→ 04/11/2006 @19:54

A banda sonora do Cosmos (Lado B)

Este é o segundo de dois posts nos quais se divulgam a banda sonora de 2001: Odisseia no Espaço, realizado em 1968, e até à data o melhor filme de ficção científica alguma vez feito. O Lado A da banda bonora cósmica pode ser lido aqui.

Gyorgy Ligeti – Lux Aeterna

Ligeti, compositor de origem húngara, judeu, falecido a 12 de Junho deste ano, em Viena, escreveu Lux Aeterna em 1966, um ano antes da estreia de 2001. A peça foi composta de acordo com uma técnica conhecida como Massa Sonora para um coro de 16 vozes solistas. É uma estrutura que prescinde do ritmo e da melodia e utiliza a harmonia com o objectivo de produzir variações de timbres vocais ao longo do tempo. Ligeti inventou o termo micropolifonia para descrever esta técnica composicional. (Fonte: Wikipédia)

Kubrick usou muitas composições de Ligeti nos seus filmes: em 2001, mas também em Shining ou Eyes Wide Shut.

A utilização das peças de Ligeti – compositor virtualmente desconhecido do grande público – ajudou-o a filmar a cinzenta desolação da Lua e o carácter quase divino, transcendental, do monolito.

Não existem muitos diálogos em 2001. Ao contrário dos filmes de ficção científica da época, não temos personagens cuja existência se justifica apenas para explicar ao espectador o que está a ver: Kubrick deixa-nos sozinhos com a sua visão e a música que escolheu.

2001 foi realizado cerca de um ano antes de outra odisseia – a dos astronautas da Apollo 11 que, a 20 de Julho de 1969, alunaram no Mar da Tranquilidade – o culminar de uma corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética iniciada em 1957 quando os russos colocaram em órbita o primeiro ser vivo – uma cadela Laika a bordo da Sputnik II – e, em 1961, venceram os Estados Unidos colocando o primeiro homem no Espaço, Yuri Gagarin, num voo orbital de 48 minutos a bordo da nave Vostok I. À semelhança de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, também Gagarin haveria de dizer uma frase célebre: «A Terra é azul, e eu não vi Deus».

Esta competição entre Estados Unidos e União Soviética – uma de entre as muitas faces da Guerra Fria – atravessou toda a década de 60. O próprio 2001, possivelmente contra a vontade de Kubrick e sobretudo de Arthur C. Clarke, acabaria por entrar nas contas dessa guerra quando foi sugerido no Ocidente que Solaris, de Andrei Tarkovski, baseado no livro de Stanislaw Lem, era a resposta cinematográfica da URSS ao filme americano. Steven Soderbergh, que realizou a remake de Solaris, afirmou numa entrevista ao New York Times ter imaginado «o planeta (Solaris) como o equivalente ao monolito do 2001». Tarkovsky viu 2001 antes de iniciar as filmagens de Solaris e não gostou: «É um filme frio e estéril».

2001 levou muitas pessoas à Lua e rumo ao futuro mas, não obstante o conhecido feitio perfeccionista de Kubrick, não conseguiu escapar a alguns erros. Por força do desconhecimento ainda existente sobre a Lua, não foi possível recrear com perfeição os efeitos da ausência de gravidade sobre os astronautas. A altura das montanhas é excessiva e os efeitos da erosão sobrestimados – seja como for, não foram estas pequenas deficiências do filme que motivaram as críticas negativas que recebeu. Pauline Kael, da revista The New Yorker, conhecida pelas suas críticas eruditas, eloquentes e, segundo alguns, histéricas, classificou 2001 como um filme «monumentalmente pouco imaginativo».

Mas sobre esta peculiar raça – os críticos – já o grande compositor Erik Satie se pronunciou de forma apropriada [ver texto Elogio dos Críticos].

Hal Montage

Não se trata desta vez de uma música, mas de uma colagem (9:41) dos diálogos do computador HAL no filme. A voz pertence ao actor Douglas Rain. Rain, nascido no Canadá, actor de teatro acima de tudo, nunca chegou a pisar o local de filmagens.

HAL, a máquina, é o resultado daquilo que, em 1968, se pensava sobre a evolução dos computadores: quanto mais sofisticados, maiores seriam. Sabemos agora que a previsão falhou, pois caminhou-se no sentido oposto – o da miniaturização dos componentes electrónicos.

O primeiro circuito electrónico miniaturizado surgira em finais dos anos 50, na Texas Instruments, quando o engenheiro Jack Kilby fundiu cinco transístores numa barra de 1,5 centímetros quadrados. O que não se podia supor é que fôssemos capazes de diminuir até mil vezes o tamanho dos circuitos (Ver Nanotecnologia).

A ideia de um computador capaz de falar como um ser consciente também está longe do que é possível conseguir-se hoje em dia. Por outro lado, um computador capaz de jogar xadrez e, ainda por cima, vencer um ser humano (como no jogo contra um dos tripulantes, Frank Poole), era impensável na época – e temos todos bem consciência das partidas em que o super-computador Deep Blue venceu o campeão Gary Kasparov.

HAL, a personagem, é muito mais complexa. O computador tem a seu cargo a manutenção da nave e, ao mesmo tempo, a avaliação psicológica dos tripulantes. Encerra nos seus circuitos um segredo: o verdadeiro objectivo da missão, que é a de ir ao encontro do gigantesco monolito que se encontra em órbita de Júpiter.

