Qual é coisa qual é ela que parece uma pintura vista de longe e uma colecção de objectos de consumo vista de perto? Resposta: uma fotografia de Chris Jordan da sua série «Running the Numbers: An American Self-Portrait».
Chris Jordan reteve os ensinamentos do «pontilhismo» (1) e subverteu-os para criar a sua extraordinária série de auto-retratos americanos. Isolados, os elementos que compõem as suas composições têm um determinado significado: observados de longe, assumem um significado totalmente diferente, repleto de conotações políticas e sociais.
Veja-se, por exemplo, o trabalho «Constitution», de 2008. Num primeiro olhar, parece a primeira página da Constituição dos Estados Unidos da América: «We The People…». À medida que observamos mais de perto, porém, apercebemo-nos de que a imagem da Constituição é formada por 85 mil fotografias de prisioneiros de Abu Ghraib, tantas quanto o número de pessoas detidas sem julgamento a pretexto da campanha «War on Terror» de George Bush. A descoberta do «material» que compõe a imagem tem uma força extraordinária. Cada número tem um rosto, não é apenas parte de uma estatística, parece dizer-nos Chris Jordan.
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3 comentários
Só tenho duas palavras: Fan tástico.
Não, a sério, os trabalhos são absolutamente geniais! E devem ter dado um trabalhão a realizar.
Quando li a primeira página do post, fiquei logo rendido. E quando vi as imagens, fiquei de queixo caído – e ainda estou à procura dele, porque parece que ter rebolado para qualquer lado.
Bem, agora vou explorar o site do artista.
Os pontilhistas captavam a imagem antes de esta ser automaticamente racionalizada e construída numa percepção.
Desvelavam assim a verdadeira realidade que seria composta por ínfimos pontos imperceptíveis (aposto que já andavam a falar do átomo, eh eh).
Aquilo que me fascinou é que decerto a ironia de “desvelar a realidade” não passou despercebida a Jordan quando se inspirou no pontilhismo, até porque pensando bem ele acaba por fazer o inverso do pontilhismo: a essência da realidade revela-se na imagem composta, enquanto que a ilusão é representada por milhares de objectos-ponto.
Exactamente, Daniel. O trabalho da Constituição Americana é um exemplo perfeito do que acabaste de dizer.