→ 05/06/2007 @12:57

Um beijo de 155 mil euros

É uma daquelas fotografias iconográficas: um casal de jovens amantes beijando-se em plena rua da romântica Paris, indiferentes ao que os rodeia. Ou não.

Robert Doisneau tirou-a em 1950, quando andava a fazer uma reportagem para a Life Magazine sobre jovens apaixonados em Paris. A foto permaneceu esquecida nos arquivos da revista mais de 30 anos, até que uma empresa de comercialização de posters, percebendo o potencial comercial da imagem, adquiriu os direitos de utilização. O sucesso foi estrondoso.

Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950 começou por ser um símbolo da Paris romântica dos meados do século XX, mas acabou por tornar-se o símbolo do próprio amor romântico. O mundo já venerara outro beijo, o da célebre escultura de Auguste Rodin, da década de 80 do século XIX, mas este beneficiou das maravilhas da impressão gráfica, multiplicou-se e cruzou os mares.

Este símbolo romântico do século XX nada teve de espontâneo. Doisneau reparara naqueles dois sentados numa esplanada e abordara-os, explicando-lhes que tipo de reportagem andava a fazer e pedindo-lhes que posassem a dar um beijo. Os jovens, alunos de uma escola de Teatro, concordaram.

O próprio fotógrafo contou a história da foto numa entrevista dada em 1992, confirmando a encenação: «Nunca me teria atrevido a fotografar pessoas assim, amantes beijando-se em plena rua». Não por vergonha, explica, mas porque «esses casais raramente são legítimos».

Doisneau resolveu falar do assunto porque, por essa altura, o sucesso dos posteres andava a fazer com que muitos «casais» se assumissem como os protagonistas da foto, procurando ganhar dinheiro fácil.

O fotógrafo desmascarou-os a todos nessa entrevista, revelando, mais de 50 anos depois, a verdadeira identidade do casal: Françoise Bornet e Jacques Carteaud. Doisneau também contou que oferecera o original da foto à jovem poucos dias depois de ter sido publicada na revista.

Há dois anos, ela deu a cara para anunciar que O Beijo ia ser colocado à venda. O leilão, organizado pela Artcurial Briest-Poulain-Le Fur, teve um preço de licitação inicial de 20 mil euros, mas acabou por ser vendido por 155 mil.

Nessa ocasião Françoise encarregou-se de desfazer ainda mais a aura romântica da imagem quando afirmou que aquela «era uma foto que nunca devia ter existido, talvez por isso se quisesse livrar dela, mais do que pelo dinheiro» e revelando que, poucos meses depois do beijo apaixonado em Paris, ela e o namorado já tinham acabado.

5 comentários

  • 1
    Berkeley
    com Firefox 2.0.0.3 Firefox 2.0.0.3 em Windows XP Windows XP
    5 de Junho de 2007 - 15:51 | Link permamente

    Boa! Desde o post sobre Ruth Orkin que andava á procura desta foto. :biggrin_wp: Mais destas, faz favor!

  • 2
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    5 de Junho de 2007 - 16:30 | Link permamente

    mas que boa “aula” tu me deste hoje

  • 3
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Ubuntu Ubuntu
    5 de Junho de 2007 - 16:39 | Link permamente

    Ben, tenho saudades do teu fotoblog. Uma foto por dia era excelente. Será que um dia destes recuperarás forças e voltarás a ter pachorra para fazer mais uma série? :biggrin_wp:

  • 4
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    5 de Junho de 2007 - 19:49 | Link permamente

    :-)
    quero acreditar que sim

  • 5
    José Luiz
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Maio de 2009 - 06:24 | Link permamente

    Olá, Marco! Parabéns pelo seu blog, tive uma bela surpresa em descobri-lo agora. Aliás, publiquei uma matéria sua no meu blog, entretanto, coloquei as suas referências e fontes. Quanto a esta imagem, realmente muito linda, mas, para mim, perdeu quase que completamente a beleza, justamente porque não foi espontânea, então, a força de uma verdade (no sentido de desvelamento) perdeu-se, para dar lugar a uma encenação falsa. A escritora Susan Sontag já tinha comentado sobre ela, em seu livro ‘Diante Da Dor Dos Outros’, publicado aqui no Brasil. Bom, um abraço pra vc. José Luiz

  • Dizer NÃO à taxa