Há muito, muito tempo, numa galáxia distante, usar a expressão elite intelectual no contexto dos blogues não fazia sentido. Os geeks alienados que começaram a usar sistemas de gestão de conteúdos não estavam muito interessados em importar determinadas caracterÃsticas do mundo off-line. Eles tinham razão: desde quando a blogosfera precisa de elites?
A expansão da Web, o aumento do número de blogues, as audiências, as citações nos media tradicionais, a criação de nichos, a profissionalização, o valor desigual das hiperligações e o Todo-Poderoso Google desfizeram rapidamente o ingénuo mito inicial de que não ocorreriam divisões de classes entre bloggers.
Apesar de saber que gostos não se discutem e que as pessoas fazem escolhas e separam as águas, continuo ao fim de quase quatro anos disto sem perceber por que razão se insiste em dizer que os blogues que tratam sobretudo de assuntos de polÃtica constituem a elite intelectual da blogosfera. Acompanhar a mediocridade da vida politiqueira portuguesa requer assim capacidades intelectuais tão extraordinárias? Conhecem algum polÃtico português actualmente em actividade cuja sensibilidade ou capacidade intelectual vos tenha chamado a atenção?
Uma vez tive uma conversa sobre blogues com alguém que não se deixava impressionar pelas suas maravilhas. «Não passam de meia-dúzia de tipos a fazer a festa, lançar os foguetes e recolher as canas, mas ninguém lhes dá importância, ninguém lhes liga nenhuma.» Perguntei-lhe então quais os blogues que conhecia. Resposta: eram todos blogues de polÃtica descobertos através de promoções dos media.
Percebo muito bem que quem sinta na pele o aumento do preço dos combustÃveis se identifique mais com o blogue do Zé da Esquina, que se revolta e diz caralhadas, do que com a elite que supostamente tem mais autoridade intelectual para falar sobre o assunto. Até porque quem gosta de pertencer à elite está-se cagando para o Zé da Esquina que se revolta e diz caralhadas, deseja sobretudo defender o tacho com que alimenta as suas vaidades, entrando assim nos mesmos joguinhos de retórica dos nossos polÃticos politiqueiros.
Portanto a sensação que tenho quando percorro esse tipo de blogues, da esquerda (chique) à direita, é a de entrar numa reprodução à escala blogosférica do Parlamento, com bancadas partidárias, ilustres deputados, aplausos e assobios, panelinhas, alianças, amuos, recadinhos, meia-dúzia de cidadãos pacientes nas galerias e a mesmÃssima e desinteressante vulgaridade.
Quando o auto-proclamado presidente do Parlamento da blogosfera, Pacheco Pereira, escreveu numa crónica no Público que os blogues eram «90 por cento lixo», pretendia atingir o orgulho dos «senhores deputados» e não caracterizar um mundo que obviamente não conhece. A ignorância sobre a blogosfera, já agora, não se nota apenas em debates sensacionalistas da SIC: também se verifica entre os notáveis que a utilizam.
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8 comentários
Muito bem, muito bem!
Este post vai um pouco de encontro a um que escrevi sobre a forma de fazer polÃtica em Portugal, em que as justificações para as propostas não são mais que o apontar os defeitos dos outros.
«A ignorância sobre a blogosfera, já agora, não se nota apenas em debates sensacionalistas da SIC: também se verifica entre aqueles que a utilizam.»
É da exposição ao chumbo.
apoiad, mandar para "Do Portugal Profundo",lolll
Por acaso Marco para variar não concordo contigo. Acho que na realidade nos blogs polÃticos tens algum "lixo" mas também tens visões diferentes, "independentes" e interessantes em todos os quadrantes … Melhor do que nos media convencionais – sem margem para dúvida … desculpa lá a não concordância .
Com certeza, Fernando.
Quais são esses blogues, já agora?
Não li a crónica do Pacheco Pereira, mas quando diz que 90% são lixo… fico surpreendido com a exactidão da conclusão a que ele chegou. 90%! um número redondo, e bem redondo. Como sabe ele? Faz me lembrar aquelas conversas do género: "epá 75% dos carros que vejo passar são vermelhos", "80% das pessoas que conheço são loiras", "o Santa Lopes tem 0,000000000000000001% de chances de voltar a ser primeiro-ministro"… não tem crédito. Peca pela forma como se apresenta, temos pena, pois indicia mais um palpite, uma opinião emocional sobre algo, do que propriamente um facto… Mas o Pacheco Pereira parece também partir de um falso pressuposto, julgo eu: o de que um Blog tem que ter um fim intelectual especÃfico. E aà reflecte-se o interesse da maioria de nós pela polÃtica: 10%. O porquê disso são outras histórias… Ora os Blogs são uma das formas mais expressivas de liberdade de expressão, fazemos deles o que queremos, como queremos. Não existe nenhuma lei, nem nada que se assemelhe, que defina o que é que um blog deve ser, ou para que deve servir. E portanto devemos respeitar o uso que cada um faz disto. 90% de lixo é a afirmação de Pacheco Pereira. Talvez se recicle o resto…
Nos últimos tempos temos assistido a consecutivas sessões de peixeirada acerca dos blogs.
A mim, o que me parece é que este pessoal da "elite" não quer, ou não sabe o que é ainda pior, ver a realidade da Internet.
A questão é que a aldeia global está a vulgarizar-se e o "povo" já não tem medo de arriscar em desopilar o fÃgado e botar tudo cá para fora.
Por outro lado, os verdes pastos onde os senhores "jornalistas" faziam copy/paste das novas "notÃcias" pseudo-originais foram invadidos e se alguns blogs até seguem o exemplo dos "jornalistas", copy/paste, outros vão mais longe e transformam um simples pedaço de barro numa peça com valor.
Obviamente, o 4º poder não poderia ficar insensÃvel a este facto e suspeito que anda por aà uma grande dose de dores de cotovelo.
Pacheco Pereira, outrora o imperial soberano desta malta dos blogs, começa a ver o ceptro ameaçado por uma plebe que deseja a democracia e a liberdade e não uma cambada de rajás.
O poder desceu á rua e parece incomodar muita gente principalmente aqueles que até possuÃam um certo poder através dos seus escritos.
Com uma óptica deste tipo é claro que os outros são lixo mas deixem-nos ser lixo porque quase ninguém liga patavina ao weblog de Pacheco Pereira. Não há pachorra.
Por outro lado, talvez esteja para aqui a arrotar postas de pescada sem qualquer pinga de razão e dar-se o simples facto que apenas se trata de uma coincidência…
Ou será que andaram a tirar algum curso esquisito!?
@braço.
á rua – não
à rua – sim
Concordo genericamente. Aliás basta ver a última campanha eleitoral no PSD (e o resultado de PPC, fortemente apoiado pela blogosfera liberal) para perceber que os chamados blogues de elite (aka politicos) têm um peso muito mais pequeno do que aquele que eles próprios acreditam ter. A sensação com que fico ao ler estes blogues é que são um clube fechado, em que os autores escrevem auto-elogios para si próprios e para mais meia dúzia de bloggers amigos ("os seus"), e crÃticas ferozes para todos os restantes.