
A noite da madrugada de 30 de Janeiro de 1968 marcava o inÃcio de uma data sagrada para os vietnamitas: os festejos do Novo Ano Lunar. Muitos dos efectivos do exército do Vietname do Sul tinham sido autorizados a comemorá-la fora dos quartéis.
Foi precisamente nessa noite que duas grandes forças de combate – os Vietcongs e o Exército do Vietname do Norte – lançaram em simultâneo um ataque surpresa em todo o paÃs. Esta operação de grande escala ficou conhecida como Ofensiva Tet. Foram atacadas mais de 100 vilas e cidades, incluindo 36 capitais de provÃncia e a própria capital, Saigão.
Embora os americanos tenham sido apanhados de surpresa pelo amplitude do ataque, os serviços secretos já tinham detectado grandes movimentações de tropas inimigas. Esperavam uma ofensiva apenas contra Khe Sanh, no sul do paÃs, onde se encontrava uma base de Marines, mas não uma ofensiva simultânea em todo o território. Quando as tropas norte-vietnamitas atacaram Saigão, 27 batalhões dos Estados Unidos estavam estacionados na capital. A operação não foi, assim, o sucesso militar que se esperava: entre 30 de Janeiro de 1968 e 8 de Junho do mesmo ano, perÃodo oficial de duração da Ofensiva Tet, 58 mil soldados norte-vietnamitas perderam a vida sem que Saigão tivesse sido capturada ou os americanos expulsos.
Mesmo assim, algumas regiões e cidades do Interior caÃram irremediavelmente nas mãos do Exército do Vietname do Norte.
Os efeitos psicológicos deste ataque entre a opinião-pública norte-americana – outro dos objectivos dos estrategas norte-vietnamitas – foram importantes. As imagens iniciais da Ofensiva Tet difundidas pelos media marcaram a forma como o povo encarava a presença dos seus filhos e soldados naquele território hostil, desconhecido e distante. De pouco adiantou à administração do então presidente Lyndon Johnsson insistir que a Ofensiva Tet acabara por ser uma grande derrota dos comunistas.
O efeito das imagens iniciais de desnorte americano poderia ter sido atenuado com o passar do tempo e a acção da propaganda militar – mas a 1 de Fevereiro de 1968, no terceiro dia da Ofensiva Tet, quando a confusão ainda reinava em Saigão, um fotógrafo captou uma imagem que haveria de ter um efeito ainda mais devastador entre o povo americano.
Naquele dia, duas armas foram disparadas ao mesmo tempo: uma pistola e uma máquina fotográfica.
A bala disparada à queima-roupa perfurou o cérebro de um prisioneiro vietcong e a foto capturou o momento exacto da execução.
Há duas personagens desta tragédia: Nguyen Ngoc Loan, coronel, nomeado chefe da PolÃcia Nacional da República do Vietname, e um oficial vietcong capturado, o capitão Nguyen Van Lém, o mesmo nome próprio que o seu assassino.
Nesta foto já não existe vida, nem no carrasco nem na sua vÃtima: a câmara de Eddie Adams transforma-os em monumentos que recordam à Humanidade a brutalidade selvagem de uma guerra sem honra.
De um lado, o braço esticado do carrasco, os músculos tensos, a mão agarrando a pistola com tanta força como se receasse falhar o alvo e cobrir de ridÃculo o seu poder de deus da vingança; do outro, um jovem, mãos atadas nas costas, magro, pequeno, indefeso. De um lado, um rosto inexpressivo, frio, o rosto da morte; do outro, um homem a quem não é permitido, sequer, um gesto instintivo de defesa.
O operador de câmara da NBC, Vo Suu, filma a sequência: o tiro, o fumo, a queda, o sangue jorrando da cabeça do oficial vietcong. Eddie Adams, o fotógrafo, recordará mais tarde que a sua única vontade é sair dali, afastar-se, mas, ao mesmo tempo, numa familiar combinação de horror pessoal e triunfo profissional, tem consciência da extraordinária foto que acabou de tirar. A foto acabou por ganhar um Prémio Pulitzer.
