→ 06/11/2009 @16:52

A América continua a perguntar porquê

O exército americano ainda não lançou uma versão oficial dos acontecimentos, mas as consequências do tiroteio de quinta-feira na base militar de Fort Hood, no Texas, Estados Unidos, são já bem conhecidas: 13 mortos e 30 feridos, alguns dos quais em estado grave.

O atirador é da casa:

Major Nidal Malik Hasan, 39 anos, muçulmano, filho de pais palestinianos, psiquiatra que fazia parte da equipa do Centro para o Estudo do Stress Traumático.

General Bob Cone

Foto: L.M. Otero

General Bob Cone num briefing com jornalistas – a América continua na idade dos porquês: porquê a matança, porquê um major psiquiatra do Exército a assassinar os próprios camaradas e porquê outro muçulmano revoltado ao ponto da ruptura total? Talvez a resposta não resida nos tiros disparados em solo americano, mas nas bombas que deflagraram em países distantes.

 

Malik Hasan tinha como principal função ajudar psicologicamente os soldados que regressavam do Iraque traumatizados, com problemas associados a abuso de álcool e drogas. Agora os americanos estão a lidar com o facto provável de o psiquiatra ter enlouquecido e assassinado militares que se encontravam no Centro de Prontidão, a fazer uma série de check-ups de rotina antes de embarcar para o Iraque.

O homem que se encarregava de receber os soldados traumatizados vindos do Iraque escolhe como local de matança precisamente o centro onde se devem dirigir antes de embarcar. Ter-se-ia visto, na sua loucura e tendo em conta os testemunhos que ouviu, como alguém que estava a distribuir tiros de misericórdia?

Hasan foi impiedoso: alguns dizem que disparou indiscriminadamente, outros que tinha alvos específicos. Na verdade, ninguém tem a certeza. Só parou de disparar quando um soldado – o sargento Kimberly Munley, uma mulher de 34 anos, mãe de uma criança de três – o abateu com quatro tiros.

Não morreu, ao contrário do que foi difundido nos primeiros takes. Encontra-se hospitalizado em estado grave mas, asseguram os médicos, estável. Barack Obama lamentou o sucedido, condenou a violência e prometeu que toda a verdade iria ser conhecida.

Parte da verdade, partindo do princípio de que existe apenas uma, é a que tem surgido nas últimas horas: Nidal Malik Hasan já estava sob vigilância há vários meses, afirma um antigo militar de Fort Hood, sobretudo desde que publicou na Internet vários comentários considerados aberrantes.

O Major comparou a acção dos bombistas suicidas à de um soldado americano que se lança sobre uma granada para proteger os camaradas. Também dizia que os muçulmanos tinham o direito de se erguer e lutar contra o opressor – o seu próprio país – e que os Estados Unidos não deveriam estar presentes no Iraque e Afeganistão.

Estas ideias não eram bem recebidas entre os seus camaradas. E um primo de Hasan veio ontem contar aos jornalistas que o major se queixava do assédio e dos insultos dos outros militares. Pior ainda: a possibilidade – não confirmada – de vir ser mobilizado para o Iraque estava a fazer da sua vida um inferno porque, enquanto psiquiatra, ouvira coisas terríveis, horríveis, histórias de guerra que o terão afectado psicologicamente.

A história já fornece munições à artilharia pesada da extrema-direita americana: chamam ao Major o jihadista e afirmam ser um muçulmano devoto que se alistou no Exército com um propósito.


Fontes: What is known about Nidal Malik Hasan and Fort Hood shooting | Did Nidal Malik Hasan suffer from compassion fatigue or vicarious traumatization? | Who is Maj. Nidal Malik Hasan?

4 comentários

  • 1
    com Firefox 3.0.15 Firefox 3.0.15 em Windows Vista Windows Vista
    6 de Novembro de 2009 - 21:25 | Link permamente

    Este episódio vai fazer com que os americanos muçulmanos – principalmente os militares – voltem a ser olhados de esguelha, tal como aconteceu no pós 11 de Setembro. E pelo que me contaram familiares que lá vivem, olhar de esguelha nesses casos, chega a ser um elogio.

  • 2
    BetoNogueira
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    7 de Novembro de 2009 - 01:25 | Link permamente

    O apelo das origens pode viver adormecido pelos condicionalismos até que explode.

  • 3
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    7 de Novembro de 2009 - 08:41 | Link permamente

    Marco, calculo que tenhas visto o “Full Metal Jacket”. Quando li esta parte «o major se queixava do assédio e dos insultos dos outros militares. Pior ainda: a possibilidade – não confirmada – de vir ser mobilizado para o Iraque estava a fazer da sua vida um inferno» lembrei-me de imediato do tipo que matou o sargento, suicidando-se de seguida sentado na sanita. Talvez a intenção deste também fosse suicidar-se no fim, e não tenha tido tempo para o fazer, ao ser atingido por disparos.
    E claro, isto irá fortalecer todos os extremismos contra os muçulmanos.

  • 4
    maria
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Novembro de 2009 - 19:41 | Link permamente

    Os americanos são todos loucos, não há mais nenhum país no mundo que tenha tantas histórias destas, tantos psicopatas que desatam aos tiros sobre inocentes. O “melting pot” cultural, racial e étnico não é uma boa ideia, pois exarceba as taras, as psicoses, as doenças…

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