
Uma vez – já não me lembro onde e quando – li uma entrevista do grande realizador Federico Fellini. Falava-se de vários colegas de profissão até que se chegou ao nome de Stanley Kubrick. Fellini disse então que gostava bastante do cinema dele, sobretudo de 2001: Odisseia no Espaço, porque neste filme se mostrava como «os efeitos especiais podiam estar ao serviço das ideias e não as ideias ao serviço dos efeitos especiais».
Lembro-me sempre destas palavras de Fellini quando se fala na «pureza» da fotografia à maneira de um Henri Cartier-Bresson e do Photoshop como um elemento estranho a essa «pureza» de métodos. Com manipulação digital ou não, a verdade é que Cartier-Bresson, que nos últimos anos de vida abandonara a fotografia profissional para se dedicar à pintura, não gostava nada de encenações ou artes conceptuais. «Fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração», costumava dizer. Por isso não gostava de fotos retocadas e cenários artificiais. «Se um artista conceptual me convida para jantar, servirá apenas as espinhas do peixe! Eu prefiro a carne do peixe.»
Se notamos que o Photoshop é usado para embelezar uma fotografia vulgar, é fácil concordar com Cartier-Bresson e evocarmos essa «pureza» primordial que atravessa máquina, fotógrafo e realidade; tal como com os efeitos especiais de Kubrick vistos por Fellini, contudo, o Photoshop também pode ser usado ao serviço de uma concepção artÃstica ou editorial, abstracta ou não.


É este o caso do fotógrafo JeanYves Lemoigne, um nome conceituado no mundo da fotografia e da publicidade, responsável também por vários trabalhos editoriais para uma série de revistas. O destas imagens é um daqueles em que a manipulação digital existe em nome de uma ideia: a série chama-se Pixxxel e foi encomendada pela Amusement Magazine.
No sÃtio de JeanYves Lemoigne (infelizmente com carradas de flash) há muitos outros trabalhos para ver. O uso da cor e as escolhas na concepção das fotos reflectem o trabalho de Philip-Lorca diCorcia – o que é perfeitamente trivial, pois diCorcia influenciou meio mundo da fotografia publicitária. Este fotógrafo americano concebe as fotos até ao mais Ãnfimo pormenor ainda antes de pegar numa máquina, à maneira de um Hitchcock, que tinha o filme todo dentro da cabeça antes de filmar; numa célebre e longa entrevista a François Truffaut,  considerava mesmo a sua presença no set quase desnecessária, uma coisa «burocrática». Sobre diCorcia escreverei um post um dia destes, mas é impossÃvel ver algumas das suas fotos sem o imaginar a passar muitas horas diante dos quadros de Edward Hopper.































2 comentários
Excelente texto: relacionar pintura com cinema e fotografia, não é para todos.
Ena, obrigado