Raios partam o George Lucas. Vai um gajo finalmente ver o episódio III do Star Wars e só há Darth Vader nos últimos cinco minutos?
Então andámos nestes últimos anos a ser tentados pelo Lado Negro da Força, ouvindo aquela respiração tecno-asmática em quase todos os trailers – e depois ficamo-nos por três cenazitas, senhor Lucas? Três? Ainda por cima uma delas é tão caricata que por pouco não desatava à gargalhada no cinema? É verdade que o Vader continua a ser o vilão mais cool de Hollywood, mas prefiro-o com o capacete à nazi, sem expressões ou sentimentos, do que vê-lo assim com aquela máscara de Anakin Skywalker. Não lhe fica bem.
Porra, devo estar a ficar velho. A magia destes filmes passa-me ao lado e já não me deixo enfeitiçar tão facilmente. Até o venerável Yoda, transformado em ser digital, pós-Gollum, me parece um boneco dos Marretas acabadinho de snifar coca. Eu sei, muitos anos passaram desde que vi o primeiro Guerra das Estrelas. Entretanto cresci e secumbi ao Lado Negro, não o da Força, mas o do fumo: o meu sabre de luz é um cigarro aceso a meio da noite, e sempre que faço uma jogatana de futebol com os meus aprendizes Jedi fico com a respiração parecida com a do Darth Vader. To much reality for a Friday night.
Ainda bem que o meu vizinho de cima não é o Darth Vader. Fico a pensar no que seriam as minhas noites se tivesse de ouvi-lo a cair sob a Padmé. Claro que ele podia fazer levitar a cama com os seus poderes de Jedi, mas há coisas que não se podem alterar. É o destino. Vá lá, o Anakin engravidou a princesa antes de se enfiar naquele fato. Nem posso imaginar o trauma da menina se tivesse de ficar debaixo de um Darth Vader em respiração acelerada e a chocalhar a armadura. Não havia Luke nem princesa Leia.
O problema é que o Lado Negro da Força é muito mais forte cá fora do que no filmezinho do Lucas. Nem é preciso dar exemplos: todos vemos os telejornais. Senti esse poder mesmo na zona das bilheteiras, quando tive de largar 20 euros do meu ordenado – cinco contos à moda antiga – para pagar quatro bilhetes: o meu, o da Susana, e os dos nossos dois filhotes. E agora vem mais dois por cento de IVA.
Quando já estávamos a ver o filme – naquela parte em que Anakin e Obi-Wan fazem uma gincana espacial tentando chegar à nave onde se encontra o senador Palpatine –, o meu filho Francisco perguntou-me: “Pai, isto é como os jogos da PlayStation mas sem ser preciso comando para jogar, não é?” Eu não queria, a sério, mas tive de concordar. Ele já é um jogador batido e as semelhanças são demasiadas.
A cena em que o Darth Vader “ressuscita” é, desculpem-me os fãs que se arrepiaram, completamente hilariante. Quando ele deu os primeiros passitos, lembrei-me logo de um velhinho filme do mestre Kubrick sobre os tempos da Guerra Fria – Dr. Strangelove – e do momento em que o cientista paraplégico alemão, um ex-nazi a trabalhar no Pentágono, se levanta da cadeira, dá meia-dúzia de passos hesitantes e proclama: Mein Fuhrer… I can walk!
Corrigam-me os conhecedores da saga, mas não há para ali uma falha no argumento? Nessa cena final, o Imperador convence o pobre Vader de que foi ele o responsável pela morte da amada Padmé. Vader acredita e lança aquele grito de desespero milhões de vezes visto no cinema: Nooooo! Pois se assim foi, se ela morreu naquele planeta vulcânico, como poderia ter tido filhos? O Darth Vader não pensou nisso quando descobriu a existência de Luke Skywalker e da irmã? Pois é. Devia ter percebido que o Imperador Faísca o enganou – e descobria-o no filme a seguir, só para não dar hipóteses. Então deitava-o pela pia da Estrela da Morte abaixo, o mau dava outro grande grito de desespero – tipo Nooooo! – e eu lá tinha poupado 20 euros.
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