→ 17/03/2010 @16:23

Os loucos anos do rock português

Os que têm agora vinte, trinta anos, provavelmente ouviram dizer que na década de 80 se deu um fenómeno marcante na música portuguesa: o chamado «boom» do rock português.

Eu sou um bocadinho mais velho e vivi a minha pré-adolescência e adolescência nesses anos loucos do princípio da década de 80, quando as bandas portuguesas dominavam as playlists dos programas de rádio e os tops, eram apoteoticamente recebidas na televisão e absolutamente prioritárias para as editoras, que deitavam cá para fora singles que se vendiam aos milhares em poucas semanas.

Estes eram os tempos em que uma banda podia surgir do nada, vender aos milhares e ao nada regressar – os Grupo de Baile e o single Patchouly, por exemplo, venderam, em 1981, cerca de 99 mil cópias, mas rapidamente perderam a fama e desapareceram.

Embora desde a década de 70 existissem músicos a fazer uma «música moderna portuguesa» – o melhor exemplo disto são os Tantra –, foi no princípio da década de 80, com o sucesso do disco de estreia de Rui Veloso, Ar de Rock, que os media catalogaram estes trabalhos com a sonante e convenientemente abrangente designação de rock português.

A canção de maior sucesso desse disco, Chico Fininho, ajuda a perceber o que havia de novo que tanto cativava as pessoas: músicas bem esgalhadas (no caso de Chico Fininho, um blues/rock acelerado), com letras que falavam de personagens e situações com que nos deparávamos no dia-a-dia.

Isto não é novidade para quem é da minha geração, mas naqueles tempos ainda se vivia um pouco a ressaca do período revolucionário do 25 de Abril. A música portuguesa dessa altura era dominada pelas canções revolucionárias e de cariz político que tínhamos sido impedidos de ouvir durante a ditadura.

Estávamos em plena catarse, compensando o tempo perdido, libertos da obscuridade salazarista sobre a qual a Primavera de Marcelo Caetano lançara apenas uma luz baça, mas aqueles que eram ainda uns miúdos quando se deu a Revolução não tinham desta as mesmas memórias e já estavam noutra.

À medida que fomos crescendo, tínhamos de descobrir em grupos estrangeiros as vivências e os sons com que mais nos identificávamos. A minha geração não queria passar a vida a olhar para trás, precisávamos de cantar o nosso dia-a-dia, ouvir letras que nos descrevessem, com graça, a nossa realidade – e então surgiu um tipo talentoso, Rui Veloso, aliado a um grande letrista, Carlos Tê: juntos, falavam directamente connosco sem dar lições de história contemporânea.

Do nosso dia-a-dia faziam parte não o nobre combatente antifascista que já estávamos cansados de ver celebrado, mas os Chicos Fininhos, Gingando pela rua/Ao som do Lou Reed/Sempre na sua/Sempre cheio de speed/Segue o seu caminho/Com merda na algibeira/O Chico Fininho/O freak da cantareira. Também seríamos capazes de identificar, sem problemas, a típica rapariguinha do shopping/Bem vestida e petulante/Desce pela escada rolante/Com uma revista de bordados/Com um olhar rutilante/E os sovacos perfumados.

Mastiga e deita fora

Findo o período revolucionário, estávamos finalmente a consolidar a nossa Democracia, como dizem os políticos – o que significou, também, o triunfo do consumo desenfreado, dos passeios aos shoppings cantados pelo Rui Veloso.

Tendo em conta a rapidez com que as editoras se preocuparam em explorar o filão do rock português, gravando bandas atrás de bandas só porque aquilo estava na moda e vendia, abandonando-as depois, por já não venderem, não consigo olhar para trás sem ver no espírito desses tempos o que, em 1982, e com enorme sucesso, uma outra banda de ascensão meteórica nos tops cantou: E como tudo o que é coisa que promete/A gente vê como uma chiclete/ Que se prova, mastiga e deita fora, sem demora/Como esta música é produto acabado/Da sociedade de consumo imediato/Como tudo o que se promete nesta vida, Chiclete.

Os Táxi eram a minha banda preferida desses tempos. Com este tema, Chiclete, fizeram o devido ponto da situação, um ano depois de Rui Veloso ter explodido no mercado. O seu LP de estreia vendeu mais de 70 mil exemplares e passou a ser conhecido como o primeiro disco de ouro do rock português. Só muitos anos depois se assistiria a um fenómeno de popularidade semelhante associado a um disco de estreia, quando Pedro Abrunhosa apareceu, no auge do cavaquismo. Nem o primeiro de Rui Veloso, Ar de Rock, tinha conseguido tanto.

Tal como muitas outras bandas, também o sucesso dos Táxi foi efémero.

17 comentários

  • 1
    Tiago V
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    17 de Março de 2010 - 17:14 | Link permamente

    Não consigo entender qual a piada que vêm no chamado “pai” do rock portugues.
    Se piada houve, morreu com chico fininho, hoje em dia ouvir o ruizinho é melhor que tomar um comprimido para dormir. É tomar um comprimido que isso passa.

  • 2
    Filipe
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    17 de Março de 2010 - 17:25 | Link permamente

    Tiago V.,
    é a tua opínião nada mais.