Nguyen Ngoc Loan, o assassino, mantém-se calmo quando fala aos repórteres: «Ele matou muitos de nós e dos vossos também» – justifica-se ao operador de câmara, que ainda não virara as costas. – «Penso que Buda me perdoará por isto».
É um criminoso de guerra, mas tanto o Vietname do Sul como as autoridades americanas não fazem caso da situação: alguns oficiais americanos protestam contra a execução sumária, mas Nguyen continua ao serviço do exército sul-vietnamita, onde fortalece a reputação de homem de grande coragem e sagacidade em batalha. A sua carreira de guerreiro termina três meses mais tarde, quando uma granada inimiga lhe destrói a perna direita.
É enviado para um hospital na Austrália para receber tratamento, mas os protestos contra a sua presença são tão veementes que acaba por ser transferido para os Estados Unidos, para um centro médico militar em Washington, o Walter Reed. Alguns senadores no congresso americano protestam, mas nada acontece.
De volta a Saigão, Nguyen é afastado do exército – tiveram de amputar-lhe a perna direita – e regressa à vida civil. Em 1975, quando os vietkongs estão à s portas da capital e se inicia a evacuação, os americanos recusam-se a ajudá-lo. Acaba por fugir com a famÃlia num avião sul-vietnamita e regressa aos Estados Unidos.
Quando a sua presença é conhecida, alguns movimentos civis tentam deportá-lo, afirmando tratar-se de um criminoso de guerra, mas, mais uma vez, nada acontece. Fica a viver no norte da VirgÃnia e abre uma pizzaria. O negócio corre bem e sem sobressaltos até 1991, mas entra em declÃnio quando é reconhecido como o carrasco da foto tirada por Eddie Adams. Há quem escreva nas paredes da pizzaria: «Sabemos quem tu és».
O cancro mina-o e ele afasta-se. Acaba por morrer em Julho de 1998. Nunca foi condenado pelo crime que cometeu, embora tenha dado entrevistas onde procurou justificar o seu acto. Ele afirma que o oficial vietcong era um terrorista que tinha estado envolvido no assassÃnio de oficiais sul-vietnamitas e respectivas famÃlias – daà a execução. Ao princÃpio, ordenara a um oficial subalterno que matasse o prisioneiro. Perante a hesitação do outro, encarregou-se ele próprio de executar a sentença. «Se eu hesitasse não estaria a cumprir o meu dever – e os homens não me seguiriam».
Até hoje não se sabe se Nguyen Van Lém esteve envolvido nos massacres que aconteceram. 34 corpos haviam sido descobertos em Saigão no dia anterior, tanto de oficiais da polÃcia como das respectivas mulheres e filhos, mas nunca se provou o envolvimento do oficial vietcong – fosse ou não responsável, a verdade é que nunca lhe foi dada a oportunidade de se defender num tribunal militar. Outras fontes – norte-vietnamitas – afirmam que Lém não era um operacional, a sua acção era sobretudo polÃtica.
O vÃdeo mostrando a sequência completa dos acontecimentos passou inúmeras vezes nas televisões e chocou a América. E quando a foto de Eddie Adams foi publicada na primeira página dos jornais americanos, mudou a forma como o povo americano encarava a guerra. A foto não era apenas a imagem de um crime, mas o espelho da guerra do Vietname: selvagem e gratuita, como o acto do chefe da polÃcia Nguyen Ngoc Loan.
Ao princÃpio a maioria dos americanos apoiara a guerra, pois tratava-se de ajudar inocentes sul-vietnamitas a libertar-se do jugo comunista do Norte; depois daquele foto, tornara-se muito mais difÃcil descobrir onde estavam afinal esses inocentes.
Fontes: Tet Offensive (Wikipédia) | Vietname War (Wikipédia) | Newseum War Stories | New York Times Obituary | Nguyen Ngoc Loan (Wikipédia) | Digital Journalist: The Saigon Execution
A morte de Jeffrey

4 de Maio de 1970 é o dia em que muitos americanos descobrem que a América é capaz de assassinar os seus próprios filhos.
John Filo, estudante de fotografia, capta a imagem de Jeffrey Miller, 20 anos, estudante como ele, morto pela Guarda Nacional durante um protesto não-autorizado contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Cambodja. Há mais três mortos e nove feridos nesse dia, todos estudantes.
