→ 19/07/2008 @18:19

A Grande Conversação

Já não é a primeira vez que cito excertos do livro Geração Blogue, de Giuseppe Granieri, publicado em Portugal pela Editorial Presença. Faço-o por achar que explica o fenómeno dos blogues de uma forma simples, objectiva e conhecedora, ajudando a perceber melhor a importância da blogosfera enquanto meio de comunicação. Neste texto, Granieri mostra-nos como os blogues revolucionaram a forma como interagimos na Rede. Ao contrário dos BBS, fóruns, mailing lists ou newsgroups, os blogues ligaram intelectualmente milhões de pessoas, transformando conversações restritas a um único grupo numa gigantesca conversação onde todos podem participar.

Segue-se o texto de Granieri.

Giuseppe GranieriGraças [aos blogues], e aqui está a grande novidade, a Rede modificou-se: a [sua] difusão «finalmente ligou» milhões de pessoas, convertendo-a de rede de conteúdos em infraestrutura de discussão. Nesta perspectiva, os blogues são o anel que faltava entre uma aspiração planeada há anos e a sua realização prática.

Se a Internet foi sempre o território privilegiado da discussão (através dos BBS, Bulletin Board Systems, os fóruns, as mailing lists e os newsgroups), os blogues mudaram substancialmente métodos e equilíbrios, gerando um modelo que funciona.

Com os blogues, às enormes potencialidades da relação já implícita na Rede vieram juntar-se as facilidades de acesso, a capacidade de memória e as possibilidades de pesquisa típicas da Web (que os outros sistemas de qualquer modo apenas emulavam). Mas, diferentemente dos outros instrumentos, os blogues reagrupam os conteúdos por pessoa, fornecendo aos indivíduos um instrumento de identificação fortíssimo. Isto facilita a relação quer entre sujeitos que já se conhecem, quer com sujeitos que iniciam um novo contacto a partir do zero.

Como muitas vezes refere Paolo Valdemarin, é muito mais fácil conhecer a fundo um bloguista que se lê todos os dias do que um colega de trabalho. As relações que se instauram são sólidas, visto que a profundidade da relação que se alcança através daquilo que se escreve e lê é nitidamente superior à que se pode obter em muitos casos (não todos, é claro) de relações pessoais fora da Rede. De facto, são diferentes os tempos e os modos de relacionamento. Ao manter um blogue empenhamo-nos por completo e exprimimo-nos com a ponderação certa, que a escrita permite e que a expressão oral por vezes nega. No blogue aprofundamos, limamos, desenvolvemos o nosso pensamento de um modo que, sem este traçado cronológico, não seria possível. Através desta «história intelectual confiada à Rede» as pessoas conhecem as nossas ideias, as nossas opiniões e as nossas preferências. E interagem connosco.

Sobretudo, através dos blogues escolhemos e somos escolhidos, mas confrontamo-nos também com temas ocasionais, com base em critérios de afinidade e de interesses comuns. Evidentemente, tornando público o nosso percurso intelectual somos sempre julgados, na prática, de cada vez que alguém nos lê. A maior parte das vezes este juízo é inclusivamente público (através da possibilidade de comentar os posts), e isto contribui para reforçar a noção de que pertencemos a uma comunidade intelectual em que o relacionamento dita as regras.

Este factor, ainda que numa análise superficial, é determinante. Tendo à disposição a história intelectual do indivíduo, que é o próprio blogue, estabelece-se online um point of presence estável da pessoa. Para dizer como Peter Kaminski, «um blogue é uma aplicação da rede social que representa o elemento particular do sistema: o indivíduo». Os blogues, no seu conjunto, são a parte habitada da Rede.

Além disso, os blogues instauraram um modelo de comunicação dialógica que já atinge transversalmente todos os outros instrumentos (desde as mailing lists dos fóruns, passando pelos sítios tradicionais). Para que haja um diálogo é necessário que os interlocutores se individualizem. Nos fóruns, nos BBS, nas listas de discussão, isto verificava-se a nível local (ou seja, dentro do fórum, dentro da mailing list); agora verifica-se a nível global, gerando aquela a que os anglófonos chamam «The Big Conversation» (e que hoje é a metáfora mais bonita para falar de Rede).

Tradução: Maria das Mercês Peixoto

4 comentários

  • 1
    com GNU IceCat 3.0 GNU IceCat 3.0 em GNU/Linux GNU/Linux
    19 de Julho de 2008 - 18:22 | Link permamente

    Ao contrário dos BBS, fóruns, mailing lists ou newsgroups, os blogues ligaram intelectualmente milhões de pessoas, transformando conversações restritas a um único grupo numa gigantesca conversação onde todos podem participar.

    E onde podem vender armas e pessoas, traficar droga e até, vê lá bem, dizer mal do Moita Flores. Os blogs são O Pecado!

  • 2
    Miguel Guerreiro
    com Epiphany 2.22 Epiphany 2.22 em GNU/Linux GNU/Linux
    19 de Julho de 2008 - 18:53 | Link permamente

    Deixai que chegará o dia em que Moita Flores passará para o lado negro da força. :twisted:

    PS.: pode (ou não!) estar a usar …. em… – Excelente.

    Já agora o facto de não distinguir distribuições tem a ver com aquilo do “Ubuntu não é Linux”?

  • 3
    com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    19 de Julho de 2008 - 19:08 | Link permamente

    Já agora o facto de não distinguir distribuições tem a ver com aquilo do “Ubuntu não é Linux”?

    :mrgreen: Se calhar!

  • 4
    Miguel Guerreiro
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em GNU/Linux GNU/Linux
    19 de Julho de 2008 - 21:31 | Link permamente

    Mesmo sem acertar devo andar la perto :twisted:

    Já agora acho que o plugin podia aparecer de uma forma mais simples, algo como, a usar Firefox (sem versão) em Windows (sem dizer se é Vista ou XP). Só estou a mandar um pequeno bitaite :wink:

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