→ 14/11/2006 @19:57

That’s the way i like it

Logo abaixo do rei [o Abrupto] está a no­breza, um grupo muito se­lecto que se re­la­ci­ona a um ní­vel su­pe­rior, sem­pre edu­cada e cor­di­al­mente, tro­cando gen­ti­le­zas e ma­ni­fes­tando ad­mi­ra­ção mú­tua atra­vés de inú­me­ros links, que se re­pe­tem com frequên­cia e in­va­ri­a­vel­mente den­tro do mesmo grupo. Para en­trar para esta elite não é fá­cil, e, se bem que ser bom ajude, não basta — dou­tra forma não se ex­plica a to­tal au­sên­cia de re­fe­rên­cias ao Bitaites den­tro desta elite, um blo­gue com­pleto, bem es­crito, com uma cons­tân­cia in­ve­já­vel, e um dos mais li­dos de Portugal sem ser de ga­jas nuas. Para tal é pre­ciso conhecer-se as pes­soas cer­tas, de pre­fe­rên­cia pes­so­al­mente, e pas­sar pela apro­va­ção dos mais con­cei­tu­a­dos blog­gers, ver­da­dei­ros ba­ró­me­tros de po­pu­la­ri­dade, de quem uma re­fe­rên­cia elo­gi­osa ou de des­dém po­dem fa­zer toda a di­fe­rença e dei­tar por terra qual­quer opor­tu­ni­dade de se ser brasonado.

Luna, A Sociologia da Blogosfera I

As mi­nhas des­cul­pas: ul­ti­ma­mente falou-se aqui de­ma­si­ado de blo­gues. Também se tem men­ci­o­nado o Bitaites mais do que é nor­mal, mas a prosa da Luna atin­giu o meu ponto G blo­gos­fé­rico, ou seja, fi­quei com ga­nas de es­cre­ver so­bre esta merda.

Conheço bem es­tes eli­tis­tas da blo­gos­fera – a maior parte das ve­zes ignoro-os mal co­meço a ler, ou­tras ve­zes deixo-me fi­car mais tempo por­que, no fundo, até são divertidos.

Um blo­gue desse gé­nero não é fe­chado so­bre si pró­prio por­que par­ti­cipa num grupo de blog­gers aos quais pode cha­mar seus se­me­lhan­tes. Esses gru­pos são fe­cha­dos – não só aos ou­tros blo­gues, os ple­beus, como aos pró­prios vi­si­tan­tes.
Um blog­ger desta ca­te­go­ria pode co­me­çar um post escrevendo:

«Sim, por­que devo dizer-lhe, meu caro Fulano não-sei-das-quantas [link para o blo­gue do Fulano não-sei-das-quantas], so­bre o as­sunto que es­cre­veu [link para o as­sunto que o ou­tro es­cre­veu], em res­posta ao de­sa­fio que lhe co­lo­quei [link para o de­sa­fio que co­lo­cou ao ou­tro gajo], como ti­nha re­fe­rido o Beltrano não-sei-das-quantas quando tão bem men­ci­o­nou o axi­oma da re­du­ti­bi­li­dade dos es­quen­ta­do­res a gás [link para o blo­gue do Beltrano não-sei-das-quantas], que con­si­dera, tal como você, de resto, a plan­ta­ção de na­bos e ra­ba­ne­tes nos ca­nais de Marte como per­ni­ci­osa do ponto de vista da lei de Euclides, o que, na ver­dade, é es­can­da­loso, con­forme co­men­tei aqui [link], a pro­pó­sito do que você es­cre­veu ali [link], ins­pi­rado pelo que leu acolá [link] e re­a­gindo ao post co­lo­cado há dois dias pelo Sicrano do não-sei-das-quantas so­bre as ti­po­lo­gias en­do­plas­má­ti­cas da Scarlett Johansson [link para o Sicrano do não-sei-das-quantas]» – e por aí fora.

Posts deste tipo (des­con­tem a pa­ró­dia) são co­muns em gru­pi­nhos onde o nú­mero de tro­nos cor­res­ponde ju­di­ci­o­sa­mente ao nú­mero de lu­ga­res mar­ca­dos. No exem­plo que eu dei – é fá­cil des­co­brir posts as­sim, basta pro­cu­rar – os pró­prios vi­si­tan­tes são pos­tos de parte: o post nem se­quer lhes é di­ri­gido. Aos vi­si­tan­tes resta agra­de­cer a be­nesse (se lhes for con­ce­dido a graça de um co­men­tá­rio) e acom­pa­nhar o diá­logo en­tre as ilu­mi­na­das fi­gu­ras como bur­ros num palácio.

Outra ca­rac­te­rís­tica que iden­ti­fica um blo­gue eli­tista é quando o blog­ger co­loca um po­ema em fran­cês com uns cin­quenta me­tros de al­tura sem se­quer tra­du­zir. O rei Abrupto, o tal que está no trono como diz a Luna, cos­tuma fazê-lo – mas nem se­quer é o pior.

A ra­zão por­que em­birro com este tipo de posts tem a ver com o facto de os blo­gues em ques­tão não se­rem for­mal­mente se­cre­tos ou de acesso res­trito. A res­tri­ção é cul­tu­ral e a pose eli­tista. Fico fo­dido quando al­guém usa a Cultura para se di­fe­ren­ciar dos ou­tros quando para mim a cul­tura deve ser­vir é para apro­xi­mar as pes­soas. Se o au­tor es­ti­vesse de facto in­te­res­sado em di­vul­gar um po­ema, ten­ta­ria colocá-lo tam­bém em por­tu­guês. A isto se chama par­ti­lhar. Como não o faz, fico com a im­pres­são de que o que está a mos­trar não é o po­ema, mas os seus co­nhe­ci­men­tos de francês.

Há uma si­tu­a­ção em que são di­ver­ti­dos: quando a di­plo­ma­cia fa­lha e as co­ma­dres de­cla­ram guerra. Nessas al­tu­ras, eles ar­re­ga­çam as ren­das e as pa­la­vras tornam-se mais ca­ras, as ci­ta­ções mais so­fis­ti­ca­das e os ar­gu­men­tos ainda mais re­don­dos. O que de facto eles es­tão a fa­zer é a me­dir o ta­ma­nho das suas in­te­lec­tu­ais pi­chas – e é isso que me di­verte. Porque, ape­sar de ten­tar es­cre­ver cor­rec­ta­mente, pre­firo ler a opi­nião de al­guém que vai bus­car den­tro de si as pa­la­vras, pre­firo ler al­guém que dá er­ros e se atra­pa­lha, do que atu­rar es­ses imbecis.

A Luna foi sim­pá­tica em que­rer fa­zer jus­tiça ao Bitaites, mas raios ma par­tam se quero essa gente ato­lando a caixa de co­men­tá­rios com ca­ga­de­las pseudo-intelectuais — nem que eles jul­guem que es­sas ca­ga­de­las se sol­ta­ram do cu dos pás­sa­ros do Hitchcock.