O ângulo em que a foto é tirada poupa-nos à visão do rosto desfeito de Miller, atingido com uma bala em cheio na boca. Como recordará o fotógrafo 30 anos depois à CNN, «era como se alguém tivesse despejado um balde de sangue na rua.» Podemos ver, e só isso é suficiente, a expressão de uma rapariga, Mary Ann Vecchio, que corre para ajudar Jeffrey e grita por socorro, horrorizada com o que vê. O seu ângulo de visão completa a fotografia.
E para fechar este retrato de uma América à deriva, saber-se-á poucos dias depois que a rapariga não é estudante na Universidade, tem apenas 14 anos e fugiu de casa dos pais em Miami vestida com uma T-shirt que diz Slave.
A 4 de Maio de 2000, a mãe de Jeffrey Miller escreve uma crónica para o Seattle Times em que nos explica como o mundo se tornou mais pobre desde que o filho foi morto. Liga três pontos cruciais da vida de Jeffrey para explicar porque razão «nunca poderia ter resistido ao apelo daquela manifestação».
Primeiro ponto: Jeffrey tem oito anos. Sem o conhecimento da mãe, envia um artigo à revista Ebony preocupado com a situação social dos negros na América. Ela sabe-o três semanas depois quando, em resposta ao artigo de Jeffrey, recebe um telefonema de alguém da revista que partiu do princÃpio de que o filho é negro. Dizem-lhe então que o rapaz está destinado a ser um grande lÃder da comunidade afro-americana.
Segundo: aos 16, escreve um poema chamado Where Does It End?, onde expressa o seu horror perante «uma guerra sem propósito», o conflito no Vietname.
Terceiro: aos 20, telefona a informá-la de que vai participar na manifestação de 4 de Maio contra a invasão do Cambodja. Tranquiliza-a: «Não te preocupes, mãe. Posso vir a ser preso, mas de certeza que não me vão partir a cabeça».
Mary Ann Vecchio está em fuga da casa dos pais. Não é claro porque razão saiu da Florida e se meteu à boleia pela América: esses tempos recorda-os apenas com uma frase: «Tinha 14 anos e era uma fugitiva».
Quis o destino que se encontrasse perto de Kent a 4 de Maio e que tivesse decidido juntar-se aos manifestantes. Tê-lo-á feito por influência de Sandra Lee Scheuer e Alan Canfora, dois estudantes da Universidade de quem se tornara amiga. Sandra também morre nesse dia.
A foto de John Filo tornou o seu rosto conhecido em toda a América. Na sequência da publicação dessa foto, o Governador da Florida, Claude Kirk, chegou a afirmar que Mary Ann era uma «dissidente comunista».
Nas três semanas que se seguiram entrou «na clandestinidade». Concordou vender a sua história a um jornalista a troco de um bilhete de autocarro para a Califórnia, mas foi presa pela polÃcia quando se preparava para embarcar e enviada de volta à casa dos pais. Agora diz que «entrou de boleia na História».
John Filo conheceu-a apenas em 1995, 25 anos depois de a ter fotografado. Encontraram-se no Emerson College em Boston numa conferência organizada pelo colégio sobre os acontecimentos na Universidade. Ela é agora uma mulher casada que diz só ter recomeçado a viver quando saiu com Joe Gillum da casa dos pais para se tornar a senhora Gillium e abandonar em definitivo o apelido Vecchio.
«Sempre me preocupei com esta pessoa» – afirmou então John Filo. «Coloquei uma criança sob um microscópio durante muito, muito tempo e agora sinto-me feliz por ela estar também feliz.»
John Filo, o estudante de fotografia, tem outras motivações no campus: é assombrado pela percepção de que 4 de Maio pode vir ser o dia em que conseguirá captar o que Henri Cartier-Bresson designa como «momento decisivo».
