

Notam as diferenças entre estas duas fotos? A da esquerda é a foto submetida ao concurso World Press Photo; a do lado direito é a original, embora o autor a tenha cortado para lhe dar o enquadramento que queria. A foto que realmente captou é esta.
Quando falo em diferenças, não me refiro aos filtros usados na foto da esquerda, mas, se repararem bem, ao desaparecimento de um pé junto à mão do atleta ferido. O fotógrafo, o russo Stepan Rudik, considerou que aquele pé causava um ruÃdo desnecessário à imagem e removeu-o digitalmente.
O júri considerou que essa manipulação alterava o conteúdo da imagem e era contrária às regras do concurso – por isso, Stepan Rudik foi desqualificado e perdeu o terceiro prémio na categoria de eventos desportivos.
O fotógrafo entrou em contacto com um dos sÃtios que divulgou a notÃcia e a partir do qual este post foi escrito – Peta Pixel – e escreveu uma mensagem defendendo a sua hombridade profissional.
Stepan reconheceu a justeza da decisão do júri, mas chamou a atenção para o facto de a remoção do pé não ter implicado «qualquer alteração significativa da informação, até porque esse pé não era o assunto da imagem submetida a concurso». Que acham, foi bem desqualificado ou consideram a decisão injusta?































25 comentários
Apesar de ser um tema que leva sempre a grandes discussões onde os dois lados tem argumentos de peso, pessoalmente acho a decisão ridÃcula, pois concordo totalmente com o argumento do autor.
O homem não inventou nada na foto, apenas lhe tentou dar um maior impacto.
Hoje em dia todas (ou quase todas as fotos) levam edição, aliás antigamente isso também acontecia aquando da revelação.
Já agora gostaria de saber se as restantes fotos a concurso não sofreram qualquer tipo de edição.
Saudações
NePPer
PS. – Depois de ter ido ao Peta Pixel mudo de opinião e concordo com a desclassificação pois os regulamentos são claros:
“The content of the image must not be altered. Only retouching which conforms to the currently accepted standards in the industry is allowed.”
se as regras estipulam que o conteúdo não pode ser alterado… foi bem desclassificado.
Bem desclassificado, sem dúvida, tendo em conta o tipo de concurso. Se fosse uma competição de artes digitais seria diferente. Na minha opinião, mesmo cortes e filtros nas imagens deviam ser muito bem regulamentados. Vejamos a foto original: nada tem que justifique, sequer, a participação num concurso. Tudo é banal, desde o tema, a composição e a imagem em si. Após o corte e os filtros, o concorrente conseguiu uma imagem bem mais interessante, mas o que está em causa? As capacidades dele enquanto fotografo (técnica e artÃstica) ou o domÃnio do photoshop? Será realmente necessário captar imagens para um evento como o WPP ou basta ir a um banco de fotografias, comprar os direitos e editá-la o suficiente para ser outra?
Antes que venham os trolls dar porrada aqui ao purista, digo já que aprecio muito, e valorizo, a composição digital. Só me parece que um concurso se fotografia se devia concentrar mais no conceito da mesma.
Sinceramente acho que não foi justo. Um júri existe mesmo para estas situações, onde o bom senso humano é necessário para resolver o que aparece. Se assim não fosse, criava-se uma qualquer máquina operante sob algum algoritmo de decisão, fria e cega. E o júri, comportou-se como tal, lendo, à letra, o regulamento.
Penso que é mais interessante uma pintura, feita com o tempo, traço por traço, do que um simples carimbo com as mesmas formas e cores. Estas alterações digitais, são como carimbos pré-definidos digitalmente, que simulam um trabalho que apenas o acaso/sorte tempo e técnica costumavam dar. Os trabalhos são semelhantes no resultado pretendido, mas não vejo o mesmo significado neles, pelo menos neste tipo de prémios, que tentam destacar o que se passa no mundo e não aquilo que se passa na cabeça de quem tira a foto. Por isso, não, não concordo com a manipulação de fotografias neste tipo de concurso.
