→ 05/10/2011 @3:40

A cama voadora de Ron Miller

Ron Miller ob­serva os anéis a par­tir da tro­pos­fera de Saturno

Quando era puto e so­fria das in­só­nias, não me dava para con­tar car­nei­ri­nhos – a Matemática nunca foi o meu forte.

Em vez disso, fa­zia de conta que a mi­nha cama era uma nave es­pa­cial e vi­a­java pelo Sistema Solar, flu­tu­ando so­bre to­das aque­las ma­ra­vi­lho­sas fo­to­gra­fias de luas e pla­ne­tas que eu via no enorme Atlas do Reader’s Digest que ti­nha lá em casa dos meus pais.

A cama vo­ava e ace­le­rava sem qual­quer sis­tema de pro­pul­são, é ver­dade, mas ti­rando este pe­queno por­me­nor de en­ge­nha­ria me­câ­nica fa­zia sem­pre ques­tão de co­man­dar es­tes so­nhos da ma­neira mais ri­go­rosa possível.

Portanto não ha­via cá des­ses mi­la­gro­sos «sal­tos quân­ti­cos» ou sis­te­mas de te­le­trans­porte à Star Trek, tá bem tá

se qui­sesse le­var a mi­nha cama até Júpiter ti­nha de o fa­zer à ma­neira an­tiga, à custa de tra­ba­lho duro, em­bar­cando numa longa e pe­nosa jor­nada que me le­va­ria a pas­sar pri­meiro pelo pla­neta dos mar­ci­a­nos, de­pois pela cin­tura dos ber­lin­des até fi­nal­mente en­fren­tar aquela manta ne­gra que ocupa todo o es­paço até ao reino do gi­gante gasoso.

Devo di­zer que gi­gan­tes ga­so­sos como Júpiter, Saturno ou Neptuno provocavam-me al­guns em­ba­ra­ços de na­tu­reza astronomico-existencial por­que eu mal apren­dera a ler, pouco sa­bia além dos bo­ne­cos, e a mi­nha avô aju­dara a es­ta­be­le­cer uma as­so­ci­a­ção pa­vlo­vi­ana en­tre o som que o adulto faz quando se solta, des­pre­ve­nido, e ex­pres­sões como «Ai que hor­ror es­tou ou­tra vez cheia de ga­ses»

e eu pen­sava, ge­nui­na­mente pre­o­cu­pado, «po­bre Júpiter, po­bre Saturno, po­bre Neptuno, que são ainda mai­o­res e mais ve­lhos e mais ga­so­sos que a mi­nha avó».

Acho que ador­me­cia sem­pre an­tes de che­gar a Júpiter e ve­ri­fi­car a mi­nha se­creta te­o­ria da tu­mul­tu­osa exis­tên­cia dos pei­dos pla­ne­tá­rios, pelo que em noi­tes de maior an­si­e­dade tive de ce­der ci­en­ti­fi­ca­mente e acei­tar dois fac­tos muito simples

pri­meiro – uma cama ca­paz de voar pelo Espaço tam­bém é ca­paz de se te­le­trans­por­tar para o des­tino cós­mico que mais de­se­jar, é es­cu­sado fazer-se de esquisita;

se­gundo – o Atlas do Reader’s Digest fala em dis­tân­cias, di­â­me­tros e tem­pe­ra­tu­ras muito de­ta­lha­da­mente, mas nada re­fere so­bre pums jupiterianos.

A mi­nha cama nunca mais vol­tou a voar e con­fesso que te­nho sau­da­des des­ses tem­pos. Recordo-os como pre­ci­o­sos mo­men­tos de ima­gi­na­ção pri­mor­dial, ou seja, quando não nos pre­o­cupa a qua­li­dade do que ima­gi­na­mos e ape­nas nos in­te­ressa a in­ten­si­dade com que ima­gi­na­mos. Acho que os ar­tis­tas man­tém essa ca­rac­te­rís­tica pri­mor­dial e é por isso que lhes cha­ma­mos artistas.