Filo deambula junto aos colegas desde o dia 1 de Maio sem conseguir tirar uma fotografia que capte o momento histórico que se vive. Está prestes a desistir quando o tiroteio começa. Ao princÃpio julga serem tiros de pólvora seca e deixa-se ficar em pé, a fotografar. Depois percebe que são tiros de munição real quando o silvo de uma bala quase lhe queima a orelha. Desiste de fotografar, atrapalha-se, olha para todos os lados, sem saber para onde ir. É o único que não está abrigado.
Olha para a sua esquerda e vê Jeffrey, estendido no chão, o corpo em pequenas convulsões até se imobilizar por completo. O sangue escorre-lhe pela cabeça como se estivesse a ser despejado por um balde. Entra em pânico e começa a fugir. «Que estás tu a fazer?» – diz-lhe então a voz do fotógrafo dentro da sua cabeça. «É para isto que tu estás aqui». Volta e aponta a máquina. Apercebe-se então de Mary Ann, correndo em pânico para junto do corpo do rapaz e gritando «Meu Deus!».
Clique. A América está a matar os seus próprios filhos – e está a ser fotografada enquanto o faz.
O estudante de fotografia ganha o seu momento decisivo e o prémio mais importante de todos, o Pulitzer.
Fontes: CNN: chat com John Filo | Reencontro de Mary Ann Vecchio e John Filo | Crónica de uma mãe que perdeu o filho | Wikipédia: Mary Ann Vecchio e Jeffrey Miller
Os mortos na Universidade de Kent

Sexta, 1 de Maio Dias antes o presidente Nixon anunciara o envio de tropas para o Cambodja, aumentando a escala das operações no Vietname e a indignação entre os americanos – na sua maioria jovens – que estão contra a guerra.
Estudantes da Universidade de Kent organizam uma manifestação contra «a invasão de um paÃs soberano sem uma declaração de guerra formal ou a autorização do Congresso americano». Os estudantes protestam contra «a violação dos nossos direitos constitucionais» e «os abusos de poder» do presidente Nixon, apostado em «perpetuar a barbárie nacional». Uma cópia da Constituição Americana é enterrada nos terrenos da Universidade para simbolizar «o seu assassÃnio».
À noite, na cidade de Kent, adensam-se os protestos: uma multidão invade as ruas e dirige-se para o centro, partindo alguns vidros das lojas pelo caminho. À manifestação junta-se gente que nada tem a ver com a Universidade. Muitos já beberam demais. O Mayor de Kent entra em pânico e vê nos protestos sinais de uma sublevação radical e solicita o auxÃlio do Governador do Estado de Columbia. A Guarda Nacional é enviada para dispersar os manifestantes com gás lacrimogéneo. Às duas e meia da manhã, a situação está controlada.
Sábado, 2 de Maio Às oito da noite, 100 manifestantes cercam um edifÃcio da Universidade que serve de camarata aos oficiais de reserva do Exército que se encontram em treinos militares. A associação à guerra que se trava no Vietname é instantânea. Alguns deitam fogo ao edifÃcio. As chamas espalham-se tão rapidamente que os bombeiros não conseguem controlá-las. A Guarda Nacional volta a intervir, dispersando os estudantes e ficando a guardar um edifÃcio reduzido a cinzas.

Domingo, 3 de Maio No campus da Universidade, ocupado pelos soldados da Guarda Nacional, tudo está calmo. Mas às nove da noite uma multidão de estudantes volta a reunir-se na cidade. Os soldados lançam mais gás lacrimogéneo. Os estudantes refugiam-se na intersecção das ruas East Main e Lincoln, bloqueando o trânsito e aumentando o caos. Às 11 da noite, a multidão torna-se mais hostil, lança pedras aos soldados e é novamente afastada. Há feridos nos dois lados.
Segunda, 4 de Maio É dia de aulas na Universidade. A confrontação da noite anterior provocou ressentimento em ambos os lados da barricada: os estudantes estão determinados em manter uma manifestação convocada para aquele dia, entretanto proibida, os soldados estão determinados em impedi-la.

Ao entardecer, 200 estudantes encontram-se já reunidos em desafio directo às autoridades. À ordem de dispersão, respondem com cânticos, insultos e pedras. Mais gás lacrimogéneo é lançado mas, desta vez, pouco efeito provoca: está muito vento naquela tarde. A Guarda avança com as baionetas das espingardas em riste, obrigando os estudantes a recuar. Ninguém dispersa.
