Este é o primeiro de dois posts nos quais se divulgam a banda sonora de 2001: Odisseia no Espaço, realizado em 1968, e até à data o melhor filme de ficção cientÃfica alguma vez feito (ver trailer).
Depois de completar a publicação deste trabalho, ainda tentarei escrever qualquer coisa sobre o filme: não sendo crÃtico de cinema nem tendo pretensões a sê-lo, 2001 marcou-me de tal forma que não posso deixar de lhe dedicar um post. Para já, e tão maravilhosa como a obra-prima de mestre Stanley Kubrick, deixo-vos a música.

Richard Strauss – Also Sprach Zarathustra
Este é um poema sinfónico composto em 1896 por Richard Strauss, que estava fascinado com as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche (biografia) no livro Also Sprach Zarathustra. (Assim Falou Zarathustra: Wikipedia). A secção de Abertura – Dawn – foi usada por Kubrick três vezes, mas a mais conhecida é a que acompanha a sequência inicial do filme.
Zarathustra, livro, defende a ideia de que os seres humanos são apenas a transição entre os macacos e o que Nietzsche chamou de Übermensch (Além-do-homem, normalmente traduzido como Super-homem).
Embora esta ideia tenha originado criminosas interpretações (ler estas relações entre Nazismo e Nietzsche), Kubrick soube apropriar-se do despertar do Übermensch, celebração de Strauss, genial compositor, e dar-nos uma visão sublime e humanista do enigma enfrentado por seres humanos de existência finita mas capazes de compreender que, para além de Júpiter, de qualquer Júpiter, existe sempre o Infinito: pretender alcançar o limite do conhecimento é como tentar alcançar a linha do horizonte.


Gyorgy Ligeti – Requiem For Soprano, Mezzo Soprano, Two Mixed Choirs & Orchestra
E então Kubrick surpreendeu os espectadores. Quando todos esperavam um filme de ficção cientÃfica mostrando uma sofisticada cidade do século XXI, Kubrick deu-lhes macacos e fez recuar a Humanidade 4 milhões de anos na sequência inicial «O Alvorecer do Homem».
Sob a influência do monolito, o primata torna-se capaz de fabricar um instrumento de guerra a partir de um pedaço de osso. O salto de 4 milhões de anos para o futuro é dado por uma das montagens mais famosas da história do cinema quando o primata, triunfante, lança o osso ao ar e ele é substituÃdo pela visão de uma nave espacial.
A presença do monolito e a sua influência na evolução do Homem é o mistério que atravessa todo o filme – sem nunca ser explicado.
Kubrick usa a música de Gyorgy Ligeti, fabuloso compositor de vanguarda que merecerá um post por si só.
O Requiem de Ligeti transmite à cena em que o primata encontra o monolito um carácter quase religioso. Arthur C. Clarke é ateu, e nos livros que publicou com as diversas continuações da história, acabou por revelar o Monolito – 3001: Odisseia Final – como sendo apenas uma máquina manejável pelo Homem. Mas Kubrick, judeu, tinha outra visão: o primata que tenta tocar no monolito assume uma posição semelhante à de Adão e Deus na pintura de Miguel Ângelo da Capela Cistina, em Roma.
Observamo-lo na sequência estendendo a mão para o monolito como o faz Adão na criação do pintor renascentista e como, de resto, quatro milhões de anos depois no filme, o faz Heywood R. Floyd quando investiga outro monolito que fora enterrado na Lua. Bowman também estende a mão ao monolito, no final do filme. [Fonte: A Odisseia Musical de 2001, de Miguel Andrade]


Johann Strauss II – The Blue Danube
Quando Johann Strauss II (filho mais novo da famÃlia de compositores Strauss, ver biografia) compôs o seu Danúbio Azul, já era conhecido em Viena como o Rei das Valsas. A fama e o reconhecimento público levaram-no a viajar pela Europa e Estados Unidos onde, em 1876, por ocasião das comemorações dos 100 anos da independência americana, conduziu uma orquestra de 1000 músicos na cidade de Boston.
Embora não seja considerada a melhor valsa de Strauss, Danúbio Azul (nome abreviado pela passagem dos séculos, pois o original é No Belo Danúbio Azul) conquistou ilustres admiradores: Wagner afirmou-se «encantado» e Brahms escreveu num guardanapo o seguinte comentário sobre a obra: «Infelizmente não é minha.» (consultar)
Esta valsa acompanha a dança das naves espaciais no filme de Kubrick e parece transformar as leis de Newton em partituras. São quase 15 minutos sem diálogos, apenas a visão de uma nave do estilo Vai-Vem em suave aproximação à Estação Orbital e, depois, na segunda parte, durante a viagem que leva o investigador Heywood R. Floyd da Estação à Lua. Fãs de ficção cientÃfica de acção poderão achar esta sequência enfadonha: é contemplativa, sem montagens frenéticas, lasers ou sabres de luz.
Kubrick queria fazer um filme tão realista que teve como consultores especialistas da NASA (para toda a panóplia de efeitos especiais relacionados com a nave, os astronautas e a Cosmologia) e da IBM (para os computadores utilizados). Não admira, portanto, que um filme produzido em 1968 tenha sido capaz de antecipar, com exactidão, projectos como o Space Shuttle ou a Estação Orbital Internacional.
O apoio da IBM não durou muito tempo. Quando a empresa soube que o principal computador da nave – HAL 9000 – se tornaria o mau da fita, retirou-se do projecto. Por isso se diz que o nome HAL é uma referência velada (e irónica) à IBM: H acima do I, A acima do B, L acima do M. Kubrick afastou estas especulações, afirmando tratar-se apenas de uma coincidência.


Aram Khachaturian – Gayne Ballet Suite (Adagio)
Combine-se a sequência em que uma pequena nave espacial navega entre os abismos do Espaço rumando em direcção a Júpiter e o Adágio de Gayne Ballet Suite, do compositor georgiano Aram Khachaturian, e tem-se a visão sublime da solidão. Penso que foi o que Kubrick e o escritor de ficção cientÃfica Arthur C. Clarke (co-autor do argumento) quiseram mostrar: não a solidão no sentido individual, mas a solidão da espécie humana.
É uma contradição evidente, quase impossÃvel de resolver, a forma como a nossa inteligência consegue abarcar espaços e tempos tão vastos e, ao mesmo tempo, a nossa existência fÃsica como indivÃduos ser tão pequena e insignificante. Ao entrarmos no interior da nave espacial, a sensação de solidão que nos transmite o silêncio gelado do Cosmos permanece na inexpressividade dos astronautas Dave Bowman e Frank Poole, entregues a tarefas de rotina de manutenção e sem dizerem uma palavra um ao outro.
Apenas HAL, a inteligência artificial que comanda os destinos da nave, mais expressiva e emocional que os humanos, conhece a verdadeira natureza da missão: ir ao encontro do gigantesco monolito que se encontra em órbita de Júpiter.































2 comentários
Parabéns pela matéria.
Estou querendo fazer uma matéria sobre a música de György Ligeti
usada no filme “2001: Odisseia no Espaço” e colocá-la no meu Blog.
Gostaria de saber se estão listados na matéria “A banda sonora do Cosmos (Lado A)” todos os temas do compositor György Ligeti usados no filme. Kubrick não pediu autorização a Ligeti para fazer uso de seus temas e que eu saiba o compositor não recebeu nenhum valor pelo uso de suas músicas.
Abraços.
Ernani Nascimento
Ernani: sim, estão lá todos os temas. Abraços