A notÃcia da morte da italiana Eluana Englaro foi recebida pelo primeiro-ministro de Itália, Silvio Berlusconi, com «amargura» e pena por não ter conseguido «salvá-la».
O Corriere della Serra, citado hoje pelo jornal Público, dá-nos uma ideia sobre o que Berlusconi não conseguiu salvar: Eluana pesava 40 quilos, tinha sempre os braços e as pernas encolhidos, nunca podia estar de barriga para cima porque os lÃquidos saÃam do estômago atrofiado, só podia estar apoiada no lado direito, tinha chagas e lacerações. Estava «devastada e irreconhecÃvel», segundo o testemunho da repórter da RAI Marinella Chirico.
Conhecer o estado em que Eluana se encontrava ajuda a perceber melhor que sempre existiram duas maneiras de a salvar: perpetuando o estado vegetativo da mulher porque a eutanásia é homicÃdio, porque o sofrimento é um apelo de Deus, porque nunca se sabe se poderá ocorrer um milagre, como defendem Berlusconi, os padres e a extrema-direita; ou permitindo a Eluana, em estado vegetativo persistente (EVP) há 17 anos, acabar de morrer.
Uma pessoa em EVP é descrita pelo médico internista LuÃs Campos no Público da seguinte forma: respira, abre e fecha os olhos, dorme e por vezes mexe-se; pode ter expressões faciais, chorar ou rir (a despropósito), mas «o doente vegetativo não tem consciência do eu e não tem vida de relação».
Eluana encontrava-se sem consciência de si própria e dos outros deste os 21 anos. Tinha 38 quando morreu. Morreu por vontade do pai, vencedor de uma batalha judicial que durou dez anos e se prolongou até ao derradeiro dia, quando Berlusconi tentou passar um decreto-lei anulando a sentença do Supremo Tribunal de Justiça. Foi impedido pelo presidente da República, Giorgio Napolitano, que se recusou a assiná-lo porque passava por cima do princÃpio da separação de poderes num Estado de Direito. Eluana morreu porque a sonda gástrica usada para a alimentar lhe foi retirada.
Esta foi apenas uma morte burocrática: Eluana já não vivia há demasiado tempo, embora os opositores da decisão do Supremo Tribunal valorizem mais o significado de uma morte formal do que a visão de um corpo querido incapaz de viver; pareçam mais sensÃveis aos dogmas decrépitos de uma religião, seja ela qual for, do que ao inconcebÃvel sofrimento dos pais da rapariga – os que sempre a amaram incondicionalmente e os que sempre quiseram que ela vivesse. É assim tão difÃcil de entender?































9 comentários
Aqui está uma matéria que na sociedade portuguesa falta discutir a sério, ou seja: um debate profundo sobre a eutanásia e a morte medicamente assistida, que fosse objecto posterior de legislação. Não sei até que ponto a igreja católica no nosso paÃs, não é responsável por esta inércia, na medida em que tem influencia nos sectores e factores de decisão. Mas não. Perdemos tempo com “Frees” e outros assuntos secundários.
Abraço Marco.
Finalmente, no meio de todo o lixo que tenho lido, alguém diz alguma coisa de jeito! Obrigada!
Apenas poderia te-la salvo se evitado o acidente que a colocou neste estado…
É impressão minha ou o Papa João Paulo II, ao recusar mais tratamentos, também praticou uma espécie de Eutanásia?
taranis, sim, é uma espécie de eutanásia.
Mas esses casos não são problema, aparentemente. As pessoas estão capazes de tomar decisões e capazes de agir (ou deixar de agir), voluntariamente… e deixarem-se ir.
O caso da Eluana é diferente e mais controverso, pois não tinha capacidade de decisão própria. Nesse caso, optou-se pela omissão de assistência e não pela eutanásia na vertente de suicÃdio assistido, que é a desejada, por exemplo, no filme Mar Adentro. Neste último exemplo existe uma vontade explÃcita, clara, consciente, racional, inequÃvoca. O individuo não é (mas até pode ser) um doente terminal, mas na condição em que está, não deseja viver.
…nesta eterna guerra sobre os valores culturais, éticos e morais, sinto-me sempre entalado: De um lado a Igreja, as religiões, os papas, os bispos, os padres, os conservadores, a direita, a extrema direita; Do outro: os laicos, os agnósticos, os ateus, os progressistas, a esquerda, a extrema esquerda.
Ambos apresentam-se como os iluminados, os detentores das supremas verdades, os proprietários da razão, ambos cheios de certezas quanto ao percurso e destino do Homem.
…Contudo, eu só tenho dúvidas e enjoam-me os radicalismos tanto à esquerda como à direita, porque, e já tenho dito isto, as coisas não são assim tão de extremos e o equilÃbrio esse é mais difÃcil de sustentar. Mesmo um trapezista, no percurso estreito do arame, tem oscilações e delas precisa para se equlibrar.
Amigos, a verdadeira questão, não é sobre quem tem razão, mas sim se Eluana queria morrer. O facto de os médicos dizerem que ela já não tinha consciencia de si, não significa que ela a não tivesse. A ciencia é ela própria muito relativa. Vamos admitir que a eutanasia era aceite, o que fazer com os milhares de depressivos, que querem morrer? Poder-se-ia argumentar que os depressivos, são doentes e que não teriam capacidade de tomar essa decisão, mas não estaria na sua liberdade querer morrer? e aqueles que simplesmente se querem suicidar? Quem somos nós para decidir quem vive e quem morre? Só o dinheiro que se iria gastar numa eutanasia, daria para alimentar uma familia em Africa durante 1 ano (ou mais). Seria ético gastar recursos ajudando uns a morrer, quando existem outros que querem viver e não têm meios para o conseguir? Pois também não sei.
Abraços.
@Tapy a ciência não é nem pode ser relativa. É lógica, objectiva, testável e previsÃvel. Os depressivos são doentes psicológicos, logo não estão no que é considerado absolutamente conscientes e não é aplicável a eutanásia, para não falar de que a depressão é uma doença reversÃvel…
E esse argumento do dinheiro gasto numa eutanásia é uma palhaçada. Não é um argumento sério e se fosse, quanto gastas a manter uma vida todos os dias? Se calhar alimenta muito mais familias.
Lindo Marco! MagnÃfico o teu modo de colocar a questão. Lá na minha casa manifestei a mesma posição, mas sem a tua elegância. Há assuntos em que a raiva me domina e me tolhe, não o discernimento, mas a capacidade de equação em termos mais serenos.
Grande abraço.