O lançamento de mais gás já não resolve a situação. Pedras continuam a voar sobre os soldados. Estes recuam. 28 formam uma linha e disparam entre 61 e 67 vezes durante 13 segundos contra a multidão em fúria. Não são tiros de pólvora seca, mas tiros de munição real. Quatro estudantes morrem. Nove ficam feridos. Um dos feridos ficará paralÃtico o resto da vida.

Alguns tentam dialogar com os soldados: «Porque é que vocês dispararam?» É o comandante da Guarda quem responde: «E vamos continuar a disparar se vocês não dispersarem.»
Este é o mesmo oficial que, minutos depois, se aproximará de Jeffrey Miller para examinar o corpo. O estudante morreu de barriga para baixo e o comandante da Guarda Nacional vira-o com a bota para examinar melhor os estragos. O desrespeito e a indiferença são tão evidentes que só a presença de dezenas de soldados impedirá que os outros estudantes o esfolem vivo.
Perto dali, muitos ainda resistem. Um grupo de 300 não arreda pé do campus e só a intervenção de alguns professores corajosos impede que os confrontos continuem e mais mortes ocorram. Os professores convencem os alunos a dispersar. A Universidade fecha por um perÃodo de tempo indeterminado e só abrirá depois das férias de Verão. Fonte: KSU Libraries
Retoques


Duas versões da mesma foto Bastou que alguém reparasse na ausência do poste sobre a cabeça de Mary Ann Vecchio na republicação efectuada em 1995 pela Life Magazine para que a revista fosse acusada de manipular imagens jornalÃsticas. O próprio Editor fotográfico da Life foi forçado a escrever uma explicação. Segundo David Friend, esta imagem manipulada tem sido publicada por várias revistas – exemplos: Time (6 de Novembro de 1972) People (2 de Maio de 1977), Time (17 de Janeiro de 1980) e People (30 de Abril de 1990) – sem que ninguém tivesse reparado na diferença crucial em relação ao original. O que se passou foi que, provavelmente ainda em 1970, alguém trabalhando no arquivo Time-Life Picture Collection (e que até hoje permanece anónimo), decidiu ‘apagar’ a imagem do poste, na óbvia intenção de a melhorar e de lhe diminuir o ruÃdo.
O cheiro do napalm pela manhã

8 de Junho de 1972. Um avião da Força Aérea Vietnamita bombardeia Trang Bang, uma população sul-vietnamita situada a 38 quilómetros de Saigão. Centenas de homens, mulheres e crianças morrem em consequência desse bombardeamento com napalm.
O ataque não ocorreu por engano: tratou-se de uma operação militar destinada a travar o avanço dos vietcongs sobre a capital e proteger a retaguarda dos soldados vietnamitas. Os americanos não estiveram directamente envolvidos na operação: o processo de retirada de tropas do terreno ficará concluÃdo a 12 de Agosto desse ano, embora a acção dos bombardeiros B-52 se tenha intensificado nesse perÃodo (fonte). Mais tarde, comentando as circunstâncias em que o ataque aconteceu, veteranos do Vietname afirmaram que os vietcongs tinham usado a população como escudo – daà os danos colaterais.
Das consequências deste ataque ficou-nos uma imagem que se tornaria uma das grandes fotografias da guerra, de todas as guerras: crianças inocentes – os tais «danos colaterais» – fugindo ao horror do napalm.
Talvez por parecer ainda mais frágil do que as outras, o olhar do fotógrafo vietnamita Nic Ut centra-se na menina de 9 anos de quem mais tarde se tornará amigo e protector, Kim Phuc. Vê-a correr na sua direcção, gritando «muito quente, muito quente», com as costas, os ombros e os braços queimados pelo napalm. O rapaz que se vê a correr à frente dela, do lado esquerdo na foto, é o seu irmão mais velho, Phan Thanh Tam. Nic Ut tirará mais fotos deste episódio, incluindo uma em que a avó da menina foge com o neto ao colo, um bebé que não resistiu às queimaduras e acabou por morrer nos seus braços.
