Recuem nos tempos: estamos em finais do século XVII. As fragatas de Portugal, França e Inglaterra dominam muitos mares.
Um grupo de marinheiros comandados por um fidalgo francês e um monge italiano amotina-se contra a tirania e apodera-se de uma fragata com o objectivo de fundar uma nova sociedade, justa e livre. Navegam para além do Cabo das Tormentas e, depois de muitas aventuras, encontram um local perfeito, a norte da ilha de Madagáscar, uma baÃa bela e isolada que actualmente se designa por baÃa de Diego Suarez.
A sociedade fundada não admite descriminações raciais, sexuais ou religiosas. Não existem nacionalidades, apenas cidadãos unidos pela bandeira da Liberdade. As grandes decisões são tomadas por concelhos eleitos democraticamente.
São piratas. Fazem frequentes incursões para capturar os navios ricos das potências ultramarinas e abastecer a nova sociedade de armas, comida, materiais de construção e munições, mas não fazem mal a quem não lhes opõe resistência.
A cada abordagem, tentam converter os prisioneiros à sua causa; estes, impressionados com o tratamento recebido, seguem os libertários às dezenas. Se encontram navios de mercadorias carregados de escravos, libertam-nos e convidam-nos a fazer parte de Libertália.
Com o passar dos meses, a baÃa de Diogo Suarez torna-se o abrigo de uma cidade utópica e igualitária povoada de beldades morenas, pretos e brancos, cristãos e muçulmanos, bebés mestiços, piratas e aventureiros.

Nada resta na baÃa de Diego Suarez da efémera e quimérica República da Libertália. Nada resta do sonho de um fidalgo francês e um padre italiano: erguer uma cidade baseada nos fundamentos da Revolução Francesa 100 anos antes desta acontecer
Observem agora a bizarra parelha de libertários protagonista desta história: Olivier Misson, jovem e galante fidalgo francês, marinheiro, amante das mulheres da má e da boa vida, amigo das tabernas napolitanas, sobrinho de um pau de vassoura do Rei LuÃs XIV destituÃdo de qualquer ousadia ou imaginação, o capitão Fourbin.
Depois temos Angelo Carraccioli, o melhor amigo do jovem aprendiz de oficial e mentor de futuras aventuras libertárias, monge seco de carnes e frontal como balas de canhão, o padre romano que todos os dias rumina em segredo planos de revolta contra a gélida tirania de papas e reis e governadores. Frei Carraccioli já não suporta o silêncio de Deus perante o sofrimento dos leprosos que lhe morrem à s centenas na fachada da Igreja e parte com Olivier na fragata Victoire, comandada pelo rÃgido tio do jovem fidalgo, o mencionado Fourbin.
Fourbin e todos os seus oficiais são mortos na sequência de uma batalha com um navio inglês. De forma espontânea, no calor da batalha, o aprendiz Olivier assume o comando da fragata e bate os ingleses.
O navio fica então nas mãos da tripulação, que já estava ao corrente dos planos de Utopia do monge italiano. Os marinheiros – rudes, mas abertos ao sonho de uma sociedade mais justa, sem tiranos ou nacionalidades – não desejam mais servir o Rei de França ou qualquer outro soberano.
Impressionados com as qualidades de liderança do jovem Olivier reveladas na batalha naval com os ingleses, convidam-no a capitanear a fragata e a conduzi-los na rebelião. Ao princÃpio relutante, ele acaba por aceitar.
Olivier, fidalgo atrevido e impetuoso mas de bom coração, e o padre Angelo, promovido a mestre pensador da comunidade de marinheiros, navegam rumo ao fim do mundo, em busca de uma ilha onde possam fundar a quimérica e efémera República da Libertália.
É este o essencial da narração do livro escrito pelo jornalista Daniel Vaxelaire. Do entendimento entre os dois protagonistas da história, resultará o plano de criar – 100 anos antes da Revolução Francesa – uma sociedade baseada na Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mais interessante ainda: o livro Os Revoltosos de Libertália não é uma obra de ficção, mas a reconstituição da história de centenas de homens que se tornaram piratas com o objectivo de fundar uma utopia.
Ainda hoje se especula: não será a história da utópica Libertália apenas um mito? Olivier, antes de morrer, terá deixado um relato completo da sua vida. Daniel Defoe (autor do clássico Robinson Crosué) escreveu o primeiro texto de referência sobre os piratas, A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates, publicado em 1724, vinte e quatro anos após a fundação de Libertália.
