→ 17/04/2009 @18:20

A inocência da vítima e a tragédia do carrasco

Anthony Powell, um estudante de 28 anos, tinha perturbações psicológicas e muitas dificuldades em arranjar amigos. Nunca teve uma namorada. As mensagens que deixou no YouTube eram tão agressivas e perturbadoras que, na sequência de numerosas queixas dos utilizadores, a sua conta no site foi suspensa.

Powell, que assinava como tony 48219, o número do código postal de Detroit, odiava ateus, considerava-os demoníacos; não acreditava em teorias da Evolução e desprezava as mulheres negras, considerando-as sexualmente devassas e demoníacas. Muitas vezes sublinhava as suas convicções com gargalhadas histriónicas, assustadoramente maníacas. Era um dos muitos cromos do YouTube.

Num dos seus últimos vídeos mencionou abertamente a intenção de se suicidar, bem como a sua «perturbação» por um «certa rapariga chamada Asia». Esta última mensagem deixou um dos utilizadores do YouTube – Infamoustrag – tão preocupado que enviou a 25 de Março um email para a polícia de Detroit, juntamente com o link para o vídeo, alertando as autoridades para um possível caso de suicídio.

A resposta chegou a 2 de Abril. O polícia de serviço afirmava não ter conseguido ver o vídeo em questão porque era preciso «inscrever-se» no site e pedia mais pormenores a Infamoustrag, fornecendo-lhe um número e convidando-o a contar a história por telefone. Essa conversa nunca chegou a acontecer.

Powell era uma lenda. Quando a sua conta no YouTube foi suspensa pelos gestores do site, outros utilizadores se encarregaram de fazer o upload dos vídeos – só para perpetuar o gozo. Novos links para os vídeos de Powell eram trocados em fóruns de discussão desde pelo menos Janeiro do ano passado: «Ele foi tragicamente banido do YouTube», escreveu um dos frequentadores do Awesome Forums. «Vou ter saudades dos seus devaneios de louco, mas felizmente alguém conseguiu salvar um dos seus vídeos mais famosos».

À medida que o tempo passava, mais vídeos de tony48219 iam sendo recuperados. O próprio voltou ao YouTube sob duas identidades diferentes, mas foi duas vezes descoberto e banido.

«Fuck this guy is scary. I’m really expecting to hear about him on the 6:00 news», escreveu uma utilizadora à medida que ia vendo os vídeos. «Any bets on how long until he goes on a shooting rampage?»

Quase 15 meses depois, a 10 de Abril deste ano, o tony48219 cujo ódio e loucura divertiam tanta gente, assassinou a tiro Asia McGowan, 20 anos, com uma espingarda de caça. Não eram colegas de turma, mas ambos frequentavam o mesmo curso de Teatro. Powell tinha os problemas psicológicos que milhares de pessoas puderam acompanhar no YouTube; Asia sonhava ser famosa como actriz e bailarina, e também usava o YouTube para mostrar ao mundo a sua espiritualidade e talento. O seu último vídeo foi colocado quatro dias antes de morrer e falava sobre os «haters» que não a deixavam em paz. Depois de disparar dois tiros sobre o rosto da rapariga, o «hater» Powell suicidou-se.

Asia McGowan: Youtube Haters | Awesome Forums: FSTDT Community | Murder / Suicide: The Tragedy Of Asia McGowan And Anthony Powell | tony48219′s Greatest Moment

16 comentários

  • 1
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Fedora 10 Fedora 10
    17 de Abril de 2009 - 19:23 | Link permamente

    Seria fácil e conveniente creditar ao demónio a posse do espírito deste cristão, ainda a inspirado por comentários anteriores. Para além (!) de fornecer uma explicação para tal tipo de atrocidade, ilibar-nos-ia da responsabilidade de ter que assumir tal atitude como cabível na humanidade da qual fazemos parte.

    Porém, e infelizmente, a maldade (bem como a bondade) é parte intrínseca do homem. Temos que a manter, por mero instinto de sobrevivência. Devemos a expurgar, por mero exercício de civilidade. Uns conseguem sublimar o instinto, outros não.

