A forma como os alemães bateram a França no inÃcio da II Guerra Mundial diz mais sobre a incompetência inicial das chefias militares francesas e inglesas do que sobre um superior génio militar nazi. Os velhos generais aliados estavam muito agarrados à noção obsoleta de que esta seria mais uma guerra de trincheiras (como a primeira) e não conseguiram responder à fantástica mobilidade alemã – chamaram-lhe Blitzkrieg – representada sobretudo pelo avanço dos Panzer.
Mas o objectivo deste post é contar a história de um anónimo soldado que calhou estar de serviço na ponte de Maastricht num determinado dia de um distante Maio de 1940. O seu destino e a forma como morreu mostram a verdadeira natureza de qualquer acto de guerra.
Na madrugada de 10 de Maio, a Força Aérea Alemã – a Luftwaffe – carrega em força sobre aeródromos, linhas de caminhos-de-ferro, estradas, depósitos e outros alvos importantes em França, na Bélgica, Holanda e no Luxemburgo. É o inÃcio de um ataque devastador que fará cair todos estes paÃses em pouco tempo e convencer os alemães da sua invencibilidade. Este entusiasmo irá arrefecer (e congelar) na frente russa, mas isso é outra história. Por enquanto – voltamos a Maio de 1940 – os aliados estão a ser pisados pelas botas nazis.
A força aerotransportada do exército alemão – 16 mil homens – foi lançada sobre alvos escolhidos na Holanda e na Bélgica. Objectivo: capturar pontes e nós de comunicação antes de poderem ser destruÃdos. Esta operação alemã ficará para a história como uma das mais bem sucedidas operações militares da II Guerra Mundial. Um dos episódios dessa operação – a captura de uma ponte perto de Maastricht – ficou bem conhecido porque foi relatado anonimamente por um oficial britânico.
Segue-se o texto:
A tomada da ponte de Maastricht é um conto de fadas – espantosa pela sua ousadia. Um homem à civil foi até junto da sentinela da ponte, na margem leste, e pediu-lhe, como amigo, para o deixar atravessar a ponte, para umas últimas palavras com um amigo na margem oeste. Foi autorizado a passar; atravessou a ponte e, depois de uma conversa de alguns minutos, encaminhou-se de volta em direcção à sentinela, trazendo consigo o amigo. Este segundo homem, em estilo de bandoleiro, matou a tiro a sentinela e correu de novo para a margem afastada, onde desligou os fios das minas preparadas para a destruição da ponte. Enquanto isto se passava, o primeiro homem apossou-se da espingarda da sentinela e evitou facilmente qualquer interferência. A oportunidade foi uma obra de génio: dentro de alguns minutos, pára-quedistas e planadores desciam em nuvem em cima das fortificações holandesas e das fortificações belgas a oeste da ponte, que é mesmo em território holandês. Os alemães corriam por toda a volta metendo granadas de mão nas aberturas, atirando bombas para as posições da artilharia e casamatas e, de uma forma geral, fazendo do lugar um inferno antes de alguém ter sequer percebido que estava prestes a desenrolar-se um ataque. (…) No espaço de uma hora, a testa de ponte de Maastricht fora estabelecida. Nunca se supusera que tal façanha custasse menos do que cinquenta mil homens – no entanto, os alemães só perderam trezentos. Fonte: A Batalha de França, de Philip Warner
A história do nosso anónimo e provavelmente jovem sentinela ocupa um lugar figurativo neste impressionante relato militar – nunca saberemos quem foi essa pessoa, qual era o seu aspecto, os seus gostos, as suas preferências, quem amava e quem o amava a ele.
O hacker Kevin Mitnick chamaria a atenção para a ingenuidade do soldado holandês e classificaria este episódio como um caso clássico de engenharia social. É possÃvel. A mim impressiona imaginar que o sentinela morreu por ser um homem bondoso.































Um comentário
E contudo esse epÃsódio por si só poderá servir-nos para definir toda a essência da guerra. O sentinela morreu porque foi ingénuo. Porém a sua ingenuidade decorreu da sua bondade. Ora a guerra, as suas batalhas e os seus objectivos, não se compadecem com gestos humanistas. Porém, não foi o caso único, pois a par da atrocidade destruidora e impiedosa da guerra, a bondade, o altruÃsmo, o sacrifÃcio, a heroicidade, estiveram sempre presentes, quer na frente das batalhas, quer nos quarteis, nas cidades e no campo. A guerra tem, por isso, o mérito de mostrar no seu explendor os diversos sentimentos e estados de alma do Homem, no que tem de mais nobre mas também de mais hediondo e desprezÃvel.