
Foto: Steven Governo/24horas
Ah, os contentores! Não havia marialva de discoteca que não abanasse o capacete assim que Tim, o vocalista, começava a cantar A carga pronta e metida nos contentores/Adeus aos meus amores que me vou/Para outro mundo/É uma escolha que se faz/O passado foi lá atrás.
Lembram-se? Os putos de vinte e tal anos não viveram este perÃodo, mas a brigada dos trintões e quarentões sabe. E recorda.
Estávamos em Fevereiro de 1987. Já existiam portugueses, mas ainda não havia telemóveis. Nada de computadores, consolas da PlayStation ou Internet. Usávamos discos de vinil para ouvir música e as cassetes eram os nossos MP3. As mesas das esplanadas serviam de redes sociais, face to face, em vez de Facebook. Se quiséssemos jogar à bola, precisávamos muito mais do que um sofá, um televisor e um comando, mas umas pedras da calçada a fazer de baliza e qualquer estrada sem carros servia. Agora é raro encontrarmos estradas para a futebolada. Em certos aspectos, a nossa qualidade de vida era bastante superior.
E esta era a época em que os Xutos e Pontapés dominavam o rock made in Portugal.
Para os fãs da banda, os que a conheciam antes do êxito do tema Contentores e do álbum Circo de Feras, o passado tinha sido mesmo muito lá atrás, com dois discos importantes – 1978-1982, somatório dos quatro anos anteriores da banda, e Cerco, um mini-LP que a lenda diz ter sido pessimamente gravado – entre vários singles e colectâneas.
A Igreja também já os conhecia bem: três temas – Ave-maria, Mãe e Sémen – tinham sido proibidos de passar na Rádio Renascença por causa do conteúdo ofensivo das letras. Como diria o Jorge Palma, deixem-me rir. Lembro-me de ouvir religiosamente essas canções porque sempre tive o hábito de ver, em proibições católicas, recomendações de qualidade.
Se quisermos recuar ainda mais no tempo, veremos um grupo que começou por chamar-se Delirium Tremens, depois Beijinhos e Parabéns; quando se estreou ao vivo mais a sério, a 13 de Janeiro de 1979, na comemoração dos 25 anos do Rock and Roll na sala dos Alunos de Apolo, apresentou-se ao paÃs como os Xutos e Pontapés Rock’n’Roll Band.
O tempo ficou para trás e é caótico e confuso. Os Xutos nasceram nas malhas do punk mas deixaram-se crescer, romperam-nas, conquistaram mais fãs. Foram envelhecendo à medida que a barriguinha crescia e gozam agora uma vida mais tranquila e avessa a polémicas.
Quando a canção Sem eira nem beira, do último disco, começou a ser adoptada no auge da guerra entre Professores e Governo como uma espécie de manifesto anti-Sócrates, Zé Pedro, o guitarrista, veio dizer aos jornalistas que a banda nunca quisera ser «lÃder de uma revolução polÃtica» nem apoiar «qualquer partido polÃtico».
Zé Pedro até «simpatiza» com Sócrates, explicou então, e a intenção da banda nunca tinha sido a de fazer «um ataque polÃtico directo». E assim, a canção-manifesto definhou antes de levantar voo. E ainda bem, porque ouvi-a duas ou três vezes e pareceu-me uma boa merda.
Hoje, 4 de Dezembro de 2009, o socialista António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e amigo pessoal de Sócrates, entregou à banda a Medalha de Mérito da Cidade Grau de Ouro. É uma escolha que se faz/O passado foi lá atrás. Beijinhos e parabéns.































9 comentários
Os xutos são fantásticos! Grandes recordações…
1987
tenho saudades dos anos 80. A quaÂliÂdade de vida era basÂtante supeÂrior porque era possÃvel viver sem dinheiro.
Já não me lembro como era feito, mas havia sempre uma festa qualquer, uma praia com ondas, uma viagem pela Europa, eu sei lá, fiz tanta coisa que hoje em dia só é possÃvel com fazer com dinheiro. Em cerÂtos aspecÂtos? Era muuuuuuito melhor.
Bons velhos tempos !
os Xutos. Banda egraçadita composta por 4 rapazolas já velhos, comendadores de uma répública onde as comendas sugerem sempre favores ao poder instalado são da minha geração. Infelizmente a minha geração produziu coisas destas. Costumo dizer que se um puto for panahado na rua a fumar um charro, lá começa o calvário das consultas e outros vexames sociais. Aos Xutos, consumidores ou exconsumidores de tudo o que desse alguma moca, não se lhes ouve letra ou palavra para contestar o satatus. Afial eles são comendadores, eles, o Dias loureiro e mais uma catrefada de gente que sempre mamaou nas tetas da vaca. já me esquecia da letra do engenheiro que tanto os ambaraça. Que merda de rock se faz e fez em Portugal.
e de favor em favor
de letrinha em letrinha
o sonho destes rapazes
sempre foi”andar na linha”
Manuel F. C. Almeida
longe vão os tempos dos concertos no rock rendez vous…
ps: porque raio é que apareço com uma imagem de um tipo de tranças ao lado do meu nome?…
Então, Pedro, se calhar meteste um email diferente…
Mas não te fica mal não senhor
Grande história aqui vai, gostei de ler.
)
1987 parece que foi um grande ano…, mas não me lembro de nada!!
(também tinha eu uns meses
alterei o email… vamos lá ver se me desaparece aquele tipo das tranças!
Gostava era que eles fizessem música como dantes, ou então que arrumassem a viola de vez … fazer discos por fazer não está com nada …