![[REC] [REC]](http://bitaites.org/wp-content/uploads/photos/2009/mar/05/01.jpg)
Depois de ver [REC] – um filme espanhol de zombies – fiquei a pensar se não estaremos a ser demasiado duros com estas nobres criaturas que há muitos anos nos acompanham e tanto têm contribuÃdo para a riqueza de Hollywood.
Os zombies têm hábitos de higiene deploráveis, graves distúrbios alimentares e alguns problemas de comunicação – mas será que a nossa reacção quando os vemos tem sempre de ser a mesma, berrar que nem uns doidos, correr para longe, desatar aos tiros, atacá-los à machadada, partir-lhes o pescoço ou esmagar-lhes o crânio?
Seria de esperar que um filme feito fora do circuito comercial de Hollywood contribuÃsse com uma visão mais equilibrada da relação entre zombies e humanos. Infelizmente, [REC] não acrescenta nada de positivo: sempre que um zombie corre de braços abertos em direcção a um ser humano é por desejar apertar-lhe o pescoço, não por querer abraçá-lo fraternalmente – o filme está cheio de equÃvocos e preconceitos deste tipo, como se um zombie também não sentisse necessidade de calor humano. Pessoalmente acho isto escandaloso.
Em nenhum momento [REC] nos mostra como deve ser difÃcil e dura a vida de um zombie. O tom amarelado da pele revela problemas de fÃgado e de rins que podem ser fatais mesmo para um morto-vivo; muitos deles estão mais mortos que vivos. Estar mais morto que vivo pode ser apenas uma maneira de dizer para os seres humanos, mas é uma autêntica navalhada no orgulho zombie.
Outro exemplo: quando são atingidos a tiro, geralmente não sangram quase nada – isto deve-se ao facto de o coração já não ter força suficiente para bombear o sangue. Em vez de engendrarmos um plano qualquer para recuperar a saúde destes pobres diabos, disparamos ainda mais tiros até que o desgraçado, exausto, desista de nos querer abraçar.
Não admira portanto que a narrativa do filme dos espanhóis Jaume Balagueró e Paco Plaza se baseie exclusivamente nesta visão unidimensional e insensÃvel do zombie. Um zombie existe apenas para perseguir, morder e comer-nos – não tem sonhos, aspirações, planos, não lê jornais, não vê televisão, não aderiu ao Twitter, o máximo que conseguiu foi entrar num teledisco do Michael Jackson – é uma pena que estas maravilhosas e bonitas criaturas (qualquer trapo lhes fica bem) nos sejam sempre apresentadas sem qualquer densidade psicológica, mesmo quando nos comem o cérebro.
Os diálogos entre seres humanos e zombies acabam, sem grande surpresa, por se revelar demasiado pobres. Das gargantas putrefactas das pobres criaturas o máximo que sai é um «aaarrrghhhhhh» ou um «craaaiiiphffff» – embora muito expressivos, todos sabemos que seriam capazes de ser mais eloquentes se lhes dessem mais oportunidades.
Em [REC], é sempre o ponto de vista do ser humano que prevalece. Ali todos os zombies são carnÃvoros – mais um cliché que ignora todos os mortos-vivos que, com grande sacrifÃcio pessoal e profissional, se tornaram vegetarianos e nunca mais tocaram num bitoque mal passado com batata frita e ovo estrelado.
Limitados ao eterno acto de perseguir, gritar, abrir os braços, morder, comer, desaparecer e reaparecer, os zombies de [REC] são meros escravos de um hipotético desejo humano de ser continuamente perseguido, mordido e, se possÃvel, comido. Os realizadores de [REC] são uns tarados sem qualquer possibilidade de remissão.































13 comentários
Oh Marco, então e o rabo?
Fogo, eu aqui ansiosa para ver o [REC] e agora acabou-se o suspense. Não há direito. Nem um spoiler alert.
Boas!
Desconhecia o seu blogue, mas graças ao twitter aqui estou eu
Gostei do aproveitamento do texto da Super-Interessante, em especial as pontas cómicas. Haja compaixão pelas pobres criaturas!
