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Gengis, o público, o Teatro e o restaurante

Dinarte Branco como Gengis

Dinarte Branco como Gengis (Foto: Pedro Polónio)

GENGIS: Venha comigo para o exílio, Tio… não aguento mais.
TIO: Está bem, mas antes de ires, vamos realmente vivê-lo, vamos pôr-nos onde a faca corta, onde a verdade dói, onde as paredes se desmoronam em cima de mentiras e hipocrisia, onde a condescendência de mentes tacanhas é afugentada para sua grande desonra, onde a degradação e o veneno da publicidade e do consumismo são rejeitados franca e abertamente, onde os pusilâmines não se atrevem a pôr o pé, onde as palavras desconfortáveis e difíceis são ditas sejam quais forem as consequências, onde a inteligência e o humor escarnecem do medo.
GENGIS: Isso, vamos ao teatro!
TIO: Ao restaurante.
GENGIS: Pois, era isso que eu queria dizer.

Gengis Entre os Pigmeus, de Gregory Motton (Tradução: Pedro Marques)


Não sei ainda que tipo de críticas vão surgir nos jornais a propósito da peça Gengis Entre os Pigmeus, que vi hoje e adorei, mas sinceramente não espero nada de especial. É possível até que me sinta irritado, não pela eventualidade de uma crítica negativa, porque desta não há escapatória possível, mas se o crítico mostrar estar mais interessado nas próprias palavras do que nas palavras que ouviu.

Talvez não esteja a explicar-me bem. O que acontece é que na maior parte das vezes não percebo um caralho do que escreve o crítico. É frequente chegar ao fim do artigo sem saber se o tipo gostou ou não do que viu. Criticar é um acto de comunicação – e quando o que se pretende comunicar é apenas a nossa própria inteligência, sabedoria ou perspicácia, o artigo deixa de ser uma crítica e passa a ser o que os médicos hoje designam por auto-manipulação genital.

Muitas vezes também noto que a crítica é escrita com parcimónia ou excessivo entusiasmo consoante o autor do artigo é amigo ou não das pessoas cujo trabalho está a criticar. Neste caso não vejo grande diferença entre um jornalista desportivo que na sua avaliação «protege» um jogador de futebol, mesmo que tenha jogado mal, e o crítico sem tomates para contar o que de facto sentiu e de que forma as palavras que ouviu da boca dos actores o confrontaram. Porque se há coisa que julgo ser essencial ao teatro é o confronto – não só entre personagens, mas com o próprio público.

A vaidade nunca favoreceu a arte e com certeza que não favorece a crítica. Um actor pode ter grandes potencialidades, mas se não estiver disposto a esquecer o próprio ego nunca conseguirá sair diante do espelho. Da mesma forma, um crítico que escreva por amor ao que supõe ser o seu poder crítico dificilmente será empolgante ou inspirador. Eu não conheço todos os críticos de teatro que escrevem em Portugal, portanto posso até ser injusto, mas tenho quase a certeza de que o crítico é um dos responsáveis pelo facto de as pessoas fugirem do teatro a sete pés. A malta fica com a ideia de que o teatro é uma chatice, quando na realidade o maior chato de todos é o crítico.

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6 comentários

  • 1
    Michael C.
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Mac OS X 10.5 Mac OS X 10.5
    7 de Julho de 2008 - 10:59 | Link permamente

    Muitos parabéns pela escrita, mais uma vez… Vai ser complicado mas fiquei mesmo com vontade de ver a peça.

  • 2
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    7 de Julho de 2008 - 11:04 | Link permamente

    Obrigado, Michael. Se puderes vai ver, vale mesmo a pena.

  • 3
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows XP Windows XP
    8 de Julho de 2008 - 14:39 | Link permamente

    olha que a critica do público é perceptível. 8)
    deixo aqui só o inicio do texto:
    «Segundo momento de uma trilogia dedicada ao consumismo (iniciada com Gato e Rato (Carneiros), de 1995, e concluída com Férias ao sol, de 2003), Gengis entre os Pigmeus (de 2002) é uma verrinosa alegoria para os tempos modernos. Aqui destilam-se, num humor corrosivo, muitas das marcas registadas dos últimos anos: os totalitarismos encobertos, o namoro entre a publicidade e a política, a crescente exploração da mão-de-obra barata, a manipulação das massas, a solidão virtual, enfim, aquilo que é o dia-a-dia da civilização ocidental (ainda que o principal referente seja aqui a Inglaterra).»
    é escrito por Rui Pina Coelho

  • 4
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Julho de 2008 - 14:45 | Link permamente

    Sim, eu li hoje também, Pedro. Não só é perceptível como é boa.

  • 5
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows XP Windows XP
    8 de Julho de 2008 - 16:32 | Link permamente

    só é pena terem trocado o nome ao Luís Mouro… 8)
    mas deve ser impossível de encontrar um artigo sem gralhas no público . :(

  • 6
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Julho de 2008 - 16:39 | Link permamente

    Também não sei se concordo com o arrastamento da peça de que ele fala depois das Filipinas. Acho que dado o texto que ali está, a peça deve ser representada como se os actores tivessem speed na cabeça, com uma genica do caraças. Acho que alguns podiam mostrar mais «pica», pelo menos no dia em que vi. Falo por exemplo da actriz que faz o Tio porque o Dinarte é um tipo fantástico em palco. Não acho que seja atribuível a redundâncias no texto ou na encenação.
    Mas ao menos temos um crítico conhecedor que vê como a peça foi em primeiro lugar brilhantemente traduzida, isso também foi porreiro, ver esse trabalho reconhecido.

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