Pessoalmente concordo com o júri, regras são regras, e devem ser cumpridas. E claro que acho muito bem que o fotógrafo em questão tenha acatado a decisão mas se tenha dado ao trabalho de explicar o “mal” que fez, pois é a sua reputação que está em causa.
Há vários tipos de concurso e acho que ele não deve deixar abater-se com esta “derrota”. Levantar a cabeça e continuar a fazer aquilo do que gosta
. Já diria alguém: Quem espera, sempre alcança.
Vestrum, Nuno Vale.
Penso que foi bem desclassificado, embora o fotógrafo apresente um argumento bem fundamentado e com sentido.
Contudo muito do mérito e do reconhecimento internacional que o concurso World Press Photo alcançou está ligado não apenas à fotografia, enquanto conceito e/ou arte, mas também (talvez sobretudo) aos momentos captados. Momentos no verdadeiro sentido do termo.
O argumento do autor é válido. Mas, sinceramente, o que é o “content” e o que é “retouching”?
Mudar uma coisa de vermelho para preto é um “retoque” ou alterar o “conteúdo”? Desuniformizar o chão é um “retoque” ou uma alteração de “conteúdo”? Remover algo acessório à foto como o pé é um “retoque” ou uma alteração de “conteúdo”?
A substância (que se identificará muito mais com o termo conteúdo) de uma foto será muito mais alterada através de tudo aquilo a que aparentemente o juri considera “retoques” do que pela alteração/remoção de algo tão inócuo.
Dizem que foi bem desclassificado porque as regras dizem isso? Talvez. Mas levem-nas à letra e a fotografia (e imagino que muitas outras) nem seria admitida, pois jamais tal alteração da foto poderia ser considerada um retoque.
Bom, a foto a concurso também foi alterada, pois esta a p/b, o pé da discórdia mal se vê.
Foi bem desclassificado.
Contudo era conveniente saber se todas as participações estiveram sujeitas ao mesmo critério.
A Arte não pode estar limitada por regras. O Artista tem que acompanhar a evolução dos meios e técnicas. Se existem novas formas de fazer as coisas tem que as explorar. Só dessa forma pode ser criativo e é isso que o faz um verdadeiro Artista. É isso que é a Arte, evolução. Nesta caso julgo que as regras estão, como em muitos outros casos na actual sociedade, ultrapassadas pela realidade.
Marco,
sinceramente estou farto do Photoshop e de todas as manipulações digitais que existem actualmente nas fotos. Manipulou, foi desqualificado, decisão correcta
Bem desclassificado, obviamente. Já o enorme crop e o e o preto e branco “dramático” foi abusar da sorte.
Bem… aquilo com o pé não ficava nada bem.
Mas assim olha… lixou-se.
as regras do wpf dizem que a fotografia jornalÃstica não pode sofrer mais manipulação do que o tratamento de contornos geralmente admitido como razoável (?), tendo, no entanto, uma polÃtica mais permissiva quanto ao retrato.
embora não saiba o que é razoável, sou abrigado a pensar que o autor da fotografia estava ao corrente das regras e que, como tal, não terá direito a contestá-las – como, de resto, acontece, pelo que se lê.
mas a questão por detrás disto é muito mais complexa: até que ponto é que uma fotografia tem possibilidades de não ser manipulada? é possÃvel publicar uma foto sem manipulação – mais difÃcil: é possÃvel tirá-la sem, nesse preciso momento, estar a manipulá-la?
estas reflexões semiológicas andam a ser discutidas há muito… e eu tenho um fraquinho por elas (coisas de nerd). creio que publicarei um texto acerca do assunto, partindo daqui deste post.
mas, enquanto não sai essa obra prima, deixo aqui uma provocação:
roland barthes, “câmara clara” – um livro obrigatório. existe um bom artigo para ponto de partida cujo link vos deixo aqui numa tentativa de apimentar a discussão. aviso: altamente nerd.
http://www.faap.br/revista_faap/revista_facom/facom_16/ronaldo.pdf
hasta. depois digo alguma coisa.