Cumprimentos e até breve,
Pedro José.
Haja alguém que leia essa grande revista! Também sou consumidor, como se nota
Obrigado pelo registo e venham mais comentários!
Por isso houve Shaun of the Dead, que para mim foi a melhor coisa que apareceu depois dos Zombies do Romero…
Pior: há zombias bem giras, para quem gostou da azulada Corpse Bride, mas é raro assistirmos a um momento sensual entre eles. Ainda há muito preconceito.
Agora a sério, esse filme apanhou-me de surpresa no Fantasporto do ano passado, porque não sabia de que tratava, e adorei. Para o fim, há uma zombie que faz lembrar o Marilyn Manson.
O melhor filme espanhol que vi nos últimos tempos chama-se “O Orfanato”. Mas não é, em termos puros, um filme de terror (é antes um estupendo cruzamento de drama, thriller psicológico e terror fantástico).
Grande texto!! Foi surpreendente essa admiração pelos zombies.
Recomendo o I’ll See You in My Dreams, made in Portugal. São só 20 min.
http://www.youtube.com/watch?v=8YhNhiDz-0g (PT 1)
http://www.youtube.com/watch?v=BPh5dVOk_Bc (PT 2)
Ó Marco, um zombie vegeteriano? Seria como um fantasma que não quisesse assombrar, que se isolasse numa cabana numa floresta para todo o sempre. Ou um vampiro que só bebesse seiva de soja. Um lobisomem que só comesse Pedigree Pal e andasse a correr que nem um louco atrás de um taco de basebol voador. Há coisas que têm que ser assim e pronto. Mas também há zombies e zombies.
Porque não escreves um guião onde um velho zombie, de roupão envergado e brandy em riste, disserta eloquentemente sobre a problemática da bÃlis como substituto do sangue e os seus efeitos nas correntes de pensamento existencialista. Ou a história de um bebé zombie criado por humanos.
Ah, deixei de assinar a Super Interessante quando percebi que de 2 em 2 meses saÃa um artigo sobre a sexualidade da mulher, ou os segredos do orgasmo feminino, ou qualquer coisa do género. Parecia que um adolescente fervoroso adepto de Freud havia tomado conta da redacção da revista. Mudei-me para a National Geographic e para o blog da Wired.
Não vi o filme. Nem está na lista. Mas nunca se sabe.
Muito legal o texto. Só alguns fatos curiosos, relacionados (ou não) com o post: no Brasil, zombie é zumbi. Existe um herói negro chamado Zumbi dos palmares (que não era zumbi ou zombie) e uma excelente banda chamada Nação Zumbi, cujo nome foi inspirado no Zumbi dos palmares.
devias ver o “Shawn of the Dead” x)
uma comédia britanica com zombies x) amei!!!
uma vez eu vi um pedaços de um filme( estava legendado e pela metade). mas pelos pedaços q vi, tinha um garoto q parecia ter um zumbie de mordomo ou empregado(excravo) e em uma cena ele salva o garoto de ums valentões que fogem de medo e em outra cena, tinha mudado e depois de um bom tempo voltei ao canl. ogaroto ta preso em uma especie de galpam de madeira, em quanto pedia para o zumbie q estvá do lado de fora para chamar ajuda, mas não sem antes que ele se limpasse de samgue e troca-se as roupas.( acredito q o garoto era rico e alguem temtou seguestralo e o zumbie foi resgatar o garoto e teve q comer o seguestrador.
nota: o zumbie tinha uma esoecie de coleira.
eu pensei em um filme q um zumbie depois de anos chegasse em um casa e comessava a té lampejos de sua memoria e esculta um choro de um bebe no bersso. inicial mente ele pega a crinça como se foce comela mas, ocorre outro lampejo e o garoto mija nele então este o olha nos olhos e resolve mantelo seguro. após alguns anos vemos q de uma janela um jovem olha varios zumbies andado ao redor da casa, mas ele não os temes e abre a porta para um deles entrar. o mesmo q o criou desde bebe.