Quando era puto e sofria das insónias, não me dava para contar carneirinhos – a Matemática nunca foi o meu forte.
Em vez disso, fazia de conta que a minha cama era uma nave espacial e viajava pelo Sistema Solar, flutuando sobre todas aquelas maravilhosas fotografias de luas e planetas que eu via no enorme Atlas do Reader’s Digest que tinha lá em casa dos meus pais.
A cama voava e acelerava sem qualquer sistema de propulsão, é verdade, mas tirando este pequeno pormenor de engenharia mecânica fazia sempre questão de comandar estes sonhos da maneira mais rigorosa possível.
Portanto não havia cá desses milagrosos «saltos quânticos» ou sistemas de teletransporte à Star Trek, tá bem tá
se quisesse levar a minha cama até Júpiter tinha de o fazer à maneira antiga, à custa de trabalho duro, embarcando numa longa e penosa jornada que me levaria a passar primeiro pelo planeta dos marcianos, depois pela cintura dos berlindes até finalmente enfrentar aquela manta negra que ocupa todo o espaço até ao reino do gigante gasoso.
Devo dizer que gigantes gasosos como Júpiter, Saturno ou Neptuno provocavam-me alguns embaraços de natureza astronomico-existencial porque eu mal aprendera a ler, pouco sabia além dos bonecos, e a minha avô ajudara a estabelecer uma associação pavloviana entre o som que o adulto faz quando se solta, desprevenido, e expressões como «Ai que horror estou outra vez cheia de gases»
e eu pensava, genuinamente preocupado, «pobre Júpiter, pobre Saturno, pobre Neptuno, que são ainda maiores e mais velhos e mais gasosos que a minha avó».
Acho que adormecia sempre antes de chegar a Júpiter e verificar a minha secreta teoria da tumultuosa existência dos peidos planetários, pelo que em noites de maior ansiedade tive de ceder cientificamente e aceitar dois factos muito simples
primeiro – uma cama capaz de voar pelo Espaço também é capaz de se teletransportar para o destino cósmico que mais desejar, é escusado fazer-se de esquisita;
segundo – o Atlas do Reader’s Digest fala em distâncias, diâmetros e temperaturas muito detalhadamente, mas nada refere sobre pums jupiterianos.
A minha cama nunca mais voltou a voar e confesso que tenho saudades desses tempos. Recordo-os como preciosos momentos de imaginação primordial, ou seja, quando não nos preocupa a qualidade do que imaginamos e apenas nos interessa a intensidade com que imaginamos. Acho que os artistas mantém essa característica primordial e é por isso que lhes chamamos artistas.
E depois deparo-me com estas ilustrações de Ron Miller que nos levam a lugares distantes do Sistema Solar e até da nossa galáxia, e convenço-me de que a cama dele ainda consegue voar — maravilhosa descoberta, porque até ao fim da minha vida sentirei que faz sentido viajar dessa forma. Carl Sagan chamou à sua cama voadora «a nave da imaginação». Seja qual for o nome do veículo que Ron Miller utiliza, o homem não cessa de viajar…
Podia pendurar duas ou três ilustrações dele no meu quarto e adormeceria em paz, num suave reencontro com a minha infância e os sonhos astronómicos; um quadro de Goya seria incomparavelmente melhor e mais valioso do que qualquer ilustração de Miller, mas deixar-me-ia inquieto.
E hoje eu preciso de paz.

















Marco,
Peço desde já desculpa se perturbo a tua merecida paz, mas assumo que queiras corrigir o teu texto, onde está «e a minha avô ajudara-me».
Se a minha assumpção é errada, reforço então o pedido de desculpas.
Aproveito e partilho:
Quando era puto e sofria das insónias, não me dava para contar carneirinhos – a Matemática sempre foi o meu forte.
Cantarolava mentalmente a tabuada e mais tarde, já na adolescência, acendia o candeeiro da secretária discretamente (para evitar os ralhetes dos pais preocupados) e entretinha-me a resolver os exercícios de Matemática dos livros escolares.
No dia seguinte entregava, com o meu ar arrogante, a errata das soluções à professora.
Como boa professora que era, raramente aceitou essas erratas sem verificar ela própria que estavam de facto erradas.
Eventualmente cansou-se, depois de me aturar durante 3 anos, e por uma vez ou outra, lá foi avisando a turma que havia hipótese das soluções estarem erradas; caso tivessem dúvidas, que falassem com ela.
Quem sabe, sabe. A última vez que a minha irmã (mais nova) me acusou de ter a mania que sou esperto, acabou com a minha resposta verdadeira e crua:
“A diferença entre nós é que eu tenho a mania que sou esperto e sou. Tu tens a mania que és esperta, mas não és.“
Nesta altura, as suas notas escolares não eram grande espingarda, mas acabou por se safar muito bem!
Enfim, quezílias de irmãos à parte, a Matemática encantou-me e encanta-me talvez porque não deixa espaço para mentiras nem batotas.
Representa, para mim, a verdade absoluta.
Saudações
P.S.
Espero que este meu P.S. não cause tanta polémica como o anterior…
Os anéis de Saturno sempre foram os que mais me impressionaram.
E todas estas imagens aqui apresentadas permitem-nos, a nós seres sedentos de conhecimento, continuar a sonhar.
Obrigado pela correção (e pela partilha), Sandro.