→ 12/11/2007 @18:43

O fotógrafo do Amor e do Humor

Embora a fotografia mais conhecida de Robert Doisneau (1912-1994) seja Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950, transformada em ‘poster’ romântico, o que sobressai no portefólio deste magnífico fotógrafo francês é o sentido de humor e o amor incondicional por uma cidade e pelos seus habitantes.

Morreu a 1 de Abril de 1994, a poucos dias de completar 82 anos, e deixou-nos um legado precioso, um acervo de 145 mil negativos, a maior parte dos quais fotografias de Paris e dos parisienses.

Apesar do valor documental do seu trabalho, Doisneau nunca permitiu que fizessem dele um historiador da capital francesa.

«Fui uma falsa testemunha da minha época», afirmou uma vez. «Falsa» porque acreditava que «uma foto só deveria ser tirada quando o coração do fotógrafo estivesse repleto de amor pelos seus semelhantes».

Doisneau falava a sério e fazia o que dizia: em 1932, depois de publicar a sua primeira reportagem fotográfica, foi contratado pela Renault como fotógrafo industrial. Um emprego certo e bem remunerado, mas acabou por ser demitido por faltar com frequência ao trabalho, perdido em constantes deambulações por Paris.

Doisneau não amava carros e fábricas e linhas de montagem, era um artista e amava as pessoas. Não conseguia fotografar sem amar.

Mesmo nas suas fotografias mais humorísticas não existe distanciação ou uma mudança de perspectiva: Doisneau não goza, brinca. Para ele, «o humor é uma forma de modéstia, de não descrevermos as coisas, de lhe tocarmos com delicadeza, como um piscar de olhos. Humor é, ao mesmo tempo, máscara e discrição, um abrigo onde é possível esconder-se».

 

Um beijo milionário

É uma daquelas fotografias iconográficas: um casal de jovens amantes beijando-se em plena rua da romântica Paris, indiferentes ao que os rodeia. Ou não.

Robert Doisneau tirou-a em 1950, quando andava a fazer uma reportagem para a Life Magazine sobre jovens apaixonados em Paris. A foto permaneceu esquecida nos arquivos da revista mais de 30 anos, até que uma empresa de comercialização de posters, percebendo o potencial comercial da imagem, adquiriu os direitos de utilização. O sucesso foi estrondoso.

Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950 começou por ser um símbolo da Paris romântica dos meados do século XX, mas acabou por tornar-se o símbolo do próprio amor romântico. O mundo já venerara outro beijo, o da célebre escultura de Auguste Rodin, da década de 80 do século XIX, mas este beneficiou das maravilhas da impressão gráfica, multiplicou-se e cruzou os mares.

Este símbolo romântico do século XX nada teve de espontâneo. Doisneau reparara naqueles dois sentados numa esplanada e abordara-os, explicando-lhes que tipo de reportagem andava a fazer e pedindo-lhes que posassem a dar um beijo. Os jovens, que frequentavam uma escola de Teatro, concordaram.

O próprio fotógrafo contou a história da foto numa entrevista dada em 1992, confirmando a encenação: «Nunca me teria atrevido a fotografar pessoas assim, amantes beijando-se em plena rua». Não por vergonha, explica, mas porque «esses casais raramente são legítimos».

Doisneau resolveu falar do assunto porque, por essa altura, o sucesso dos posteres andava a fazer com que muitos «casais» se assumissem como os protagonistas da foto, procurando ganhar dinheiro fácil. O fotógrafo desmascarou-os a todos nessa entrevista, revelando, mais de 50 anos depois, a verdadeira identidade do casal: Françoise Bornet e Jacques Carteaud. Doisneau também contou que oferecera o original da foto à jovem poucos dias depois de ter sido publicada na revista.

Há dois anos, ela deu a cara para anunciar que O Beijo ia ser colocado à venda. O leilão, organizado pela Artcurial Briest-Poulain-Le Fur, teve um preço de licitação inicial de 20 mil euros, mas acabou por ser vendido por 155 mil.

Nessa ocasião Françoise encarregou-se de desfazer ainda mais a aura romântica da imagem quando afirmou que aquela «era uma foto que nunca devia ter existido, talvez por isso se quisesse livrar dela, mais do que pelo dinheiro» e revelando que, poucos meses depois do beijo apaixonado em Paris, ela e o namorado já tinham acabado.

Download: Dezenas de fotografias em alta definição de Robert Doisneau

Um comentário

  • 1
    Inês
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    14 de Janeiro de 2008 - 19:54 | Link permamente

    PARABÉNS! o blogue é genial!

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