E a pergunta que todos fazem neste momento é a seguinte: que é feito do «herói» Muntadar al-Zaidi, o jornalista que lançou os seus sapatos a George Bush? Ninguém conseguiu entrar em contacto com o homem desde o incidente (se chegou aqui directamente, consulte o post Bush e o poder moral de um sapato).
Raed Jarrar, arquitecto iraquiano a residir em Washington, afirma no seu blogue que os seus contactos em Bagdade lhe asseguram que Muntadar al-Zaidi foi «preso e espancado». Não é o único a garanti-lo. O canal de televisão onde trabalha o jornalista não conseguiu contactá-lo e lançou um comunicado exigindo a libertação de Muntadar «em nome da Democracia e Liberdade que os Estados Unidos afirmam ter trazido para o Iraque.»
Para o jornalista desaparecido, os Estados Unidos trouxeram mais do que duas palavras bonitas. Quando atirou os sapatos Muntadar gritou para Bush, em árabe, «Este é um beijo de despedida, seu cão. Isto é em nome das viúvas, dos órfãos e de todos os que foram mortos no Iraque».
De que mortes está o jornalista a falar? Um estudo referido pelo Washington Post talvez possa ajudar-vos a ter uma ideia: desde o inÃcio da guerra, em 2003, estima-se que tenham morrido mais de 655 mil civis iraquianos. Os americanos tiveram um 11 de Setembro a 11 de Setembro de 2001, os iraquianos estão a ter um 11 de Setembro praticamente todos os dias.
Também não é a primeira vez que o nome de Muntadar al-Zaidi é falado. A organização Repórteres Sem Fronteiras referiu-o em Novembro do ano passado, quando foi raptado por um grupo desconhecido, mantido refém durante dois dias até finalmente ser libertado.
Raed Jarrar criou uma petição online exigindo a libertação do jornalista. Pretende reunir o maior número de assinaturas possÃvel e entregar uma versão impressa da petição na embaixada iraquiana em Washington. As movimentações para defender Muntadar estão em marcha: Khalil al-Dulaimi, que foi advogado de defesa de Saddam Hussein no famoso julgamento que determinou a execução do ditador, afirma ter formado uma equipa de 200 advogados, incluindo americanos. O jornalista arrisca dois anos de prisão por ofensas a um chefe de Estado estrangeiro – vinte anos, se o tribunal considerar que se tratou de uma tentativa de homicÃdio.
Atirar sapatos aos americanos tornou-se agora a forma preferida com que os iraquianos saúdam os «libertadores»: centenas de sapatos voaram em direcção às patrulhas militares que vigiavam as manifestações de apoio ao jornalista.































4 comentários
A revolta do jornlista, e a revolta de grande parte dos iraquianos é perfeitamente compreensÃvel.
Muitos argumentos foram (e são) usados a favor e contra a guerra, mas a da comparação dos mortos americanos e iraquianos é o pior possÃvel, na minha opinião.
Se tivesse havido menos mortos iraquianos, em resultado da invasão e da guerra civil, do que os que houve no 11 de Setembro a invasão já se justificaria?
A legitimidade da guerra, ou a falta dela, não passa por aÃ. Talvez não fosse essa a ideia do post, mas pela maneira como está escrito, tal leitura (perigosa, quanto a mim) parece a mais óbvia.
O número de mortos, terrivelmente elevado, é uma coisa. O juÃzo que se pode fazer sobre a decisão de invadir, outra. Estas coisas estão relacionadas, e pode-se ‘ser ainda mais contra a guerra’ (deve-se) por causa desse número, mas convém distinguir os planos.
E num artigo relacionado, o “Estado Americano” é mais uma vez julgado na praça pública.
Estes “defensores” americanos, apelidados de Blackwater Guardians, foram sub-contratados a uma empresa chamada Blackwater que fez fortuna durante a guerra do Iraque. O seu trabalho era defender altas figuras (e patentes) de estado, garantindo alguma tranquilidade a essas ditas figuras, sempre que visitavam o palco de guerra.
Estes “defensores” além de “defenderem” também “atacavam” os inimigos do estado americano, vulgo, iraquianos. A polémica começou quando se fizeram contas ao que se gastou durante a guerra. Pelos vistos (e nisto os americanos são peritos) as mortes de Blackwater Guardians (em terreno iraquiano) não foram contabilizadas como baixas de guerra, como foram os soldados mortos em combate. Além do mais, foram gastos biliões (mais um jargão americano) de dólares a sub-contratar estes tipos e, mais uma vez, este dinheiro não entrou nas contas dos gastos da guerra.
Já com a polémica instalada, ela estalou, devido a vÃdeos que foram saindo na imprensa sobre os “campos de treino” destes “defensores” que eram em muito parecidos com os campos de treino da Al-Qaeda.
A administração Bush ficará para sempre ligada a um dos piores episódios da nossa história e será um fardo muito pesado a carregar pelo (novo) eleito presidente dos estados unidos da América.
Revendo todos os factos e argumentos, se calhar, se eu estivesse na posição do dito jornalista também teria atirado com os meus sapatos ao caro senhor Bush. Diga-se que atirar os próprios sapatos é um dos actos mais injuriosos que se podem cometer na instituição muçulmana.
Liberdade e Democracia?
Só se for na casa do Bush…
«O número de mortos, terrivelmente elevado, é uma coisa. O juÃzo que se pode fazer sobre a decisão de invadir, outra. Estas coisas estão relacionadas, e pode-se ’ser ainda mais contra a guerra’ (deve-se) por causa desse número, mas convém distinguir os planos.»
Não há distinção a fazer. O (mais) elevado número de mortos (em comparação com o do “simples” atentado) era uma consequência mais que previsÃvel. Bastaria uma semana lá, para esse número de mortos, o do atentado, ser superado muitÃssimo.
Não há distinção a fazer e é exactamente o mesmo plano pois este é um dado natural e um resultado perfeitamente previsÃvel de uma guerra. Afirmar o contrário (e é o que afirmam ou afirmaram durante muito tempo os seus apoiantes) é um atestado de ingenuidade, tamanho é o wishful-thinking.
Posso também mandar os meus sapatos contra o Engenheiro Sócatres?