E de­pois deparo-me com es­tas ilus­tra­ções de Ron Miller que nos le­vam a lu­ga­res dis­tan­tes do Sistema Solar e até da nossa ga­lá­xia, e convenço-me de que a cama dele ainda con­se­gue voar — ma­ra­vi­lhosa des­co­berta, por­que até ao fim da mi­nha vida sen­ti­rei que faz sen­tido vi­a­jar dessa forma. Carl Sagan cha­mou à sua cama vo­a­dora «a nave da ima­gi­na­ção». Seja qual for o nome do veí­culo que Ron Miller uti­liza, o ho­mem não cessa de viajar…

A grande man­cha ver­me­lha de Júpiter

Os gay­sers em Encélado, lua de Saturno…

… e em Tritão, a maior lua de Neptuno

O nas­cer do Sol em Mercúrio

As nu­vens de Neptuno

A Super-Terra ha­bi­tá­vel or­bi­tando a es­trela Gliese 370

Podia pen­du­rar duas ou três ilus­tra­ções dele no meu quarto e ador­me­ce­ria em paz, num su­ave re­en­con­tro com a mi­nha in­fân­cia e os so­nhos as­tro­nó­mi­cos; um qua­dro de Goya se­ria in­com­pa­ra­vel­mente me­lhor e mais va­li­oso do que qual­quer ilus­tra­ção de Miller, mas deixar-me-ia inquieto.

E hoje eu pre­ciso de paz.

 

2 comentários

  1. Marco,
    Peço desde já des­culpa se per­turbo a tua me­re­cida paz, mas as­sumo que quei­ras cor­ri­gir o teu texto, onde está «e a mi­nha avô ajudara-me».
    Se a mi­nha as­sump­ção é er­rada, re­forço en­tão o pe­dido de desculpas.

    Aproveito e par­ti­lho:
    Quando era puto e so­fria das in­só­nias, não me dava para con­tar car­nei­ri­nhos – a Matemática sem­pre foi o meu forte.
    Cantarolava men­tal­mente a ta­bu­ada e mais tarde, já na ado­les­cên­cia, acen­dia o can­de­eiro da se­cre­tá­ria dis­cre­ta­mente (para evi­tar os ra­lhe­tes dos pais pre­o­cu­pa­dos) e entretinha-me a re­sol­ver os exer­cí­cios de Matemática dos li­vros es­co­la­res.
    No dia se­guinte en­tre­gava, com o meu ar ar­ro­gante, a er­rata das so­lu­ções à pro­fes­sora.
    Como boa pro­fes­sora que era, ra­ra­mente acei­tou es­sas er­ra­tas sem ve­ri­fi­car ela pró­pria que es­ta­vam de facto er­ra­das.
    Eventualmente cansou-se, de­pois de me atu­rar du­rante 3 anos, e por uma vez ou ou­tra, lá foi avi­sando a turma que ha­via hi­pó­tese das so­lu­ções es­ta­rem er­ra­das; caso ti­ves­sem dú­vi­das, que fa­las­sem com ela.

    Quem sabe, sabe. A úl­tima vez que a mi­nha irmã (mais nova) me acu­sou de ter a ma­nia que sou es­perto, aca­bou com a mi­nha res­posta ver­da­deira e crua:
    “A di­fe­rença en­tre nós é que eu te­nho a ma­nia que sou es­perto e sou. Tu tens a ma­nia que és es­perta, mas não és.“
    Nesta al­tura, as suas no­tas es­co­la­res não eram grande es­pin­garda, mas aca­bou por se sa­far muito bem!

    Enfim, que­zí­lias de ir­mãos à parte, a Matemática encantou-me e encanta-me tal­vez por­que não deixa es­paço para men­ti­ras nem ba­to­tas.
    Representa, para mim, a ver­dade absoluta.

    Saudações

    P.S.
    Espero que este meu P.S. não cause tanta po­lé­mica como o an­te­rior…
    Os anéis de Saturno sem­pre fo­ram os que mais me im­pres­si­o­na­ram.
    E to­das es­tas ima­gens aqui apre­sen­ta­das permitem-nos, a nós se­res se­den­tos de co­nhe­ci­mento, con­ti­nuar a sonhar.

    • Obrigado pela cor­re­ção (e pela par­ti­lha), Sandro.