Defoe, que usou um pseudónimo (Capitão Charles Johnson), ter-se-á baseado nas memórias de Olivier para incluir, em algumas páginas, a história de Libertália. Entre as aventuras mais espectaculares de piratas como um Barba Negra ou uma Anne Bonny, aquela terá passado despercebida aquando da publicação. De resto, a causa de Olivier e Angelo não podia ser muito popular numa época em que o comércio livre de escravos era vital para as economias europeias.
Mas é nos acontecimentos narrados em meia-dúzia de páginas deste livro de Dafoe que, por sua vez, Vaxelaire se baseia para imaginar tudo o resto.
Daniel Vaxelaire não é um escritor de frases empolgantes, mas é um narrador com garra e imaginação suficientes para nos fazer acreditar naqueles personagens e desejar acompanhá-los na aventura.
Sabemos perfeitamente que aquilo não durará muito tempo – e esse pessimismo está subjacente em cada página do livro, fazendo com que idealistas ingénuos como eu sintam uma ponta de tristeza mesmo nos momentos em que se narram os primeiros e comovedores sucessos.
A luz de Libertália não consegue afastar a sombra das fragatas pertencentes a potências ultramarinas que nunca permitirão a existência de uma nação de piratas que lhes prejudica o comércio e o modo de vida. E a maior ameaça descrita no livro é uma expedição punitiva de cinco fragatas portuguesas enviadas pelo Vice-Governador de Goa.
A expedição vem na sequência da captura de um navio de mercadorias português. Ao contrário do que é era habitual acontecer, «os portugueses tinham um ar obstinado, muito diferentes dos que tinham anteriormente recrutado. A influência do seu capitão, alguma recompensa que os esperava no porto, o facto, talvez, de alguns terem uma pequena indiana em Goa, fazia com que se mostrassem imediatamente muito refractários aos discursos do seu vencedor. Aliás, fizeram questão de se comportarem como prisioneiros e não como possÃveis recrutas. Por pouco não se teriam eles mesmo fechado no fundo do porão.»
Os portugueses são levados como prisioneiros para Libertália. Embora da sociedade fizessem parte muitos outros anteriormente capturados, os lusitanos deste grupo não se deixam converter: apenas uma Ãnfima parte adere à causa.
Finalmente, sem saber o que fazer com eles, considerando-os uma ameaça, Olivier, Angelo e os outros membros do concelho decidem libertá-los. Os portugueses são levados a jurar que não revelarão a localização de Libertália. Impressionada com os bons tratamentos prestados durante o cativeiro, grande parte cumprirá a sua palavra; meia-dúzia de ovelhas ranhosas, porém, resolve dar com a lÃngua nos dentes e uma expedição punitiva é enviada.
A expedição é afundada pelos piratas à entrada da baÃa de Diego Suarez e os portugueses sofrem uma derrota humilhante. São mandados regressar na única fragata ainda em condições de se fazer ao mar com uma mensagem escrita pelo punho do próprio padre: «Se o vosso soberano aceitar reconhecer o nosso direito à existência (…), não voltaremos a atacar navios portugueses e vocês podem encontrar asilo no nosso porto (…) QuerÃamos também que Portugal renunciasse a toda a forma de opressão e sobretudo à que consiste em fazer comércio de homens, como se fosse gado».
O vice-rei de Goa nunca chegou a reenviar a mensagem de Angelo para Lisboa: «Tinha deitado fora, depois de ler as três primeiras linhas, recheadas de erros, a insolente missiva do chefe dos piratas. Esse em breve engoliria as suas pretensões.»
Os portugueses enviaram uma segunda exposição punitiva, mas esta acabaria por ser desnecessária: a estocada final veio de onde menos se esperava. Um ataque-surpresa de milhares de nativos malgaxes, que reclamavam aquelas terras como suas, destruiu o sonho de Libertália. Muitos morreram nessa ataque, incluindo o mentor espiritual da comunidade, Angelo. Quanto a Olivier, conseguiu fugir num dos navios. É possÃvel que se tenha reunido à tripulação de um pirata sem grandes preocupações libertárias, Thomas Tew.
Hoje em dia nada resta de Libertália na baÃa de Diego Suarez a não ser a paisagem, deslumbrante e acolhedora. E, depois de acabar o livro, persistiu ainda durante algum tempo a bizarra sensação de considerar Portugal uma potência opressora.































Um comentário
Os Portugueses eram gente rude do campo… mas no mar. Já na série televisiva “Os Tudors”, os Portugueses são personificados como uns jabardolas de primeira…