durante muito tempo a fotografia ocupou o lugar da pintura nessa representação da realidade estatística – os objectos que a maioria de nós consegue de ver de forma muito semelhante. Talvez por isso um grande pintor como Edvard Munch tenha afirmado que «a máquina fotográfica não podia competir com o pintor» enquanto não pudesse «ser usada no Céu e no Inferno». (Fonte: No Céu e no Inferno, Fora de Cena)
Um repórter fotográfico de guerra poderia discordar. São muitos aqueles que falam de «Inferno» quando recordam as atrocidades que viram e fotografaram. Mas o que eles fazem é foto-jornalismo – continua a ser uma representação da realidade «como ela é» aos nossos olhos. É uma realidade suficientemente triste para nos preocupar ou deprimir, mas Munch referia-se a algo mais profundo: o Céu e o Inferno das nossas mentes. Tudo começa e acaba dentro de nós. Não há volta a dar-lhe.

As fotos da americana Alison Brady (conheci-a no Obvious) mostram-nos outro tipo de inferno: o da alienação da vida moderna e o preço que se paga pelo conformismo. A iluminação e as cores, as poses dos modelos e o glamour, lembram o artificialismo das fotografias publicitárias que Cartier-Bresson tanto desprezava. Mas esse artificialismo existe aqui só para ser cortado à faca.
Brady diz-nos que corresponder ao papel que a sociedade moderna espera de nós implica aceitarmos alguma forma de violação ou opressão. No caso das mulheres aqui retratadas, elas são bonitas mas psicologicamente perturbadas, independentes mas ansiosas, sorridentes mas deprimidas, sexuais mas profundamente feridas.
É espantoso como uma fotógrafa tão jovem (ela nasceu em 1979) tenha tomado em mãos a tarefa de nos sentar a todos no divã de Freud. O que fará Brady à medida que os anos passarem e a sua experiência de vida for enriquecendo?

2 comentários

  • 1
    anaeugenio
    com Firefox 2.0.0.12 Firefox 2.0.0.12 em Windows XP Windows XP
    19 de Março de 2008 - 17:47 | Link permamente

    e no caso dos homens? creio que só há diferenças na forma! como observadora de ambos os géneros, creio que a profundidade é semelhante. era bom que se deixasse de categorizar o que, em verdade, é humano e comum a todos. era bom que se deixasse de criar separação com base em questões de pormenor. em profundidade, todos os seres humanos estão perturbados, ansiosos, tristes e magoados. categorizar distrai-nos da nossa própria fragilidade, dá-nos uma ilusão de força. eu sei que Alison Brady retrata mulheres. creio que se retrata a ela própria. o seu céu e o seu inferno. não justifica observarmos o seu trabalho na perspectiva do feminino. ela retrata a sua humanidade. e os homens também são humanos, violados e oprimidos. e os homens também são femininos.

  • 2
    com Firefox 2.0.0.12 Firefox 2.0.0.12 em Windows XP Windows XP
    21 de Março de 2008 - 01:23 | Link permamente

    Alison Brady utiliza como modelos pessoas suas amigas que a isso se dispõem, homens e mulheres. Está tudo explicado na sua página pessoal.
    Impressionou-me bastante a sua fotografia, simples, sem grandes recursos ou efeitos, apenas composição cenográfica mas muito bem feita.

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