Este texto foi originalmente publicado no blogue Ouve-se, do Filipe Marques, visita obrigatória para quem gosta de música (não necessariamente jazz) e está farto da verborreia crítica da maioria dos especialistas.
O Filipe convidou-me a escrever sobre o Kind of Blue, de Miles Davis, fazendo coincidir a publicação do post com a data em que se comemorou 50 anos desde a saída do disco: 17 de Agosto. Aceitei o convite com muito gosto, embora o foco do post não tenha sido apenas esse memorável disco. Agora que já foi lido pelos leitores habituais do Filipe, trago-o para aqui.

Durante muitos anos disse aos meus amigos que o jazz não prestava. Ouvia Pink Floyd, Zappa, Laurie Anderson, Tom Waits, Philip Glass e música clássica (Mahler, Mozart e Wagner, mas só as partes orquestrais, não tinha pachorra para as óperas).
Quanto ao jazz, via-o como um bando de saxofonistas constipados a espirrar notas para os meus ouvidos e encarava esses amigos como sofredores de uma bizarra forma de contágio musical.
Os mais chegados já conheciam a casmurrice e deixaram-me sossegadinho entre os muros do Roger Waters.
Casmurrice porque a primeira vez que ouvi Frank Zappa – um disco muito jazzístico de 1969, Hot Rats – dei por mim a desejar desprender-me do sofá e sair à rua só para apanhar ar livre e sentir-me liberto pelo silêncio. Silêncio? Até os berros histéricos da minha vizinha histérica a chamar os filhos histéricos para um jantar provavelmente histérico, pareciam-me mais doces e musicais do que qualquer composição de Zappa.
Tinha 12 anos, estão a ver, as minhas tripes musicais consistiam em pôr a tocar um vinil dos Queen ao vivo, cobrir o candeeiro do quarto com um pano para dar ambiente de concerto, pegar numa raquete de ténis, abanar o capacete como se tivesse um trampolim invisível diante da testa e impressionar uma plateia de raparigas imaginárias fazendo de conta que era o Brian May a solar no crepúsculo. A propósito, as raquetes foram inventadas para jogar ténis, mas também dão excelentes guitarras.
Só não pude deixar crescer a guedelha porque, para a minha mãe, já era um enorme sacrifício aturar as guitarradas do Brian May, quanto mais tê-lo a jantar todos os dias em casa com o cabelo caindo sobre o prato como as orelhas de um cocker spaniel.
Isto tudo para dizer que no longo processo de reeducação das nossas orelhas é difícil saltar etapas. Conhecemos músicos demasiado cedo e desprezamo-los; conhecemo-los demasiado tarde e então já não nos impressionamos. No primeiro caso, temos a vantagem de usufruir de mais umas quantas oportunidades para rever o que rejeitámos. No segundo, temos a vantagem de não sermos enganados facilmente pela suposta originalidade de certas bandas – estou a pensar nos sobrevalorizados Coldplay, chatos, cansativos e monótonos como o metropolitano de Lisboa numa tarde de Verão.
Seja como for, é preciso passar por experiências intermédias que acabam por nos conduzir às músicas certas para nós, experiências que por vezes nada têm a ver com música. Por exemplo, o meu amor pelo disco The Wall não seria tão visceralmente profundo se não adorasse já o cinema, pois o The Wall é uma banda sonora para um filme que esteve dentro da cabeça do Roger Waters desde que perdeu o pai e, mais tarde, quando Syd Barrett flipou. Não teria gostado tanto de Bela Bartók e de outros compositores clássicos contemporâneos se não tivesse venerado o Shining, do mestre Stanley Kubrick, pois foi nesse filme que os ouvi pela primeira vez.
Tão cedo não teria conhecido Laurie Anderson e Philip Glass – numa bela noite de Verão, assisti a um espectáculo de dança contemporânea em Cascais no qual as suas músicas foram usadas. Só descansei quando arranjei os discos.
Não teria adorado Radiohead se a canção Paranoid Android, a primeira que ouvi da banda, não me tivesse feito reviver a mesma emoção que ainda sinto com o tema Comfortably Numb dos Pink Floyd. Não me perguntem porquê: sei que nada têm a ver uma com a outra. É uma associação emocional, genuína na sua tremenda falta de lógica.
E não teria decidido redescobrir o Zappa rejeitado aos 12 se, seis anos depois, diante da MTV, aborrecido com tanta trampa, me tivesse escapado o precioso momento em que um VJ caridoso (e cheio de visão) decidiu passar o excerto de um concerto de Zappa.
Subitamente encantado com aqueles arranjos doidos e o humor e excelência dos músicos, quase dei um salto do sofá: “Porra, mas quem é este Zappa, quem são estes músicos, são espectaculares, tenho de conhecer mais”.
Existem discos que rompem esta lógica das etapas e circunstâncias fortuitas, podem ser ouvidos por qualquer um, independentemente do género musical preferido. Não posso adivinhar o que teria acontecido se para me apresentar ao jazz tivessem escolhido o disco Kind of Blue, de Miles Davis, mas posso garantir-vos que se têm mais de 12 anos e curiosidade em perceber por que razão tanta gente se deixa fascinar pelo jazz, este disco contém todas as respostas.
Quantas vezes ouviram um disco de jazz e não conseguiram identificar as qualidades que os fãs deste género de música tanto lhe atribuíam? Kind of Blue é o disco do clique. Se não gostarem, esqueçam o jazz puro e duro porque dificilmente encontrarão outro disco capaz de fazer uma apresentação tão bela, melódica e espontânea.