    Dia desses precisamos falar a sério sobre a consequência que a falta de água potável acarretará. Dos tantos que morrerão, não de sede ou fome, mas pela mão dos outros poderosos que simplesmente eliminarão o excedente. Como se fez depois da maior crise económica que conhecemos, ou na limpeza étnica da Bósnia ou do Sudão, nos campos de concentração europeus ou africanos, na Bulgária por Justiniano II, etc. etc., tantos são os exemplos.

    Ela, a maldade (bem como a bondade), sempre esteve e sempre estará em nós. E perpetua-se na juventude abastada a cada “inimigo” morto num videogame, que se prepara no mundo dos que tem acesso às consolas, a inevitável seleção artificial que fatalmente terá que ser posta em prática no previsível momento futuro da ecasses de recursos.

    Fatalismo? Talvez… Mas acredito que o culto cibernético deste tipo de ícone, para além de os estimular e reproduzir, expõe de forma indelével a natureza humana.

  • 2
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    18 de Abril de 2009 - 00:28 | Link permamente

    Caro GavezDois… este gajo era maluco.

    Manifestação de uma maldade filosófica que nos habita a todos? Não, nada disso… doença mental! Há que distinguir os maus dos malucos, penso eu.

  • 3
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    18 de Abril de 2009 - 07:27 | Link permamente

    Concordo consigo Pedro, que no caso específico, pareça ser isto, ou no mínimo, pelos pouco de um vídeos que vi, denote muita ignorância. Mas confesso não ter elementos concretos para julga-lo.

    Mas eu estava a falar de muitas outras coisas juntas pois acabara de escrever, e pensar sobre, o outro post do além. Quando me referi a maldade intrínseca, numa postura filosófica naturalista que assumo na maioria das vezes, me referia aqueles que cultuam e perpetuam o ícone do presumível louco.

    Todo o povo alemão que levou Hitler ao poder pelo voto, que lutou ao seu lado e que foi preciso ser desnazificado durante anos depois do final da segunda guerra, era tão afetado pela loucura quanto o seu líder? Não me parece.

  • 4
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    18 de Abril de 2009 - 15:45 | Link permamente

    Ah, mas Hitler não era maluco… era mesmo ignóbil. Aí está a diferença novamente…

  • 5
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    18 de Abril de 2009 - 16:55 | Link permamente

    Não sei como nem consigo medir o grau de loucura dos indivíduos, sejam eles ignorantes, ignóbeis ou de outra espécie de fanáticos qualquer.

    Mas, novamente, não estou a falar de Hitler, mas da camada do povo alemão que o seguiu e cultuou. Lá eu falava dos internautas, aqui do povo, nos suicídios coletivos posso vir a falar de todos os que se suicidam e não somente do Jim Jones, dos benfiquista em sua torcida e não do Eusébio.

    Todos tem o mesmo grau de loucura numa escala de 0 a 10? Não me parece.

  • 6
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    18 de Abril de 2009 - 17:39 | Link permamente

    http://image.guardian.co.uk/sys-images/Arts/Arts_/Pictures/2007/08/08/hitler460.jpg

    A medir pela imagem, como no caso do Anthony Powell, o olhar do homem me parece de um completo alucinado. E note que o fotógrafo ainda conseguiu captar uma figura do além escapando-lhe pela manga.

    Consegues me indicar por esta imagem se o Adolfo era mais ou menos louco que o Anthony?

    http://www.youtube.com/watch?v=q-7QoiOH9r0

    Ou por esta?

  • 7
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    18 de Abril de 2009 - 17:54 | Link permamente

    Não é por fotografias que vamos lá… e eu vejo uma lâmpada por trás do Adolfo e não “uma figura do além”. Isso era brincadeira, não era?

  • 8
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Fedora 10 Fedora 10
    18 de Abril de 2009 - 18:28 | Link permamente

    :-)

  • 9
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    18 de Abril de 2009 - 21:20 | Link permamente

    Ainda sobre o mal intrínseco e as voltas com os mesmos personagens, encontrei este magnífico trabalho intitulado:

    Adolf Hitler

    The avatar of fascism posed the century’s greatest threat to democracy and redefined the meaning of evil forever

    Muito interessante a utilização do termo Avatar em substituição ao ícone que utilizei.

    http://www.time.com/time/time100/leaders/profile/hitler.html

  • 10
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Fedora 10 Fedora 10
    18 de Abril de 2009 - 21:36 | Link permamente

