Inside Deep Throat (à venda em DVD) é um documentário escrito e realizado pela dupla Fenton Bailey/Randy Barbato que retrata a sociedade americana dos anos 70 (e o choque moral que o filme Deep Throat, lançado em 1972, desencadeou). Vivia-se sob o Governo de Richard Nixon e estava no auge a Revolução Sexual, a luta pela igualdade entre homens e mulheres. Vivia-se numa época em que a pornografia não tinha a distribuição actual (Internet, canais codificados de cabo) – vivia-se num tempo em que o prazer sexual era tabu e o fellatio considerado um crime contra a natureza. O documentário levanta mais questões que aquelas que consegue resolver, mas tem o mérito de ouvir as duas partes em disputa – de um lado os apologistas de todas as formas de expressão artÃstica, do outro os defensores da moralidade religiosa.
Mostra-nos a cruzada moral da Presidência de Nixon, as acções em tribunal para proibir a exibição do filme (que tiveram como consequência o acicatar do apetite e uma procura cada vez maior pelas salas de cinema que o exibiam). Foi de tal forma fracturante a discussão que se criou acerca do filme (custou 25 mil dólares e foi rodado numa semana) que se tornou um clássico do cinema (é o filme mais rentável da história). Era o Porno Chic – toda a gente que era gente o viu.
Perseguindo o intuito de proibir futuras aventuras pornográficas, a Justiça Americana conseguiu a condenação do actor que contracenava com Linda Lovelace (Harry Reems) a cinco anos de prisão por conduta imoral, num julgamento muito mediatizado e inovador: o orgasmo clitoriano era considerado imoral – só o orgasmo vaginal era moralmente aceitável, com todas as consequências que daà se adivinham na escolha sexual, desde logo nas relações mulher/mulher – e desenvolveram-se discussões interessantÃssimas acerca do tema no julgamento que condenaria o actor, ao ponto de o Juiz dizer que aprendera mais durante aquele julgamento sobre sexualidade humana do que em toda a sua vida anterior.
Depois mostra-nos a onda de solidariedade da Indústria Cinematográfica de Hollywood para com Reems – embora não concordando com aquela forma de arte, indignou-se com a condenação de um actor por ter representado um papel – e as manifestações feministas que exigiam a proibição imediata do filme por atentar contra a dignidade da mulher – movimento feminista de tal forma radical que recrutou Linda Lovelance para as suas fileiras levando-a a dizer, perante a comissão de inquérito e os media que, quando vissem o seu desempenho cinematográfico, o que estavam realmente a ver era uma mulher a ser violada. São tantas as questões levantadas que nem o visionamento do documentário será suficiente.
Linda Lovelace – a musa de Deep Throat – foi uma mulher explorada até morrer aos 52 anos num acidente de viação: primeiro pela indústria cinematográfica que a usou numa guerra que nunca venceu – a de querer fundir o cinema dito convencional com o pornográfico; depois pelo movimento feminista radical de finais dos anos setenta – que a usou como sÃmbolo maior da escravatura sexual da mulher e da sua redução a mero objecto pela pornografia; por último, explorada por ela mesma quando aos cinquenta anos se viu na miséria e tentou ressuscitar a estrela Porno posando nua para a revista Playboy.































