→ 15/09/2006 @19:25

Feitos um para o outro

ELE
Deixas-me sem palavras. E se fossem só as palavras ainda me aguentava. Mas também regulas os meus gestos. Mal te vejo a olhar para mim fico paralisado. Bem posso ficar com comichão no cabelo que o gesto não sai. Não sai nada. Estou preso ao encantamento da tua presença.
Tão concentrado estou nos teus pormenores mais insignificantes que nem consigo ouvir nada do que estás a dizer. Qualquer coisa sobre o trabalho no laboratório? Vou dizendo que sim com a cabeça e tentando sorrir – mas as palavras que te saem da boca reagrupam-se no ar e formam frases diferentes quando me chegam aos ouvidos. Falam de promessas. Contam histórias. Gemem de prazer.
Gosto da timidez envergonhada do teu sorriso. Intriga-me quando te pões a desenhar linhas invisíveis na mesa. Pareces pensativa. Ficaste calada e eu mal percebi que a conversa terminou.
Parece-me obsceno falar das pobres banalidades da minha vida. Essa conversa não tem muito sentido para mim. Não encontro nada em mim que faça sentido. Ajudem-me.
Alguém que chame uma ambulância. Não há um número especial para estes casos? Telefonem ao 115. Está aqui um tipo tão sufocado em paixão que já nem consegue respirar como deve ser. Digam que é urgente. Eles que tragam um aparelho qualquer para me soltar as palavras. Qualquer coisa.
Talvez devesse apanhar uma piela.
Se ao menos não olhasses para mim. Devo parecer uma múmia paralítica num filme mudo. Preciso de um daqueles quadros negros que os realizadores usavam para inserir os diálogos. Antes isso do que escutar o som da minha própria voz evocando sentimentos perdidos num futuro distante.
Talvez comeces a achar que eu sou um imbecil incapaz de estabelecer uma conversa.

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Dizer NÃO à taxa