→ 08/04/2008 @14:51

O fotógrafo pacifista

A cobertura do conflito no Vietname e o lançamento, em 1971, do livro Vietnam Inc. ajudaram a esclarecer a opinião pública norte-americana sobre a guerra travada naquele distante país do sudoeste asiático. Juntamente com as três fotos emblemáticas da guerra – consultar post Três Fotos que Mudaram a Guerra do Vietname – Vietnam Inc mudou a percepção da América. O livro resultou do trabalho no terreno que Philip Jones Griffiths desenvolveu durante três anos. É um clássico do fotojornalismo.
Griffiths nunca quis ser considerado um fotógrafo de guerra: «Simplesmente fotografei-a. Se alguém quiser uma prova de como não sou um fotógrafo de guerra, ei-la: voltei ao Vietname 26 vezes desde que a guerra terminou. Os fotógrafos de guerra não regressam a países onde o conflito cessou, partem para a próxima guerra.» O trabalho iniciado em 1966 por este «pacifista assumido» nunca estará completo sem antes registar os efeitos, a longo prazo, da guerra.

Griffiths nasceu em Rhuddlan, País de Gales, a 18 de Fevereiro de 1936. O curso de Farmácia tirado na Universidade de Liverpool permitiu-lhe ganhar a vida como farmacêutico, mas a fotografia fora sempre a sua grande paixão desde a adolescência, «a minha própria janela para o mundo». Devorava as reportagens das grandes revistas da época – Life, Illustrated, Picture Post – e ambicionava seguir os passos dos grandes mestres do foto-jornalismo.
A sua primeira e grande influência foi Henri Cartier-Bresson: «A primeira foto que vi tinha 16 anos e foi durante uma palestra de Emrys Jones [Professor de Geografia]. Ele projectou uma fotografia de Cartier-Bresson virada de pernas para o ar. Fê-lo deliberadamente, para nos fazer esquecer o tema da foto e concentrarmo-nos apenas na sua composição. Foi uma lição que eu nunca esqueci».
Cartier-Bresson haveria de fazer justiça ao talento do seu pupilo quando, a propósito da publicação de Vietnam Inc., comparou o trabalho de Griffiths ao do grande pintor espanhol Francisco de Goya: «Depois de Goya, ninguém mais conseguiu retratar a guerra como ele».
Bresson terá mencionado Goya porque este pintor descreveu a guerra como um acto fútil e sem glória, sem heróis, apenas mortos e assassinos, numa série intitulada Los Desastres de la Guerra. Goya manifestava através da sua arte os horrores que testemunhara durante as guerras napoleónicas, denunciando a insanidade na conduta dos seres humanos e injustiça do sofrimento.
Se Goya ainda teve um período inicial da sua vida em que saboreou a alegria despreocupada, desde muito cedo Griffiths desenvolveu um apurado sentido de crítica social: «Ter crescido num país engolido pelo vizinho» – explica, referindo-se obviamente à Inglaterra -, «fez com que torcesse de forma natural pelos Davids deste mundo, em detrimento dos Golias.»
Numa entrevista efectuada em 2004, quatro anos antes de morrer, o jornalista Anthony Brockway invocou as torturas infligidas aos prisioneiros iraquianos de Guantanamo para perguntar ao fotógrafo se, em face disso, se podia dizer que os americanos tinham tratado bem os civis no Vietname. A resposta não poupou o Golias: «Quando o Tenente Calley foi questionado durante o seu julgamento por causa do massacre ocorrido em My Lai, o juiz perguntou-lhe ‘Você lançou bebés ao ar e disparou enquanto eles caíam?’ e a resposta foi ‘Sim, senhor. Enquanto ainda estavam no ar.’ A única diferença é que agora no Iraque qualquer soldado tem uma câmara digital.»

O seu esforço em mostrar a face humana da guerra – «Porque o seu sucesso depende da desumanização do inimigo» – não olhava a nacionalidades: uma das suas fotografias mais conhecidas mostra três soldados americanos a dar água a um vietcongue moribundo. Griffiths tirou a foto – ver post seguinte – numa altura em que, por causa de episódios como o massacre de My Lai, a América começava a diabolizar os seus próprios soldados.
Foi sempre muito crítico em relação à face «imperialista» da América. «Eles não eram tão maus comos os franceses, não lhes chamavam selvagens, amarelos ou coisas dessas, mas olhavam para os vietnamitas de cima para baixo. Fartei-me de ver soldados americanos abraçando um vietnamita e dizendo: «Aqui este menino vai a todas. A mãe e o pai foram mortos pelos Vietcongues e agora o que ele quer é dar-lhes porrada» E depois, num aparte para o fotógrafo: «Cuidado, ele tem mãozinhas leves. Não deixes nada de valioso à mostra». Mais tarde, Griffiths teria oportunidade de falar com o vietnamita a sós para descobrir que «estudara Filosofia na Universidade de Sorbonne durante três anos».
Já a relação com os nativos não foi meramente profissional. À medida que o tempo passava, Griffiths ia sendo conquistado por aquela gente simples mas astuta: «Sábios, introspectivos, sempre observadores. E eu pensei: uau. Isto é como estar no País de Gales. Foi com gente assim que eu cresci.» Não terá, portanto, razões para se arrepender da crucial decisão tomada em 1966, depois de visitar 40 países em regime de freelancer:
«Tinha duas escolhas: alargar ainda mais o meu raio de acção e cobrir os acontecimentos de forma ainda mais superficial ou encontrar o meu foco e fazer um trabalho mais profundo. Escolhi a segunda hipótese. E isso conduziu-me ao Vietname.»
Da experiência resultou então o livro Vietnam Inc., considerado até hoje um dos mais comoventes manifestos anti-guerra alguma vez feito por um repórter fotográfico. Noam Chomsky, activista político e reputado linguista, amigo pessoal do fotógrafo, haveria de escrever, com enorme optimismo: «Se as pessoas em Washington tivessem lido o livro, não tínhamos todas estas guerras no Iraque e no Afeganistão.»
Philip Jones Griffiths morreu a 18 de Março deste ano. Que descanse em paz.

Wikipédia | Videoclips com entrevistas a Philip Jones Griffiths | The Vietnamization of Philip Jones Griffiths| Magnum Blog: Philip Jones Griffiths | Download: 70 fotos em alta definição

3 comentários

  • 1
    a. almeida
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    9 de Abril de 2008 - 08:46 | Link permamente

    «Se as pessoas em Washington tivessem lido o livro, não tínhamos todas estas guerras no Iraque e no Afeganistão.»

    …Se calhar os politicos de Washington preferem ler a “Playboy” ou o “Tio Patinhas”.

  • 2
    joão
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    9 de Abril de 2008 - 12:44 | Link permamente

    Em Saigão (HCMC) existe o museu dos horrores da guerra, que de tão real, choca.

  • 3
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista
    14 de Abril de 2008 - 11:12 | Link permamente

    Parabéns pelo blogue, está muito interessante. Gosto em particular da selecção de fotos!

    Diana

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