→ 26/09/2008 @0:01

Neil Postman e a Tecnopolia

Este post não é sobre a recente polémica do portátil Magalhães, embora tenha sido inspirado pelas estapafúrdicas reacções que a ausência de um software de controlo parental activado provocou nos pais.

Estas reacções demonstram que, em certa medida, o que o professor norte-americano Neil Postman escreveu há 16 anos no livro «Tecnopolia – Quando a Cultura se rende à tecnologia» é hoje em dia mais pertinente do que era em 1992, quando a obra foi publicada.

«O principal, porventura único, objectivo do trabalho e pensamento humanos é a eficiência. Vivemos numa sociedade educada para aceitar que o cálculo técnico tem sempre mais valor do que o julgamento humano», escreveu ele.

Quanto mais penso nisso, mais sei que o homem tem razão em muitas das observações que faz.

Dependemos do computador para controlar tantos aspectos do nosso dia-a-dia que às tantas já pensamos que uma máquina é suficiente para os controlar a todos. Basta que tenha um grau de eficiência que especialistas em tecnologia nos garantam ser «alto» para que acreditemos.

Se essa tecnologia de controlo se encontra ausente, inactiva, como no caso pontual do Magalhães, alguns pais sentem um vazio de poder porque estão condicionados a depender de máquinas, em vez de se servir delas, sentindo-se seguros por confiar em sistemas de gestão que não têm em conta a nossa humanidade.

Portanto parece que demasiadas pessoas confiam a um simples programa de software responsabilidades humanas e que essa desresponsabilização acaba por servir os interesses de quem coloca a tecnologia acima de tudo, de quem acredita que inteligência artificial é o mesmo que inteligência humana.

Como escreveu Postman, valorizamos a importância da eficiência em detrimento da nossa capacidade de fazer julgamentos, de pensar pela própria cabeça e de criarmos as nossas próprias soluções.

Postman, um tipo extraordinário, denuncia a nossa submissão intelectual à tecnologia, aos números, à quantificação em excesso, às doses massivas de informação, tantas vezes carregada de lixo. Essa submissão conduz à desumanização da sociedade, à perda de identidade das pessoas, fazendo com que a principal qualidade que nos distingue dos animais – a capacidade de sermos e gerarmos Cultura – se renda por completo à tecnologia.

Eu não quero dizer com isto que Neil Postman tem 100 por cento razão. É fácil interpretar o livro como uma espécie de manifesto contra o progresso, mas sinceramente não é assim que eu o entendo. Vejo-o mais como uma forma de nos ajudar a compreender o caminho que estamos a seguir, fazendo-nos pensar sobre os passos que damos e por que razão estamos a dar estes e não outros.

Uma sociedade de gadgets, estatísticas e sondagens, testes e questionários, de horários rígidos e trabalhadores reduzidos a peças de maquinaria, de critérios pseudo-científicos de avaliação da inteligência, o Q.I., como se a inteligência humana fosse um objecto passível de ser medido… É uma sociedade assim que nos ajuda a potenciar a nossa individualidade, que nos ajuda a ser mais ousados e criativos?

Acho que todos os geeks deveriam ler este livro, pois os avisos de Postman ajudam-nos a ser mais livres.

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