Kind of Blue marcou o início da minha pancada pelo jazz. Foi a partir deste disco que descobri os outros – primeiro, mais obras do próprio Miles; depois, os discos a solo dos elementos da banda, principalmente John Coltrane, Bill Evans e Cannonball Adderley; finalmente, tudo o que consegui comprar ou sacar. Mas por mais que a partir daqui tenha conhecido músicos extraordinários, a minha história do jazz começa e termina com Kind of Blue. Dele parti, a ele regresso sempre.































11 comentários
Subscrevo, inteiramente.
Como já escrevi (aqui): «“Kind of blue” é um disco que não sabe morrer. E há mais música naquele som granulado, entre as pausas rítmicas, do que em muitas orquestras que hoje se exibem.»
Foi questão de treinar os ouvidos. Também tive a felicidade de eonctrar esses caminhos cruzados, e seguir um bastante rico e diversificado, o Zappa. Abriu-me as portas a esse fantástico mundo de que falas. Mas tem que se ir com o flow, agora consigo tirar bastante prazer em ouvir o Jazz from Hell e o Yellow Shark , coisa que era impossivel ha..7 ou 8 meses.
Abram os ouvidos, boys and girls.
Adorei ler e concordo plenamente, o que ouvimos agora e achamos demasiado “sem sentido” ou “agressivo”, daqui a uns anos, talvez meses, podemos vir a adorar pois o ouvido foi treinado ao ouvir outras coisas. E uma banda leva a outra e acabamos por voltar à banda que detestámos inicialmente e, quem sabe, começaremos a venerá-la. É um ciclo que adoro e muitas vezes me faz re-descobrir bandas que nunca dei a devida atenção ou valor.
Treinar os ouvidos é importante, de facto.
Além disso, é importante que deixemos de ouvir música só enquanto fazemos outras coisas. Um disco como o Kind of Blue, por exemplo, ganha imenso quando lhe damos exclusividade. E há por aí muitos álbuns que a merecem.
(Ah, isto está a tornar-se repetitivo mas… obrigado, Marco!)
O meu clique foi com o Porgy and Bess…
De resto subscrevo tudo com excepção à adoração por Zappa, porque é que não apanhei esse VJ? Hoje seria uma pessoa diferente.
Um abraço
Aí está!!! He’s back!!!!!!!!!!!
Bem… por falar em Zappa e Jazz… Cito Zappa:
“Jazz is not dead, it just smells funny.”
Bom texto!
Acompanho os gostos, sim senhor. A minha onda é mais Chick Corea e Keith Jarrett.
Jazz? Ainda não me aventurei nisso (deve ser da idade – teenager), mas sou capaz de ouvir este só por curiosidade…
Pink Floyd? Gosto bastante…
Zappa? Por causa dos textos deste blog ainda me deu uma certa curiosidade mas cheguei ao “Torrentstore” e a discografia tinha tantos gigas que perdi a vontade…
Coldplay sobrevalorizados? Sem duvida! Mas eu adoro…deve ser da idade, ou não…
Talvez ainda não tenha chegado a minha altura de abrir os ouvidos como se diz por estes lados por isso secalhar é melhor esperar para não rejeitar o Jazz tão precocemente.
Para já fico-me com as tretas sobrevalorizas (e não só) que entram pelos ouvidos mesmo com eles fechados!
Ah e foi o meu primeiro post neste grande blog, pelos vistos já lhe passou a depressão pós-verão (ou qualquer coisa assim).
Para mim o click com o jazz deu-se com o Köln Concert do Keith Jarrett. Daí passei para os outros cd’s dele e pouco tempo depois cheguei ao Kind of Blue (e daí a tudo o resto). É de facto magistral.
Quanto ao Zappa só comecei a ouvir à pouco tempo. Depois de tanta insistência aqui no Bitaites, e como me pareceu que o Marco tem um gosto musical porreiro, decidi experimentar e fiquei agradavelmente surpreendido.
Foi também o 1º disco de jazz q comprei, lá pelos 18, 19.
e acertei em cheio.a experiência de o ouvir pela 1ª vez e perceber q Miles era mesmo um génio só a superei qd ouvi kind of blue com a deliciosa trepidação do vinil, incluído na caixa comemorativa dos 50 anos do melhor álbum jazz de sempre.
Reza a lenda que Miles chegou o estúdio com apenas esboços da estrutura q queria adoptar em cada melodia.queria espontaniedade sem que parecesse demasiado “em cima do joelho”.
Com o ensemble que reuniu, nada mais fácil…
Nasceu assim o jazz modal, onde uma base melódica é repetida para servir de contexto à evolução dos solos de cada músico.
O segredo do equilibrio desta obra, na minha humilde opinião, é Bill Evans ao piano. Miles teve a audácia de ter um jazzman branco entre negros e a resposta foi uma desempenho surreal, um toque de veludo que contrasta com a agressividade latente do som metálico de Cannonball e Coltrane. O solo de Blue in GReen ainda hj me emociona cm se fosse a primeira vez q o ouvi.
o influência de Evans em tudo o q se seguiu é indesmentivel, chegando até aos nossos dias pelo toque de Midas de génios como Mehldau, Corea e tantos outros que em cada música o citam constantemente.
O tempo pára com cada audição de Kind of Blue.
Não conheço mais nenhum álbum q tenha esse poder sobre mim.