    E sobre questão dos recursos, o que me inquieta é quando eles começam a falar nisso:

    http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=17984

  • 11
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Fedora 10 Fedora 10
    19 de Abril de 2009 - 02:28 | Link permamente

    Juro que fui dormir. Mas hoje parece que este assunto me persegue.
    Antes de me deitar com minha esposa, pelas 23:00 (GMT) resolvi dar uma rápida relida no Senhor das Moscas, do William Golding ( http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Senhor_das_Moscas ). Lá estava a violência intrínseca presente na forma da selvageria original . Fechei o livro e resolvi assistir TV. Como é hábito assisto a um ou dois documentários do Odisseia ou do Canal de História. Era meia-noite. Começou um documentários bastante interessante chamado Bandos Criminosos do Mundo: Moscovo, acerca dos grupos neo-nazis russos. Lá estava ela de volta. A 1 da manhã começou um outro chamado Das séries B aos filmes de culto: “Western”. Assisti sem muita atenção, meio “zappiando” sem destino. Mas a 1:30 começou outro da mesma série chamado Das séries B aos filmes de culto: Melodrama. Pois bem, e não é que lá estava ela de volta, a violência intrínseca. Mas desta vez explicada na forma B + A = BA, mostrando a construção da vítima e do vilão (aqui o carrasco) e a forma didáctica como este modelo de procedimento é ensinado através do cinema desde sempre. Fala mesmo de nosso sadismo reprimido e de nossa vontade de, no fundo no fundo, sermos o vilão. Esta história aqui contada pelo Marco, é um melodrama real que reproduz aquilo que vemos todos os dias, quase até a exaustão em histórias imbecis que ocupam as TVs, principalmente nas novelas das generalistas.

    A propósito tanto um quanto outro documentário, passam outra vez no Odisseia (Portugal) na manhã deste domingo 9:30 o do cinema (vítima) e 11:00 o dos skinheads russos (carrasco). Pois é Pedro, é até mesmo mais banal do que aparenta ser. De médico e louco …

  • 12
    Brunhild
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    20 de Abril de 2009 - 11:48 | Link permamente

    A tragédia do carrasco?!… Ironia, certo?

  • 13
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Fedora 10 Fedora 10
    20 de Abril de 2009 - 19:33 | Link permamente

    Um outro aspecto que me incomoda profundamente, relendo este post, diz respeito ao estabelecimento da censura como meio de resolução dos problemas. Como se dissessem: – “Quando nós não conseguimos, os submetemos para o (extinto) limbo que alguém haverá de resolver”!

    A retirada dos vídeos do Anthony, pela alegada violência, não resolveu nada. Acredito mesmo que produziu mesmo efeito contrário, pelo aumento da notoriedade do “louco” que lhe mostrou seguidores fieis, justificando mais e mais as suas ações.

    Se a tal da violência de algumas palavras foi motivo de censura daquele conteúdo, o que se deveria fazer com estes?

    http://www.youtube.com/watch?v=1m6FI8qYjLQ&NR=1

    Que já foram visto por mais pessoas que os do Anthony ou da Asia, e mostram bem mais que palavras, mostra ações?

    Por falar em censura: já viram isto?

    http://blackouteurope.eu/

    Talvez todos tenhamos que deixar de ler o Bitaites …

  • 14
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    21 de Abril de 2009 - 16:22 | Link permamente

    O mais inacreditável (e simultaneamente triste…e assustador) de toda esta história é o facto de ter sido publicamente alimentada e “insuflada” por um nº incrível de geeks tal como ele, sem que ninguém tivesse tentado esclarecer quais as suas verdadeiras intenções, incluíndo as próprias autoridades.
    A alienação e passividade que toda esta história transparece são preocupantes, num país onde bastaria olhar para o passado recente para evitar erros de julgamento no presente e no futuro.
    A eterna contradição dos norte-americanos, capazes do melhor e do pior, continua incompreensível para o resto do Mundo. Serão estes os tiques que a hegemonia sobre a Humanidade acarreta?
    Nestas alturas fico mais descansado por ser português…Por aqui, para o bem ou para o mal, nada acontece!

  • 15
    Brunhild
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Windows 2000 Windows 2000
    21 de Abril de 2009 - 17:45 | Link permamente

    Assisti a um filme, no início deste ano, que aconselho: A Onda (Die Welle), de Dennis Gansel.

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