Caminhando na mesma estrada, os soldados parecem indiferentes ao sofrimento das crianças, o que torna a foto ainda mais reveladora de como a guerra também é capaz de despedaçar um ser humano por dentro.
Nem todos se mostrarão indiferentes: como recordará a própria Kim Phouc à BBC, numa entrevista dada a 29 de Abril de 2005, um dos soldados deixa-se tocar pelo sofrimento da menina, dá-lhe de beber do seu cantil, deita-lhe água sobre as costas queimadas julgando assim que lhe aliviará a dor.
A famÃlia sobrevivente reúne-se à volta de Kim Phouc e do grupo de jornalistas. Nic é vietnamita e o único capaz de comunicar com as pessoas que, desesperadas, pedem aos repórteres para as levar para o hospital. Nic sabe que as fotos que tirou são importantes e devem ser enviadas o mais rápido possÃvel, mas acaba por concordar em levar a menina ao hospital de carro. Com ele seguem os dois irmãos, um tio e uma tia.
Dirigem-se ao hospital de Cu Chi, a meio caminho de Saigão. A rapariga grita de dores, pede água, diz sentir-se a morrer. Cada movimento do carro provoca-lhe dores imensas quando a pele queimada entra em contacto com o banco. O fotógrafo recordará mais tarde que a menina gritou até desmaiar.

Uma hora depois chegam ao hospital. A regra ali é a seguinte: tratar primeiro os doentes que os médicos consideram ter hipótese de sobreviver, deixar os casos mais graves para depois. A menina faz parte deste último grupo – por esta altura, já o fotógrafo está demasiado envolvido com o drama e recusa abandoná-la a uma morte certa. Puxa dos galões de jornalista: conta aos médicos o drama que presenciou, diz-lhes que o rosto da menina que eles não querem tratar estará nos principais jornais em todo o mundo. Acaba por convencê-los. Só quando se certifica de que a criança entrou na sala de operações é que abandona o hospital para enviar as fotos. Kim Phouc ficou internada no hospital 14 meses e fez 17 operações ao todo. O fotógrafo foi sempre visitá-la.
Meses depois de as fotos terem sido publicadas e o nome Nik Tut se tornar famoso em todo o mundo, o fotógrafo foi entrevistado para recordar as circunstâncias em que as imagens foram tiradas.
Nic contou tudo o que se passou, excepto a parte em que se meteu no carro e procurou salvar a vida de uma menina.
Só 28 anos depois do dia em que a fotografia foi tirada o mundo soube do papel do fotógrafo. E foi a própria Kim Phouc quem o revelou quando finalmente o conseguiu reencontrar, em Londres, durante uma audiência com a Rainha. Abraçando-o, apresentou-o como «o homem que salvou a minha vida».
Entrevista a Kim Phouc | Digital Jornalist: A História contada pelo fotógrafo

Entrevistada pela CBS a 19 de Setembro de 2000, Kim Phouc dirá que, ao olhar para a foto, sente-se ainda como «se tudo aquilo tivesse sucedido ontem». Mas a conversão ao Cristianismo, afirma, ajudou-a a resolver os fantasmas do passado: «Eu fui uma vÃtima da guerra, fui uma vÃtima de muitas coisas. Mas penso que consegui uma vitória, pois entretanto aprendi a perdoar».
Kim Phouc julgou que nunca mais seria atraente aos olhos de um homem por causa da extensão das queimaduras nos ombros, nos braços e nas costas, mas hoje em dia é casada e mãe de dois filhos. Fez as pazes com o mundo. Sempre recusou que a sua história e a foto fossem usadas para fins de propaganda polÃtica, tanto por vietnamitas como por americanos.
Fugiu do Vietname e refugiou-se no Canadá, onde ainda vive. É numerosas vezes chamada para contar a sua história à s novas gerações. Fundou a Kim Foundation, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a ajudar crianças vÃtimas da guerra. É Embaixadora da UNESCO e a sua missão é levar uma mensagem de paz ao mundo.
