→ 04/01/2008 @19:32

Os cães passam, a caravana ladra

Felix, Gladys and Rover, de 1974

Esta é uma das fotos mais conhecidas de Elliott Erwitt, fotógrafo americano nascido em Paris e filho de emigrantes russos. Felix, Gladys and Rover foram desancantados em Nova Iorque. Vemos as patas de um Grand Danois (o Felix), as botas de Madame Gladys e um minúsculo Chihuahua (o Rover).
Dizem os entendidos que o estilo de Erwitt deriva das composições rigorosas de Cartier-Bresson, com quem partilha a mesma preocupação em enquadrar com harmonia as pessoas ou objectos que fotografa. Mas enquanto Bresson, pai do foto-jornalismo, procurava momentos decisivos, Erwitt procura o humor e o bizarro – como alguém afirmou, os momentos indecisos. O seu ângulo de visão é tão deturpador que poderia parecer profano aos olhos de uma América mais purista – é o caso das fotos tiradas em colónias de nudismo e a da criança negra simulando um jogo de roleta russa.

Nem mesmo as fotografias mais humorísticas e improváveis do grande Elliott Erwitt são encenadas. O que ele faz é fotografar o que lhe chama a atenção, sem grandes racionalizações. Muitas vezes só descobre a fotografia durante o processo de revelação. Convidado por um jornalista do Sunday Times a contar ao mundo o segredo do ofício, Erwitt ri-se: «Bem, primeiro coloca-se o rolo na câmara…» (consultar artigo original aqui)
Mas não há fotógrafo que não tenha os seus truques. Os de Erwitt são tão bizarros e pitorescos como algumas das fotos que lhe deram fama: quando quer fotografar um cão, põe-se a ladrar para chamar a atenção do animal; para captar a atenção dos seres humanos, usa uma velha e estridente buzina de bicicleta. Não o apanharão, contudo, em dissertações mais intelectualizadas sobre o significado e a mensagem contidas nas suas fotos. Quando lhe perguntam, por exemplo, quais as fotos que melhor reflectem a sua visão do mundo, ele responde «Essa é uma excelente pergunta.» E depois não diz mais nada porque qualquer pessoa com um detector anti-redundância implantado no cérebro (um jornalista) percebe que ele já usou a sua inseparável Leica para dizer tudo o que tinha a dizer.
Talvez considerando uma das suas grandes referências, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, um purista avesso a encenações (ver post O Fotógrafo Invisível), Elliott Erwitt acha apenas necessário explicar que não o incomoda a ideia de ’fabricar’ uma foto, no sentido, por exemplo, de uma Ruth Orkin (post «Apanhar» a Realidade): «A pedido ou por influência, as pessoas podem fazer uma série de tontices diante de uma câmara. Não deixas de ser um grande fotógrafo só porque encenas fotografias. Na maior parte dos casos, acho que as pessoas não necessitam de direcção artística.»

Erwitt é filho de pais russos: Boris, o pai judeu, e Eugenia, a mãe aristocrata. Os pais passaram grande parte do tempo a fugir: primeiro de Estaline, rumo a Itália; depois, em 1938, de Mussolini. Em Paris, onde nasceu o pequeno Elliott, embarcaram para os Estados Unidos, fugindo de uma catástrofe iminente: já a meio caminho da América, em alto-mar, chegariam as notícias das primeiras declarações de guerra: Inglaterra e França contra a Alemanha.
O que não falta no site pessoal de Elliott Erwitt são links para artigos e notas biográficas, pelo que nesta pequena evocação deste extraordinário fotógrafo regista-se apenas mais dois acontecimentos importantes: o primeiro é quando conhece, em 1941, os fundadores da prestigiada agência Magnum (um deles é a grande vedeta do fotojornalismo de guerra, Robert Capa, que haveria de morrer jovem, aos 41 anos (Post O Primeiro Segundo da Morte). Nunca esquecerá o gesto de um dos fundadores da agência, Roy Stryker: vendo-o sem dinheiro, tirou umas centenas de dólares do seu próprio bolso, passou-lhe as notas e disse: «Agora vai tirar fotografias». Em 1953 já fazia parte dos quadros da Magnum.

O segundo momento da carreira foto-jornalística de Elliott foi em 1959. Vivia-se num mundo bipolar dividido entre o capitalismo selvagem americano e a ditadura comunista, o sonho americano e o sonho de uma sociedade sem classes, os Estados Unidos e a União Soviética. Elliot andava a fotografar frigoríficos numa feira em Moscovo ao serviço de uma fabricante, a Westinghouse, quando surgiu a oportunidade de acompanhar um dos acontecimentos mais importantes do ano: a visita do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, à ‘inimiga’ União Soviética de Nikita Kruschov.
Reparem na foto: Nixon espeta um dedo autoritário na lapela de Kruschov, apanhado de olhos fechados, uma expressão falsamente submissa. Esta é apenas uma possível leitura desta imagem, mas podem imaginar como Nixon e a administração americana devem ter gostado. O que de facto sucedeu foi uma conversa registada para a posteridade sob a designação kitchen debate: os dois líderes tentavam demonstrar um ao outro, em cavaqueira desafiadora e sem vencedor declarado, qual das duas nações era a mais rica. Descontando a óbvia felicidade propagandista desta foto para os americanos, registe-se que a informalidade de Nixon e Kruschov fizeram desta imagem um dos mais bizarros momentos da Guerra Fria – quase tão bizarros como a foto do pai Grand Danois, da mãe Gladys e do filho Chihuahua.

3 comentários

  • 1
    anaeugenio
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    4 de Janeiro de 2008 - 20:50 | Link permamente

    :lol: bizarro é eu ter escolhido fotos de Elliott Erwitt (no site da Magnum, Elliott tem dois “tt”) para publicar em breve. este trio incluído. e tu andas na mesma onda :mrgreen: saravá! :cool:

  • 2
    com BonEcho 2.0.0.12pre BonEcho 2.0.0.12pre em Windows XP Windows XP
    4 de Janeiro de 2008 - 21:33 | Link permamente

    Vou confiar no site da Magnum, então, e acrescentar o ‘t’ que falta. Obrigado.

  • 3
    com Firefox 2.0.0.11 Firefox 2.0.0.11 em Windows XP Windows XP
    5 de Janeiro de 2008 - 13:15 | Link permamente

    Como eu tinha saudades destas postas.

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