O acontecimento que ocorreu a 29 de Maio de 1913 pode ser visto pela geração MP3 como um episódio anacrónico de uma época obscura e demasiado distante. Mas demonstra como a música sempre teve o poder de despertar paixões, não provocar a indiferença.
29 de Maio de 1913 foi o dia em que metade da audiência do Teatro dos Campos ElÃsios de Paris andou à pancada com a outra metade. A pancadaria foi tão grande que alastrou à s ruas adjacentes e ainda hoje o caso é considerado o maior escândalo musical da história.
Razão de tanto rebuliço: a estreia do bailado A Sagração da Primavera, do compositor Igor Stravinsky.
O próprio Stravinsky contaria nas suas memórias que, logo aos primeiros compassos, a obra foi acolhida com «risadas e troças». Depois deu-se o tumulto. O maestro Pierre Monteux, que dirigia a orquestra, recordaria o que se passou nos seguintes termos:
«O auditório ficou em silêncio durante dois minutos. Depois, de repente, vaias e assobios desceram das galerias, acompanhadas logo em seguida pelas ordens inferiores. Houve espectadores que começaram a discutir e a atirar, uns aos outros, tudo o que tinham à mão. Em breve esta cólera se dirigiu contra os dançarinos e depois, ainda com mais violência, contra a orquestra, a verdadeira responsável por esta crise musical. Foram-nos arremessados os objectos mais variados; apesar de tudo, continuámos a tocar…» (Excerto de A Sagração da Primavera)

A companhia Joffrey Ballet usou em 1987 os mesmos cenários, roupas e coreografias da produção original de 1913. Foto: Herb Migdoll
Segue-se um texto sobre o escândalo, retirado do livro «Compreender a Música», de Gino Stefani:
O que haveria de escandaloso naqueles primeiros compassos? Tratava-se de um simples solo de fagote acrescido de uma melodia popular lituana, certamente desconhecida do público mas que podia ser sugestiva; um andamento rÃtmico assimétrico e complexo, de livre vocalizo; um timbre instrumental desusado — o fagote em registo agudo — que um célebre professor de orquestração não conseguiu sequer reconhecer, pelo que saiu da sala, horrorizado, protestando que não era aquela a forma de manusear os instrumentos.
Versão completa aqui
Mais: Serge Berthoumieux: notas à gravação da USSR Radio Large Symphony Orchestra, de 1981 (Tradução: Rui Vieira Nery)































4 comentários
Pois mais um excelente Post … E hoje esta obra quase nos parece inofensiva, “normal” … Há um excelente documentário que passou há uns tempos creio que na Mezzo com uma sessão (master class) do Leonard Bernstein e uma orquestra de jovens. Ideal para entender esta obra.
Esse “célebre professor que saiu da sala horrorizado” era nada mais nada menos que o próprio Saint-Saens…
desculpa o comentário ter pouco a ver com o post. como o ambiente nas caixas de comentários posteriores é estranho, 29 de Maio é um dos dias mais importantes da minha vida e (estou a nomear em ordem crescente) o que estás a fazer é, sem dúvida, uma Sagração da Primavera
agrada-me mais este lugar. só para dizer: quando estiver nas bancas, avisa
a malta volta cá porque gosta, não precisa de ser convencida. por mim, podes publicitar o teu trabalho à vontade
Esse não foi o único escândalo da música. Basta pensar em John Cage e a peça de silêncio total 4’33″. Mas Stravinsky foi um génio absoluto. “Sagração da Primavera” é um portento de criatividade estética. Continua actual nos dias de hoje.