→ 19/05/2010 @15:42

O dia em que todos desenhamos Maomé

Manifestação de protesto no Paquistão contra uma página do Facebook

Manifestação no Paquistão em protesto contra a página do Facebook, «Everybody Draw Mohammed Day!» (Shakil Adil/AP)

O Dia em que todos desenhamos Maomé é, segundo o mentor da ideia, uma resposta às ameaças de extremistas islâmicos e, ao mesmo tempo, um teste à capacidade ocidental em recusar vergar-se ao delírio persecutório dos fanáticos, não cedendo ao medo.

No caso do Islão e dos muçulmanos, também existe uma longa tradição de medo, luta e resistência, sobretudo se tivermos em conta a muita merda que ingleses, franceses e americanos lá fizeram, desde a criação do Estado de Israel até à invasão do Iraque e ao problema palestiniano.

Não é preciso ser um especialista no Médio Oriente para concluir que estas reacções exacerbadas existem porque, para nós, desenhar o Maomé até pode ser um acto de liberdade garantido pela Constituição mas, para eles, é uma nova invasão ocidental, desta vez a um «território» que consideram sagrado.

Lembro-o não por qualquer simpatia em relação a esta gente que deseja impor, em nome de Deus, o seu estilo de vida aos outros; digo-o porque também não tenho qualquer simpatia por quem deseja impor, em nome do dinheiro, o seu estilo de vida aos outros.

É uma luta destinada ao fracasso, pois estabelece-se em dois planos diferentes. E provoca a indignação, que é a força moral dos fanáticos. Ainda assim, há quem insista em travá-la.

A história deste Dia em que todos desenhamos Maomé começou a propósito do episódio censurado de South Park, mas podia ter começado muito antes.

Os exemplos são muitos: o escritor Salman Rushdie foi condenado à morte por causa do livro Versículos Satânicos e nunca mais teve um minuto de sossego na vida. O realizador holandês Theo van Gogh foi assassinado por um extremista muçulmano devido a um filme em que denunciava a violência exercida sobre as mulheres no Islão. Três pessoas (um dinamarquês de descendência marroquina e dois tunisinos) planearam assassinar o autor dos desenhos sobre Maomé, Kurt Westergaar, de 73 anos. Lembram-se da história? Em Setembro de 2005, no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, publicaram-se 12 cartoons nos quais o rosto de Maomé era retratado – o que é proibido pelo Islão –, ainda por cima associado ao terrorismo islâmico.

O último episódio conhecido sucedeu aos criadores de South Parker porque, num episódio em que diversos líderes religiosos eram criticados sem dó nem piedade, mostraram Maomé com um fatinho de urso.

Um site de extremistas islâmicos, RevolutionMuslim, publicou uma fotografia do cadáver de Theo van Gogh, o realizador holandês assassinado, juntamente com o aviso dirigido aos criadores da série: «Vocês podem ter o mesmo destino».

Finalmente, publicaram a morada dos escritórios em Nova Iorque da Comedy Central e do estúdio onde South Park é produzido.

O RevolutionMuslim tem um pequeno banner mostrando uma petição dirigida a Barack Obama. A petição é uma carta aberta «em nome dos muçulmanos» dirigida ao presidente americano, exigindo-lhe que acabe com a «guerra de terror» e diga «não ao Império Americano».

Obama, socialista e fascista ao mesmo tempo

O banner que anuncia a petição mostra-nos Obama com um bigode à Hitler, o que só demonstra o fosso enorme que separa uns e outros: para alguns ocidentais, incluindo americanos, Obama é o presidente mais à esquerda da história do país. Radicais ultraconservadores nos Estados Unidos insultam-no, chamando-lhe «socialista» como se o socialismo fosse uma doença infecciosa, usando o mesmo tipo de banner que os extremistas muçulmanos. Só faltou acrescentarem-lhe uma guedelha à Karl Marx.

Bem, a Comedy Central acabou por levar a sério as ameaças no site, substituindo o urso por um Pai Natal e colando um sonoro beep sobre as referências ao nome do profeta.

O dia de amanhã, 20 de Maio, é assim um desafio, o dia em que todos desenhamos Maomé: existe um grupo no Facebook chamado Everybody Draw Mohammed Day! , já com mais de 42 mil pessoas.

Esta é uma iniciativa de uma cartoonista de Seattle, Molly Norris.

Incomodada com a censura imposta pela Comedy Central ao episódio «profano», Norris pensou numa iniciativa através da qual fosse possível calcular a extensão do nosso medo face às ameaças dos extremistas islâmicos. Assim, quantos terão a coragem de desenhar Maomé? Convidou vários artistas a enviar um desenho para o sítio Citizens Against Citizens Against Humor.

«A minha intenção não é desrespeitar a religião», explica a cartoonista, «mas proteger o direito de as pessoas se expressarem». Como conciliar esta visão do problema quando, do outro lado, o direito à expressão é visto precisamente como desrespeito?

7 comentários

  • 1
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Mac OS X 10.5 Mac OS X 10.5
    19 de Maio de 2010 - 15:55 | Link permamente

    Este post está em destaque na Homepage do SAPO, tab “Radar”.

    • 2
      com Namoroka 3.6.5pre Namoroka 3.6.5pre em Windows XP Windows XP
      19 de Maio de 2010 - 16:11 | Link permamente

      Sempre que escreves um anúncio destes um gatinho inocente é torturado na Mongólia e a culpa é minha. Sabes disso, não sabes? Amiga da onça!

  • 3
    rss
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows XP Windows XP
    20 de Maio de 2010 - 00:39 | Link permamente

    Sempre que este tipo de assunto vir à baila, lembro-me de um documento feito por um jornalista britânico, salvo erro, em que este perguntava a alguns “árabes” que estiveram presentes nas manifestações de 2005 após lhes mostrar os referidos cartoons se os achavam ofensivos à sua religião. Vários afirmaram que os cartoons não eram de todo ofensivos, como é óbvio para qualquer religioso moderado, mas essas manifestações não eram contra os cartoons, pois não?

    E agora um paradoxo, para os muçulmanos resolverem:
    Se não se pode desenhar o profeta Maomé, então não existem retratos dele que possam ser copiados, como tal os cartoons em causa nunca poderiam ser de Maomé, pois não se sabe como ele era,são apenas árabes, digo eu.

  • 4
    Dolorosa
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
    21 de Maio de 2010 - 22:24 | Link permamente

    “como se o socialismo fosse uma doença infecciosa”
    Infecta-me o dinheiro e os direitos todos os dias.

    • 5
      com Namoroka 3.6.5pre Namoroka 3.6.5pre em Windows 7 Windows 7
      22 de Maio de 2010 - 00:11 | Link permamente

      Não devemos estar a falar do mesmo Socialismo, de certeza.

  • 6
    Dolorosa
    com Google Chrome 4.1.249.1064 Google Chrome 4.1.249.1064 em Windows 7 Windows 7
    26 de Maio de 2010 - 00:11 | Link permamente

    Claro que estamos Marco.

    O Socialismo necessita de um Estado que regule as nossas vidas. A consequência natural é que perdemos liberdade, e dinheiro para alimentar o monstro burocrático, monopolista.

  • 7
    Jorge
    com Google Chrome 5.0.375.99 Google Chrome 5.0.375.99 em Windows Vista Windows Vista
    28 de Julho de 2010 - 01:00 | Link permamente

    Ó dolorosa:eu prefiro um Estado que regule “as nossas vidas” ao estado do “cada um por si” e todos laranja ou outra coisa qualquer.

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