
Um milhão, dois milhões nas ruas neste momento? Ninguém sabe ao certo, mas são muitos os que protestam em Teerão contra a «fraude nas eleições» e a «ditadura de Ahmadinejad» (Foto via Twitter)
A informação que nos tem chegado do Irão é tendenciosa. Há razões para que os media ocidentais simpatizem com a causa dos apoiantes de Mir Hossein Mousavi. Afinal de contas, ele é um moderado. Mas mesmo o facto de ser um moderado não nos diz tudo, pelo menos o suficiente para percebermos quem é ele realmente.
É visto como um moderado porque, pela informação que nos chega, achamos que seria um presidente mais razoável e menos extremista, mais receptivo ao Ocidente, mais parecido connosco.
Eu não gosto de Ahmadinejad, o tipo que venceu as eleições. Não gosto do estilo populista e ingénuo, da linguagem bélica associada ao uso do nuclear, não gosto dele porque nega o Holocausto e defende que Israel deve ser riscado do mapa. Os jornalistas ocidentais também não gostam – daà eu achar que é preciso cuidado com a informação que nos chega. Pode ser aquela que desejamos ouvir, mas não significa que é a mais correcta.
Não sei dizer se existe ou não manipulação, mas detecto como sinal tendencioso o facto de se estabelecerem prioridades sobre o fluxo de informação: o que nos chega dos manifestantes que se opõem a Ahmadinejad e corroboram a nossa visão deste presidente obtuso tem primazia sobre o que nos chega do outro lado. Que interessa o que dizem os milhares de apoiantes do actual presidente? Comparem o número de declarações que podemos ler dos defensores do moderado Mousavi com o número de declarações de quem apoia o conservador. A resposta é óbvia. Ganham os moderados 10 a 1, pelo menos. Os media procuram uma linguagem neutra, factual, mas o ponto de observação a partir do qual relatam os acontecimentos situa-se no ombro dos manifestantes.
Gostava de perceber realmente quais são as expectativas de todas as pessoas que neste momento se manifestam em Teerão, enfrentando o perigo dos bastões, do gás lacrimogéneo e, segundo dizem alguns, balas reais. Ahmadinejad  diz que se comportam como holligans que não aceitam a derrota do seu clube de futebol  - é uma metáfora grotesca e deselegante, mas o número de pessoas nas ruas e a veemência dos protestos transmitem a ideia de que muitos sonhos e esperanças foram destruÃdos com a vitória do menino do regime e que não é fácil lidar com a frustração desta derrota.
Estou por eles, claro. Detesto fundamentalismos e regimes que castram o direito das pessoas de serem iguais a si próprias. Mas isto sou eu, cidadão europeu, a observar o Irão a milhares de quilómetros de distância. O facto de simpatizarmos com a causa dos jovens e mulheres que se manifestam não significa que para todos os iranianos Ahmadinejad é um ditador e Mousavi um santo. Significa apenas que estamos a sobrepor a nossa visão do mundo e a tirar conclusões baseando-nos apenas nessa perspectiva ocidental.































10 comentários
Isto sim, são manifestações!
Em Portugal não se vê disto há algum tempo. Tenho assistido a pequenos protestos, mas nada especial. Muitos covardes neste paÃs!
Pois estou exatamente como tu. Por um lado sonho com um Irão moderado. Mas por outro lado tenho a desconfiança que não houve burla, o Ahmadinejad como todos os populistas sabe agradar a população com a politica de redistribuição do dinheiro de petróleo diretamente aos mais pobres. Método também utilizado pela Arabia Saudita.
É por ports como este que considero o Bitaites o melhor blogue português. Excelente trabalho Marco.
Pois. É um aborrecimento mas realmente sempre vemos as coisas através dos nossos olhos não podemos escapar a isso. Claro que nos deve meter algum receio alguém que tem um perfil populista. Pode nem sequer necessitar de fazer fraudes eleitorais. O aborrecido é quando estes fulanos pensam ser deuses na Terra.
Naturalmente apoiamos quem julgamos que se apresenta como menos distante de nós. Tal como tu, não faço ideia de qual o grau de enviesamento das notÃcias que nos chegam, a nós ocidentais, do Irão. Não sei, se não voltaremos a ter «notÃcias» como aquelas que recebemos sobre o Iraque, isto é, notÃcias algo desfocadas vendo coisas que não existem.
Até agora só vi notÃcias de perturbação em Teerão, também há este tipo de levantamento no resto do paÃs?
Quanto a uma multidão de 1 milhão de pessoas, num paÃs de mais de 70 milhões de pessoas é na prática equivalente a cerca de 150.000 num paÃs de 10.000.000. Aquilo que poderá ser de notar é parecer continuar a estar motivada para se manter activa.
Desde que vi a primeira vez a carinha do sujeito que não simpatizei com ele…vi-o como uma criança a sorrir e a brincar aos foguetes explosivos. O bom seria mesmo era receber informação local, das estações locais (mas também não sei se não terão um dedinho de Ahmadinejad).
[Bitaites é excelente]
O Irão é hoje uma Teocracia capitalista, completamente abalada pela ilusão populista e Neoliberal que Ahmadinejad ajudou a sustentar. O resultado das eleições e esta contestação mostram, acima de tudo, um paÃs parasitado pelo desemprego, corrupção, desemprego, quebra dos salários etc. Um cenário não muito diferente daquilo que se passa nas sociedades ocidentais, consideradas os expoentes máximos do Neoliberalismo.
O grande problema aqui, é, quanto a mim, que os sectores mais importantes da economia se encontram entregues apenas a alguns Senhores, com muito poder e influência a nÃvel religioso. O economista Motamed-Nejad, na última edição do Le Monde Diplomatique chegou mesmo a apelidar a situação iraniana de «capitalismo de monopólios».
E, quando fundamentalismo religioso e fundamentalismo de mercado se concentram, é natural observar tensões sociais, mais cedo ou mais tarde. O perÃodo pós eleitoral, talvez tenha sido apenas a altura mais propÃcia e com maior visibilidade internacional.
Significa, portanto, que nos mantemos escravos da herança maniqueÃsta, senhores e donos do absoluto, marionetes instrumentalizadas pela comunicação social…
Não me pronuncio sobre gostar dele ou não, mas nós não temos nada a ver com aquilo que eles para lá fazem, se bem que gostava que os americanos tivessem invadido estes sacanas e terem deixado o Saddam em paz.
Se a história de riscar Israel do mapa for só para manter o mexilhão contente, então por mim não há problema, especialmente se largarem a porcaria das armas nuclear, estes iranianos extremistas sedentos de sangue é que me fica assim atravessado. Mas se fizerem alguma coisa levam no corpo de toda a gente, por isso devem ficar quietos…
Nem mais nem menos, bem dito.
Parabéns senhor Marco pelo seu comentário inteligente sobre a situação e por não se deixar ir em populismos nem na onda dos média, tudo menos imparciais.
Quanto ao senhor Miguel Guerreiro, provavelmente não lerá isto mas fica a nota. Se estudar história descobrirá o que os USA já interferiram antes no Irão e não deu bom resultado. Foi a primeira vez que a CIA derrubou um governo estrangeiro por isso podem ter essa desculpa mas a verdade é que tenho mais dificuldade do que facilidade em pensar bons resultados da intervenção directa dos USA noutros paÃses.