Logo abaixo do rei [o Abrupto] está a nobreza, um grupo muito selecto que se relaciona a um nível superior, sempre educada e cordialmente, trocando gentilezas e manifestando admiração mútua através de inúmeros links, que se repetem com frequência e invariavelmente dentro do mesmo grupo. Para entrar para esta elite não é fácil, e, se bem que ser bom ajude, não basta — doutra forma não se explica a total ausência de referências ao Bitaites dentro desta elite, um blogue completo, bem escrito, com uma constância invejável, e um dos mais lidos de Portugal sem ser de gajas nuas. Para tal é preciso conhecer-se as pessoas certas, de preferência pessoalmente, e passar pela aprovação dos mais conceituados bloggers, verdadeiros barómetros de popularidade, de quem uma referência elogiosa ou de desdém podem fazer toda a diferença e deitar por terra qualquer oportunidade de se ser brasonado.
Luna, A Sociologia da Blogosfera I
As minhas desculpas: ultimamente falou-se aqui demasiado de blogues. Também se tem mencionado o Bitaites mais do que é normal, mas a prosa da Luna atingiu o meu ponto G blogosférico, ou seja, fiquei com ganas de escrever sobre esta merda.
Conheço bem estes elitistas da blogosfera – a maior parte das vezes ignoro-os mal começo a ler, outras vezes deixo-me ficar mais tempo porque, no fundo, até são divertidos.
Um blogue desse género não é fechado sobre si próprio porque participa num grupo de bloggers aos quais pode chamar seus semelhantes. Esses grupos são fechados – não só aos outros blogues, os plebeus, como aos próprios visitantes.
Um blogger desta categoria pode começar um post escrevendo:
«Sim, porque devo dizer-lhe, meu caro Fulano não-sei-das-quantas [link para o blogue do Fulano não-sei-das-quantas], sobre o assunto que escreveu [link para o assunto que o outro escreveu], em resposta ao desafio que lhe coloquei [link para o desafio que colocou ao outro gajo], como tinha referido o Beltrano não-sei-das-quantas quando tão bem mencionou o axioma da redutibilidade dos esquentadores a gás [link para o blogue do Beltrano não-sei-das-quantas], que considera, tal como você, de resto, a plantação de nabos e rabanetes nos canais de Marte como perniciosa do ponto de vista da lei de Euclides, o que, na verdade, é escandaloso, conforme comentei aqui [link], a propósito do que você escreveu ali [link], inspirado pelo que leu acolá [link] e reagindo ao post colocado há dois dias pelo Sicrano do não-sei-das-quantas sobre as tipologias endoplasmáticas da Scarlett Johansson [link para o Sicrano do não-sei-das-quantas]» – e por aí fora.
Posts deste tipo (descontem a paródia) são comuns em grupinhos onde o número de tronos corresponde judiciosamente ao número de lugares marcados. No exemplo que eu dei – é fácil descobrir posts assim, basta procurar – os próprios visitantes são postos de parte: o post nem sequer lhes é dirigido. Aos visitantes resta agradecer a benesse (se lhes for concedido a graça de um comentário) e acompanhar o diálogo entre as iluminadas figuras como burros num palácio.
Outra característica que identifica um blogue elitista é quando o blogger coloca um poema em francês com uns cinquenta metros de altura sem sequer traduzir. O rei Abrupto, o tal que está no trono como diz a Luna, costuma fazê-lo – mas nem sequer é o pior.
A razão porque embirro com este tipo de posts tem a ver com o facto de os blogues em questão não serem formalmente secretos ou de acesso restrito. A restrição é cultural e a pose elitista. Fico fodido quando alguém usa a Cultura para se diferenciar dos outros quando para mim a cultura deve servir é para aproximar as pessoas. Se o autor estivesse de facto interessado em divulgar um poema, tentaria colocá-lo também em português. A isto se chama partilhar. Como não o faz, fico com a impressão de que o que está a mostrar não é o poema, mas os seus conhecimentos de francês.
Há uma situação em que são divertidos: quando a diplomacia falha e as comadres declaram guerra. Nessas alturas, eles arregaçam as rendas e as palavras tornam-se mais caras, as citações mais sofisticadas e os argumentos ainda mais redondos. O que de facto eles estão a fazer é a medir o tamanho das suas intelectuais pichas – e é isso que me diverte. Porque, apesar de tentar escrever correctamente, prefiro ler a opinião de alguém que vai buscar dentro de si as palavras, prefiro ler alguém que dá erros e se atrapalha, do que aturar esses imbecis.
A Luna foi simpática em querer fazer justiça ao Bitaites, mas raios ma partam se quero essa gente atolando a caixa de comentários com cagadelas pseudo-intelectuais — nem que eles julguem que essas cagadelas se soltaram do cu dos pássaros do Hitchcock.