Talvez a regra devesse impor usar máquinas analógicas e o envio dos trabalhos em papel fotográfico, não fosse o fotógrafo recortar o papel.
À parte isso, no mundo digital actual, a foto é excelente.
Paulo, em quase todos os concursos, incluÃndo o WPF, pode ser pedido aos concorrentes o envio do RAW (o rolo digital) para tirar dúvidas, o que aconteceu neste caso. Além disso a manipulação das fotos não é de agora, mesmo com analógico havia especialistas na revelação que dominavam o assunto, a diferença é que com o digital esse processamento democratizou-se.
E já agora, por falar em ética e fotografia, já viram isto: http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jan/20/wolf-wildlife-photographer-award-stripped ? E não mete Photoshop.
Acho que nem é preciso chegar a falar na remoção do pé.
Com aquele crop brutal e edição, isto está mais próximo da ilustração que do fotojornalismo.
É preciso ter lata.
Só para dizer que o desclassificava por ter aplicado filtros digitalmente, já nem falo do pé.
Estou farto de artistas da sépia!
A minha tia tirou fotos com a sua digital de bolso com zoom x3 numas férias fatelas.
Como ela não percebe mesmo nada daquilo fui eu que passei depois para o PC.
Peguei em algumas, fiz uns croppings, mexi nos gamma, nas saturações, brilhos e contrastes e depois ganhei um segundo prémio num concurso da biblioteca municipal.
Bleh… tava só a brincar… but you get the point.
Parece-me que os prémios de fotografia deveriam ter regras rÃgidas e admitir apenas fotos não tratadas. Só assim se consegue ver o génio do artista (ou sorte). Sendo assim, a foto tratada nem sequer deveria ter sido submetida a concurso, mas sim a original. E essa, não me aprece nada de especial…
O importante é captar o momento, não se devem fazer alterações ao conteúdo. Aliás essa é a regra.
pá… é polémico isto? A meu ver não. O digital é uma realidade assustadora a que estamos expostos e a que os profissionais da imagem têm acesso, a tentação de melhorar, de aperfeiçoar, de retocar é maior do que a maçã de Eva no paraÃso… a vaidade e a busca da “fotografia perfeita” é uma serpente muito mais perigosa do que estende a maçã no jardim do paraÃso. Desta vez foi “um pé”, e se da próxima alguém retirasse uma cara? uma arma? uma mancha de sangue? Ou acrescentasse algo mais?
A foto deve capturar o momento, o instante, o suspiro, é eternizar o exacto microssegundo em que fotografo, máquina fotográfica e acontecimento estão em perfeita harmonia, em perfeito alinhamento, num perfeito… paraÃso… e isso não
devepode ser manipulado.Tudo batota nesta foto. Cores passam para preto e branco, sombras a fechar o entorno, corte de geral para pormenor, de horizontal muda para vertical, grão realçado. Até podia ser permitido pelo regulamento, mas eticamente seria sempre errado. Um fotógrafo que se preze sente a mesma angústia com um clique em vão como sentia com um negativo desperdiçado. Fotojornalismo não é publicidade, nem arte digital, nem brincar ao Photoshop. E quem desclassificou não foi o júri, ele é que se desclassificou a si próprio.
@Sergio Currais
Não, quem o desclassificou foi o júri, após análise dos ficheiros raw das fotos. Se o fotógrafo não tivesse removido o pé, a foto era aceitável… o gajo “meteu os pés pelas mãos” LOL
Vejamos:
Pode recortar a foto digitalmente com o gimp
.
Pode alterar a cor.
E não pode tirar um pézinho
?
EDiT: sou mais um clone.