
A forma como o menino Jesus foi concebido causa-me alguma estranheza. Caramba, não existiu sexo. Deve ter sido o primeiro caso de fertilização in vitro que se conhece. Aquele que viria a ser o homem mais importante na História da Humanidade foi concebido directamente pelo EspÃrito Santo. Maria deu à luz mas manteve-se virgem, ou seja, limpa. Imaculada, mas sem prazer. Materna, mas sem desejo.
Parece-me um mau começo. Teria sido mais saudável que Jesus tivesse sido concebido a partir de uma relação sexual – e nada de quecas burocráticas, mas de uma empinocada das boas.
É mais agradável pensar em Maria e José aconchegados um ao outro, felizes, ele a perguntar, «Então, Maria, foi bom?» e a nossa Maria, bela, serena e sorridente depois do orgasmo, «Querido, hoje excedeste-te, foi simplesmente divinal».
Nascer da união entre homem e mulher teria mais significado para o mundo real mas, infelizmente, o Cristianismo tem tendência a considerar o sexo uma coisa suja, pecaminosa, e o orgasmo da mulher, ou seja, o prazer e a emancipação biológica, uma aberração provavelmente inspirada pelo Diabo. Prefere portanto que acreditemos que um espÃrito criou um espermatozóide a partir do nada e que foi um acto neutral do ponto de vista psicológico, não envolvendo qualquer amor ou alegria. Sexo sem emoções. Sexo para procriar, portanto.
A história da concepção de Jesus nem surpreende, sobretudo tendo em conta que a importância do sexo nas relações humanas sempre foi tratada com afectada pieguice pela Igreja Católica. Portanto não é de admirar que o Papa Bento XVI faça discursos preconceituosos contra a homossexualidade em vésperas de Natal. Claro que ele tem o direito de dizer os disparates que quiser, mas um gay também tem o direito de se opor à excomungação por razões estritamente sexuais. O melhor é não ligar muito. Se até entre um homem e uma mulher o sexo lhes faz confusão, imaginem entre pessoas do mesmo género. Feliz Natal!
Imagem: Alexandre Marchetti































7 comentários
Por acaso tenho uma certa curiosidade em saber se, se uma filha de um casal de católicos devotos aparecesse em casa a dizer que estava grávida mas que continuava virgem, se os pais manteriam a mesma crença cega no EspÃrito Santo.
Just wondering…
Boas festas!
A maria e o josé, essas personagens ficcionais, não sabem o que perderam.
Conheço muitos católicos que não vão à bola com muitas das orientações que saem do Vaticano. Gays ou não gays há-de haver muito católico que não se revê no discurso deste papa.
A escrever coisas destas pareces que estou a ler O Evangelho 2º J.C.
Só um aparte: além da fecundação in vitro já foi teorizado (não é ficção cientÃfica) a partenogénese humana.
Atenção, sou completamente ateu e não acredito na concepção imaculada do Menino Jesus, filho de Deus.
As religiões de base judaica, retiraram das suas escrituras a referência àquela que foi na verdade a primeira mulher: Lilith.
Lilith era uma mulher que achava que o sexo era para se ter prazer e que não podia ser apenas o homem a controlar o acto em si.
Foi expulsa do paraiso e em seu lugar foi criada Eva, que era a mulher submissa (ou não, afinal conseguiu convencer o Adão a comer o fruto proibido)
Depois de expulsa, Lilith entregou-se aos prazeres da carne e hoje diz-me que é a mãe dos Demónios.
Para manter a coerência, um filho de deus não poderia de forma alguma ser resultante de prazer fÃsico.
MAs convenhamos que é uma coerência um pouco… (falta-me uma palavra melhor
) … “cretina”
Daà só tirava a pergunta: “Foi bom?”, é demasiado cliché para ser idilico