Havia um filme do Woody Allen em que o próprio dizia que a história da Branca de Neve e os Sete Anões estava muito bem, mas que ele devia ser um tipo esquisito: apesar de o Espelho Mágico garantir que a Branca de Neve era a mulher mais bonita do reino, sentia-se era «sexualmente atraÃdo pela Bruxa Má.»
A Lene Lovich – rainha do movimento New Wave dos finais da década de 70 e princÃpios de 80 – foi a minha Bruxa Má. Foi com ela que comecei a gostar de música. Foi com ela que comecei a notar que as mulheres não se dividiam entre mães chatas e raparigas medricas que se encolhiam à passagem da bola. As mulheres também podiam ser como a Lene Lovich: misteriosas, provocantes, sensuais, artÃsticas. E foi assim, quase de um dia para o outro, que a minha vida mudou.
Muitos anos depois, assistindo a um vÃdeo de uma entrevista feita a Frank Zappa nos princÃpios da década de 80, perguntaram-lhe quem é que andava a fazer música interessante. Zappa pensou um bocado e respondeu: «Bem, a Lene Lovich».
Quando ouvi aquilo pensei como de facto todos temos uma espécie de fio que entrelaça subtilmente todos os nomes importantes para a nossa vida. Lembrei-me também de uma frase que eu e o Pedro costumamos dizer ainda hoje: «Os bons músicos acabam sempre por encontrar-se.» Acho que isto é verdade, nem que esse encontro se dê apenas na nossa cabeça.
Voltei a ouvir Lene Lovich. Não é a mesma coisa, obviamente, porque entretanto conheci muita música e os meus gostos foram mudando, mas também não é só com os ouvidos que a oiço. Aquela voz de Nina Hagen aveludada, o ritmo, as guitarras, a bateria, os sintetizadores, todas aquelas canções continuam a transportar-me para um passado excitante de descobertas. Só por curiosidade, eis duas músicas de Stateless, o disco de estreia lançado em 1978: Sleeping Beauty e Lucky Number.































2 comentários
é a minha “companhia” nas viagens de carro para fora da grande lisboa.
Vi-a ao vivo num espectáculo no Porto e nunca mais me esqueci de um dos mais fantásticos concertos que me foi proporcionado assistir, apesar de me ter esquecido onde foi e em que ano (penso que foi no Pavilhão Infante Sagres ou da Trindade e em 79 ou 80).
Naqueles tempos ia a tudo o que aparecia e na minha idade é tudo uma grande confusão pelo que já não dá para recordar os locais e datas.
Ficam apenas os sonhos acordados que como bem disseste são quentes e coloridos (*)…
Quando li o teu post fiquei um pouco admirado já que ainda não tem dois dias tinha mencionado uma lista de pessoal do milénio passado, parece que está na moda (**), que lhe poderia interessar ouvir onde constava precisamente a Lene Lovich.
@braço.
(*) Há mais qualquer coisa mas não consigo recordar-me excepto ter algo a ver com a adolescência…
(**) – Não me recordo de ver cartazes com tantas “múmias” como este ano – Neil Young, Bob Dylan, Sex Pistols, os gajos do Golden Brown (não me lembro do nome), entre muitos!