Conheci a música de Eric Dolphy através das referências de Frank Zappa. É uma bela forma de conhecer música nova, explorar os caminhos trilhados pelos que já conhecemos e são os nossos preferidos.
Zappa e Dolphy são músicos muito diferentes, mas tinham em comum a mesma adoração pelo compositor Edgar Varèse. Zappa era ainda um adolescente quando pediu, como prenda de aniversário, autorização para fazer uma chamada de longa distância para a casa do Ãdolo com o objectivo de falar sobre música – não o encontrou, mas Varèse enviou-lhe uma carta que guardou religiosamente; Dolphy costumava tocar a peça Density 22.5 nos concertos.
Nas notas do seu disco de estreia com os Mothers of Invention (Freak Out, 1966), Zappa mencionou Dolphy como «um dos músicos que contribuiu para fazer da música dos Mothers aquilo que é». Zappa voltaria a prestar tributo a Eric Dolphy no álbum Weasels Ripped My Flesh, de 1970, com um belÃssimo tema instrumental, The Eric Dolphy Memorial Barbecue.
Há quem veja no uso da palavra barbecue (churrasco) mais um dos habituais (e habitualmente certeiros) sarcasmos de Zappa, desta vez dirigido à quantidade industrial de tributos prestados a Eric Dolphy após a sua morte. Zappa nunca confirmou a intenção sarcástica do tÃtulo, mas devia saber muito bem que este grande músico teve de lidar muitas vezes com a absoluta incompreensão dos crÃticos em relação à sua obra.
Os anos em que tocou na banda de John Coltrane são agora preciosos momentos da história do jazz, mas John Tynan, editor da prestigiada revista Down Beat, não aceitava o tipo de improvisação da dupla Dolphy/Coltrane, considerando que na música do quinteto estava a ser seguido um «curso anarquista» que podia ser considerado «anti-jazz».
Coltrane, um homem reservado e cuidadoso nas palavras, pouco dado a entrevistas, recordou essas crÃticas numa conversa com Frank Kofsky, Professor de História, músico e autor de vários livros sobre Jazz: «Estavam a dizer que não sabÃamos nada sobre música», afirmou. «E magoou-me vê-lo tão magoado com essas crÃticas».
Mesmo nos momentos em que a sua música foi bem recebida pelos crÃticos, Eric Dolphy teve de dar aulas particulares de música para ganhar dinheiro. Também conseguia uma vida financeira mais estável actuando como sideman de outros músicos, como era o caso de Coltrane, já mencionado, mas também de Charles Mingus, em cuja banda foi integrado para uma digressão pela Europa em 1964.

Concluindo que conseguia mais trabalho na Europa do que nos Estados Unidos a tocar a sua própria música, Dolphy deixou-se ficar pela Holanda, onde gravou uma notável sessão imortalizada no álbum Last Date – um tÃtulo enganador, pois pouco tempo depois Dolphy viajou para Paris e gravou mais duas sessões para uma rádio.
Quando chegou a 27 de Junho a Berlim para actuar na inauguração de um novo clube de jazz, o Tangent, já se sentia tão doente que só foi capaz de tocar duas músicas. Dois dias depois, aos 36 anos, morria num hospital da capital alemã.
Dolphy sofria de diabetes e foram as complicações resultantes desta doença que o mataram. A primeira versão do que aconteceu afirma que o músico desmaiou a 28 de Junho no hotel onde estava hospedado, tendo sido internado em coma diabético. A injecção de insulina que lhe foi administrada pelos médicos era mais forte do que as que costumava receber nos Estados Unidos: o choque provocado pela administração deste tipo de insulina acabou por matá-lo.
Anos depois, um documentário refutou esta versão: Dolphy desmaiou em palco e foi conduzido ao hospital; partindo do princÃpio de que o problema era a habitual overdose de drogas dos músicos de jazz, não sabendo que sofria de diabetes, os médicos largaram-no numa cama de hospital à espera que passasse. Acontece que também neste aspecto Dolphy era diferente: rejeitava as drogas e nem sequer bebia álcool.
Talvez o sarcasmo de Zappa faça ainda mais sentido se considerarmos que a mesma revista Down Beat que o rotulou de «músico anti-jazz» haveria de o colocar na sua Hall of Fame no mesmo ano em que morreu.
Um tributo relevante foi prestado por quem lhe atribuiu valor em vida: «Diga o que eu disser seria sempre uma subavaliação», disse Coltrane. «Só posso afirmar que a minha vida se tornou muito melhor por conhecê-lo. Era uma das melhores pessoas que conheci, como homem, amigo e músico».
A mãe de Dolphy ofereceu a John Coltrane a flauta e o clarinete-baixo que o filho comprara na Europa. Coltrane usou-os nos discos e concertos até à data da sua própria morte, em Julho de 1967. A flauta que passou para as mãos de Coltrane voa numa esplendorosa interpretação de um standard de jazz, You Don’t Know What Love Is, retirado do álbum Last Date: aqui temos um músico impossÃvel de esquecer, lÃrico, furiosamente livre, explosivo e imprevisÃvel nos seus solos. Oiçam [Fontes: Eric Dolphy Biography | Wikipedia | ARF: The Eric Dolphy Memorial Barbecue]































4 comentários
Dolphy é um músico inacreditável…
Nunca é demais lembrá-lo.
Out to Lunch e os álbuns com o Mingus são alguns dos meus all time favourites.
É por esta divulgação cultural, que o bitaites é o maior.
ora cá está o que pedia, mais nomes para expandir a cultura do pessoal
*pesquisando material* muito obrigado
Descobri a música de eric dolphy ao fazer a colecção de jazz do público. Deve ter sido o cd que já ouvi mais da colecção toda. Tem qualquer coisa…
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