O Horror

Numa luta mortal de seres contra seres da mesma espécie, a distanciação imposta aos soldados tem nas fardas o seu sÃmbolo mais poderoso. Cada nação, ou grupo de nações, tem a sua própria farda – e vesti-la permite distanciar seres humanos e criar, de forma artificial, uma subespécie de homens mentalizados para destruir outras subespécies que também são criadas artificialmente.
Esta distanciação é conseguida à força da disciplina e de conceitos abstractos como «patriotismo» e «justiça» ou seja lá o que for que aos falcões da guerra der jeito inventar.
No caso da Guerra do Vietname, a palavra-chave foi «Democracia». A «Democracia» seria transportada em aviões e navios de guerra e servida a um povo sedento de Liberdade (outra palavra) e desejoso de se libertar do jugo comunista do Vietname do Norte.
Mas como dizia um soldado americano que combatia no Vietname, no filme Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick, «Democracia é apenas uma palavra. Se andamos aqui a combater por uma palavra, então eu prefiro combater pela palavra ‘Foder’, que é a minha preferida.» Neste sentido, «Democracia» tem um significado tão dúbio e falacioso como a expressão «Danos colaterais».
O objectivo das fardas é colocar sucessivos obstáculos à nossa consciência moral que nos diz que o soldado inimigo é um ser humano como nós e que, noutras circunstâncias, não desejaremos matá-lo. Se nos recusarmos a usar fardas, visÃveis ou invisÃveis, é mais difÃcil que os Donald Rumsfeld deste mundo convençam os povos de que a guerra faz todo o sentido. Porque não faz. Não faz mesmo.

Talvez as fotos mais marcantes do Vietname sejam aquelas em que o fotógrafo consegue desfazer a ilusão da farda e das palavras vazias, e mostrar-nos um ser humano em vez do inimigo, retirando qualquer sentido que os falcões possam querer dar a uma guerra.
A célebre foto tirada a 8 de Junho de 1972 pelo vietnamita Nip Tuk (prémio Pulitzer) mostra-nos que a guerra é sempre feita contra a Humanidade, a Humanidade dentro de nós: vemos crianças fugindo aterrorizadas das nuvens de Napalm e, ao mesmo tempo, um grupo de soldados que caminham na mesma estrada, parecendo indiferentes ao seu sofrimento. A nossa compaixão é dirigida à s crianças, mas o mais chocante deste foto é que poderÃamos ter ocupado o lugar daqueles soldados, vÃtimas, como aqueles, do mesmo processo de distanciamento artificial entre seres humanos que age à sombra de uma guerra e a torna possÃvel. Tanto pode ser induzido pela farda como pela distância fÃsica, como foi o caso do piloto do avião (sobre a identidade do piloto: post em preparação), impossibilitado de presenciar a tragédia individual que as suas bombas provocaram.
Tudo o que mina as nossas esperanças para o futuro da Humanidade se desenrola ali, naquela foto: crianças cujo instinto nos impele a proteger são mortas e, se sobrevivem, vêmo-las em pânico e em sofrimento, abandonadas; homens que em circunstâncias normais as protegeriam caminham com indiferença porque, como escreveu o escritor e ensaÃsta Edward Bond, se encontram «despedaçados por dentro» pela crueldade da guerra.
Derrotando a moral do inimigo: As fundações psicológicas da guerra de manobra | Vietname War































3 comentários
Olá Marco,
Estava a navegar no teu site e reparei que neste post escreveste Nguyen Ngoc Loam mas o nome correcto será Nguyen Ngoc Loan (googlei um pouco, e se seguires no teu link da wikipedia, nas tuas fontes, vês que é Loan).
Não obstante, grande texto. Da excelente qualidade de sempre.
Pedro, tens razão. O meu «lendário» jeito para nomes, de vez em quando é com cada gralha…
Obrigado pela correcção
Durante guerras coisas destas são o que não devem faltar. Felizmente grande parte de nós nunca foi parte de nenhuma para poder afirmar com certeza mas ainda assim parece-me um pouco esquisito tentar legislar guerras. “Ah e tal, podem matar mas com certas e determinadas condições!!”.
Para além disso nessas alturas não deve ser fácil pensar com clareza ou ser-se um bom samaritano.