→ 30/08/2006 @3:15

Uma questão de perspectiva II

O que me faz mais confusão nem sequer é a imensidão do Universo e a escala monstruosa das estrelas. O que me lixa é tentar perceber porque razão, sendo tão pequeninos e insignificantes, somos os únicos capazes de compreender toda esta vastidão. Deve existir um propósito oculto nisto tudo.

Talvez exista uma razão mais óbvia para a nossa insignificância: o máximo que podemos rebentar é o nosso próprio planeta. Somos capazes de lhe destruir o equilíbrio ecológico, mas não podemos destruir o Sol.

É incrível como uma bola infernal feita principalmente de hidrogénio e hélio pode ter mais juízo e ser mais constante que nós. Em cinco biliões de anos de vida nunca nos faltou um único dia: esteve sempre ali, a brilhar no Céu e a aquecer o planeta. Tivesse o Sol um milionésimo da nossa natureza agressiva e instável, e nunca teria existido vida na Terra.

Isto tudo porque acabei de ler um livro de Stanislav Lem – um grande escritor de ficção científica e um dos meus preferidos. A obra – Fiasco – conta a história do primeiro contacto entre os terrestres e uma distante civilização alienígena.

Ao contrário do que é habitual neste tipo de histórias, porém, somos nós a civilização mais avançada. Somos nós que enviamos os nossos OVNIS para estabelecer contacto. Os alienígenas, já dominando a energia nuclear, envolvidos em situações permanentes de guerra e conflito, recusam o contacto. Julgando-se ameaçados, convencidos de que serão invadidos, atacam a nave terrestre de surpresa.

O sistema de defesa terrestre é tão avançado que o devastador ataque nuclear lançado pelos Quintanos – assim baptizados por viveram no quinto planeta do seu Sistema Solar – é sentido apenas como um pequeno beliscão na poderosa estrutura da nave.

Mas o ataque ofende de tal forma o orgulho humano que o comandante da nave decide chantagear os alienígenas: aceitam contactar ou então sofrerão uma retaliação. Como os Quintanos vivem num permanente estado de guerra há mais de cem anos no seu próprio plenata, não têm já capacidade para confiar em mais ninguém.

O comandante decide então destruir a Lua do planeta, não de forma a provocar uma catástrofe – mas apenas com a potência e o engenho suficientes para partir o satélite em vários bocados que se manteriam ligados uns aos outros pela força da gravidade, mantendo, assim, uma certa estabilidade. É precisamente quando esta operação é levada a cabo que os quintanos resolvem atacar, desviando alguns dos mísseis terrestres da sua rota e subvertendo todos os cálculos iniciais.

O resultado é uma catástrofe em larga escala, com pedaços da Lua do tamanho de montanhas caindo sobre o planeta e os mares a revolverem-se em monstruosos tsunamis, provocando milhões de mortos nas zonas costeiras e alterações climáticas que poderão mesmo extinguir a vida.

É a pergunta de Stanislav Lem: de que nos serve a inteligência se formos sempre macacos com fatos de astronauta?

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