Depois de falhar uma previsão de avaria numa das antenas da nave (impossível de acontecer, segundo o próprio HAL, pois não existem registos de quaisquer falhas de funcionamento no seu modelo de computadores), Dave Bowman e Frank Poole começam a conspirar contra a máquina admitindo, mesmo, a hipótese de a desligar. HAL, apercebendo-se da intenção dos tripulantes (consegue ler-lhes nos lábios o diálogo que travam), acaba por matar Boole quando este efectua uma saída para o Espaço, embora falhe na tentativa de eliminar Bowman.

Clay Waldrop, no artigo «The Kubrick Site: The Case For HAL’s Sanity», disserta sobre a psicologia de HAL e parte precisamente do jogo de xadrez com Poole para defender a teoria segundo a qual o computador não enlouqueceu. Waldrof afirma que as acções de HAL são resultado da Razão e da Lógica, originando tomadas de posições que são depois executadas com a frieza de uma máquina super-inteligente.

São inúmeras as interpretações e caracterizações de HAL. A mais curiosa – embora lateralmente, pois o foco não é o computador mas o filme como um todo – é a de Michel Jalil Fauza no artigo intitulado «O Paralelo da Consciência em Hamlet e 2001: Odisseia no Espaço». Outro site oferece textos – incluindo do próprio Arthur C. Clark – com todos os tipos possíveis de abordagem, entre artigos e entrevistas: HAL’s Legacy.

Para os interessados, é leitura não para horas, mas para dias.

Gyorgy Ligeti – Atmospheres

HAL, o super-computador finalmente vencido pelo instinto humano de sobrevivência, chora a inocência perdida enquanto o astronauta Dave Bowman invade o compartimento onde estão armazenados os circuitos sensíveis da memória do computador e desactiva-os, um a um, tornando a agonia final de HAL lenta e perturbadoramente humana.

HAL vai-se desvanecendo aos poucos e confessa, nos momentos finais: «Tenho medo, Dave. Tenho medo.»

Já sem consciência de si próprio e instigado por Bowman, HAL canta Bicycle Built For Two?, canção infantil, sim, mas uma mera rotina que tinha sido gerada num IBM 7094 em 1961 pelos programadores John Kelly e Carol Lockbaum. Mais um toque de realismo.

Silenciada a máquina, Bowman, único representante da raça humana nesta odisseia espacial, chega a Júpiter, onde se encontra o monolito, e descobre, para além de Júpiter, o Infinito.

Os quinze minutos finais de 2001 assombram os espectadores pela espectacularidade dos efeitos espaciais e pelo mistério que, em vez de ficar resolvido, ainda mais se adensa.

Primeiro, a sequência em que Bowman parece deixar de estar sujeito às restrições da nossa tecnologia e viaja pelo Espaço e pelo Tempo como se estivesse sentado num carrinho percorrendo uma montanha-russa cósmica. Luzes, cores e formas desfilam diante de nós, o mundo está repleto de estrelas, galáxias e mundos desconhecidos. Tão estranha como as imagens é a música escolhida pelo realizador, mais uma peça orquestral de Ligeti, atonal e dissonante.

Para quem vive o século da animação computorizada, os efeitos visuais usados nesta sequência poderão parecer rudimentares – na época em que surgiram, porém, deslumbraram. Não eram um mero espectáculo visual, dizia-se, mas uma verdadeira experiência – o mais próximo que se podia estar de uma trip de LSD sem consumir a droga.

Gyorgy Ligeti – Adventures

Depois de uma viagem psicadélica pelo Espaço, o astronauta Dave Bowman encontra-se numa sala setecentista. O filme torna-se ainda mais estranho, misterioso. Ouvem-se sons, vozes, que parecem indicar presenças alienígenas na sala. Não são efeitos sonoros, mas excertos de uma das peças mais arrojadas de Ligeti, Adventures.

Nessa peça o compositor propôs aos músicos uma experiência musical diferente – criar sons estranhos com a sua própria voz – e incorporou e montou os sons conseguidos. Recursos deste tipo já os conhecia em experimentações mais arrojadas de outro génio da música, Frank Zappa. Kubrick usa-as para aumentar ainda mais a sensação de estranheza e mistério naquela sala. O que é aquela sala, e qual o significado de tudo o que veremos posteriormente, é algo que o realizador nunca mostrou interesse em explicar: «Há certas áreas da realidade – ou da irrealidade, ânsia interior, chame-lhe o que quiser – que são particularmente inacessíveis às palavras», afirmou uma vez.

Kubrick raramente dava entrevistas, mas alguns foram capazes de quebrar o gelo. Jeremy Bernstein, em Novembro de 1966, visitou a casa do realizador. Não só conseguiu a desejada entrevista como pôde registá-la em cassete. Bernstein não era propriamente um jornalista, mas um professor de Física autor de mais de uma dezena de livros de divulgação científica e que também escrevia artigos para a New Yorker.

Da parte da entrevista dedicada ao filme, o que acaba por ser mais interessante é a forma como Kubrick interpreta e sente a obra do escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, co-autor do argumento e em cujo conto The Sentinel a história de 2001 se inspirou. Sobre o filme acaba por falar muito pouco.

«Intelectualmente complicado não é bem a melhor descrição para 2001. Strangelove era um filme intelectualmente mais complicado, envolvia discussões complexas, e ideias abstractas, cómica ou claramente representadas. 2001 não é um filme complexo em termos de ideias apresentadas, ideias realmente expostas, percebe?». O registo áudio desta (curta) entrevista pode ser descarregado aqui.

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