  • 3
    com Opera 10.10 Opera 10.10 em GNU/Linux GNU/Linux
    17 de Março de 2010 - 19:00 | Link permamente

    Só por causa de terem referido a do pai do rock português, deixo aqui uma citação do José Cid:

    Se o Rui Veloso é o pai do rock português, eu sou a mãe.

    E por falar no Zé Cid, este disco é dos poucos da música portuguesa que acho que se aproveitam.

    Mas claro nesses anos saíram umas boas doses de singles jeitosos, se bem que já mencionaste as três grandes músicas do rock português, pelo menos a nível de popularidade.

  • 4
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    17 de Março de 2010 - 20:31 | Link permamente

    Então e Peste & Sida? :P :D

    • 5
      com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows 7 Windows 7
      17 de Março de 2010 - 23:59 | Link permamente

      João, reparaste que a seguir ao título do post vem um [1], certo? ;)
      Ainda mal comecei…

  • 6
    Carlos
    com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows XP Windows XP
    17 de Março de 2010 - 23:30 | Link permamente

    O Rui Veloso é um grande senhor da música em Portugal. Não consegue fazer álbuns maus e tem uma quantidade enorme de músicas que está no ouvido de quem gosta de boa música.
    Gosto imenso de música portuguesa ou cantada em português.
    O Rui Veloso é muito bom, assim como Jorge Palma, Sérgio Godinho, Ornatos Violeta, Clã, Mariza, José Afonso, Fausto, Camané, Da Weasel… ficando muitas bandas por mencionar.
    Apreciem música e entendam as letras, porque a música boa é intemporal, não é um hit de Verão.

    Um abraço a quem gosta de boa música

  • 7
    com Firefox 3.5.8 Firefox 3.5.8 em Windows XP Windows XP
    18 de Março de 2010 - 00:05 | Link permamente

    Por acaso não tinha reparado Marco, vou ficar atento :P

  • 8
    Mestre Slip
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    18 de Março de 2010 - 01:38 | Link permamente

    Apreciem música e entendam as letras, porque a música boa é intemporal, não é um hit de Verão.

    É pena cada vez mais as pessoas confundirem as duas coisas. E sem sinais de melhoras. :|

  • 9
    Tiago V
    com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows XP Windows XP
    18 de Março de 2010 - 09:58 | Link permamente

    Filipe, se é a MINHA opinião para mim já é muito.

  • 10
    RD
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    18 de Março de 2010 - 10:08 | Link permamente

    @Miguel Guerreiro, já tenho ouvido falar desse disco do Zé Cid, mas nunca consegui encontrar algum sitio da net onde desse para escutar, por acaso conheces algum?

    tks

  • 11
    Filipe
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    18 de Março de 2010 - 10:32 | Link permamente

    Tiago V,
    Nada disse que contrarie aquilo que disseste. Continua a ser para ti.

  • 12
    com Safari 4.0.5 Safari 4.0.5 em Mac OS X 10.5.8 Mac OS X 10.5.8
    18 de Março de 2010 - 11:58 | Link permamente

    Ora aqui está algo que será muito interessante de seguir…
    Vai dar pano para mangas.

    Já estou aqui a cantarolar:
    “Quem és tu Zé Gaaatooo?
    O que é que tu vais fazer?”

    e o louco
    “Tony…. meu nome é Tony Silva!
    Sou el grande…”

  • 13
    Tiago V
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    18 de Março de 2010 - 15:29 | Link permamente

    Ai quando a cabeça não tem juizo o corpo é que paga …

  • 14
    Filipe
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    18 de Março de 2010 - 16:08 | Link permamente

    “Muita parra, pouca uva.”

  • 15
    com Internet Explorer 8.0 (Compatibility Mode) Internet Explorer 8.0 (Compatibility Mode) em Windows XP Windows XP
    18 de Março de 2010 - 16:24 | Link permamente

    Rui Veloso foi um alívio para a segunda geração em França que não se reconhecia nem se reconhece no fado. O que não quer dizer que este género não seja de qualidade.

    Autores como Zeca Afonso , por exemplo , são catalogados como trovadores e ocupam um espaço diferente.

    Algumas canções de Rui Veloso expressam bem a transformação sem alicerces ( estou a pensar no urbanismo ) da sociedade Portuguesa . Acho que a letra de “Beirã” é fantástica.

    Surgirão outros grupos ( gnr , … ) . Todavia penso que foi preciso esperar Pedro Abrunhosa para que acontecesse o mesmo fenómeno em França, mas desta vez com… a terceira geração.

    Nuno

  • 16
    com Opera 10.10 Opera 10.10 em GNU/Linux GNU/Linux
    18 de Março de 2010 - 16:48 | Link permamente

    RD, podes ouvir todo o álbum no Youtube, segue o Link.

  • 17
    RD
    com Firefox 3.6 Firefox 3.6 em Windows 7 Windows 7
    18 de Março de 2010 - 22:14 | Link permamente

    Já estive a ouvir, muito bom mesmo, é pena como a busca do sucesso monetário corta a criatividade de um artista.

    Obrigado Miguel.

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