
O melhor do filme Um dia de cada vez, de Mike Leigh, é a personagem interpretada por Sally Hawkins. Poppy Pauline é uma mulher de 30 anos tão optimista e espontânea na relação com o mundo e as pessoas que nos deixa desconcertados, quase exasperados.
Polly é infantil e imaginativa, pois encara tudo o que lhe acontece, mau ou bom, como uma oportunidade para seguir em frente; não é imatura ou inconsequente, porque a coerência da sua atitude aparentemente irresponsável assenta numa filosofia de vida: não desistir, de si própria e dos outros.
Estava a ver o filme e a imaginar o que seria esta Polly na carruagem do Metropolitano de Lisboa. Como seria interpretada a familiaridade com que se dirige a estranhos, o que despoletaria esta descarada indiferença a um modo de vida urbano que incita a ignorarmo-nos uns aos outros e a desconfiar de quem se aproxima sem rodeios.
E como é bonito que Mike Leigh tenha feito deste personagem uma mulher jovem e atraente, sobretudo quando a vemos acompanhar o mendigo, homem semi-louco, sujo e desprezado, mas carente de atenção e humanidade, seguindo-o ao seu canto da cidade, à noite, com o mesmo desprendimento com que aceitaria beber um copo com um amigo.
Vemos nesta cena até onde pode chegar a sua coerência e, porque tomamos a sua bondade por ingenuidade, começamos a sentir o perigo; depois, quando compreendemos a justiça da sua intuição, é uma louca por quem sentimos um enorme respeito e carinho.
Nas mãos de um realizador com intenções mais sombrias, a doce e descarada Polly seria vÃtima de violação ou roubo, ficaria marcada para sempre; mas Mike Leigh devia sentir-se radioso como o Sol quando escreveu este argumento: Polly terá de enfrentar a violência e agressividade com o seu instrutor de condução, mas não será destruÃda. E ainda bem, porque não lhe perdoaria tamanha escuridão sobre personagem tão inspiradora.
Polly decide aprender a conduzir, depois de lhe terem roubado a bicicleta. As conversas com o instrutor – desconfiado, brusco, homem que nunca sentiu nada mais caloroso do que a sua raiva – são as melhores cenas do filme, tensas e hilariantes. Os diálogos são formidáveis, até porque, em parte, foram improvisados; a interacção entre os dois actores (um espantoso Eddie Marsan) é das melhores que já vi em cinema.
Um dia de cada vez - agora vou usar uma expressão bué da moderna – é um feel-good movie pelo que nos mostra, não pelo que nos esconde…































5 comentários
Eu vi o filme acerca de um mês (talvez) já não me lembro de tudo mas de facto “ficaram” os diálogos entre os dois no carro e a condução dela, é claro…com as botas de salto alto
Mas de um modo geral não achei que o filme fosse daqueles que marcassem…e confesso que hoje em dia acho que já não há ninguém assim a não ser que seja um bocadinho “desmarcado”…
Nem dei por ele. Mas depois do que li, fiquei com uma vonatde irresistÃvel de o ver.
Bluewater, vai ver. É muito bom.
Fiquei curiosa!
De Mike Leigh não se pode esperar outra coisa …
Dei com ele por acaso há muito anos (cheguei atrasada para ver uma peça de uma amiga e tive de me virar para a outra sala onde estava o … Naked — bela iniciação hein?! – sem legendas … ainda por cima …).