
Muitas vezes me têm perguntado por que razão menosprezo tanto os blogues de polÃtica, uma vez que são a elite. A razão é simples: sobra-lhes em palavras o que lhes falta em poder de comunicação. Não provocam a curiosidade intelectual das pessoas. São cegos e arrogantes.
Não é possÃvel compreender a blogosfera sem humildade – e essa é uma caracterÃstica rara nesses projectos. Basta ler o que escreveu Eduardo Pitta, do blogue Da Literatura, quando há dias mencionou as audiências do Blogómetro: «A partir dos números de ontem, e sem contar com os blogues temáticos (pornografia, lingerie, fotografia, desporto, anedotas, infantis, etc.) que lideram as audiências, considerando apenas os blogues-enquanto-blogues, a listagem das audiências é esta. Se a minha avaliação está correcta, esquerda e direita empatam 7-7.»
O diálogo que se estabelece na blogosfera de elite só tem duas direcções: esquerda ou direita. Acima deverá estar Deus, o Capital, as cuecas rendilhadas da Deolinda ou seja o que for que considerem estar num plano superior ao deles (não deverá ser muita coisa). Em baixo estão os outros, os blogues temáticos que não têm o estatuto de blogues, não são blogues-enquanto-blogues porque não falam de polÃtica (a polÃtica, como se sabe, não é um tema).
A blogosfera não é a blogosfera, a blogosfera são eles.
Só encontro esta visão redutora nesses blogues de elite ou nas farpas que Pacheco Pereira lhes lança. E a superior legitimidade blogosférica destes blogues-enquanto-blogues acaba por ser tristemente irónica porque, sendo eles a nata, o supra sumo, mostram-se com frequência mais apreciadores de uma boa peixeirada: banqueteiam-se de tricas, calúnias, vaidades e novelas inconsequentes, como se vê pelo episódio do abandono de alguns bloggers do Cinco Dias e as croniquetas de escárnio e mal dizer que provocou no Atlântico.
Estou realmente convencido de que os blogues politiqueiros são os principais responsáveis por uma primeira impressão negativa da blogosfera. Não são os que escrevem caralhadas; são os que escrevem caralhadas tentando convencer-nos de que escrevem coisas elevadas.
Os blogues-enquanto-blogues estão fechados sobre si mesmos, ignorantes do meio em que estão inseridos, que é um meio aberto e dialogante, e vivem do grau de representatividade que julgam ter – mas que na verdade não têm, nem aqui nem lá fora. Dado que ignoram o que se passa no exterior do seu cÃrculo de amigos e inimigos, não têm consciência de como são insignificantes. Quando são confrontados com números que indiciam essa insignificância, arrastam os blogues de maior audiência para uma espécie de gueto intelectual fora da blogosfera. À medida que os egos incham, o seu cÃrculo de acção encolhe. E não percebem. Que patéticos.































6 comentários
Como de costume, escreveste o que eu queria dizer no post que fiz acerca do assunto, mas em melhor, mais giro, e mais bem escrito
Excelente, como sempre!
Gosto muito da distinção entre ‘blogues temáticos’ e ‘blogues-enquanto-blogues’. É bonita e apelativa. Eu por acaso até achava que ‘polÃtica’ era um tema e como tal blogs sobre polÃticas seriam ‘temáticos’. Pelos vistos não! Estamos sempre a aprender.
A sério, são tão lindos… Gosto tanto, mas tanto deles…
Será que eles chegam a ver que alguém os “linkou”? Será que eles passam por aqui e se dignam a ler o que aqui está escrito?
E porque será que não comentam? Fará parte de tamanha erudição não comentar?
“blogues-enquanto-blogues” é uma expressão divinal que só me admira não ter sido proferida pelo dignÃssimo Moita Flores.
É giro.
É sempre engraçado ver alguém que chega atrasado ao jogo dizer que não, que nós que já cá estávamos não estamos a jogar o jogo certo, eles é que estão a jogar como deve ser. O jogo deles é que conta para o campeonato, o nosso era só a fingir.
E aliás, a bola…? É deles.
Quase tão patéticos quanto inconsequentes.