→ 01/06/2011 @9:51

E a montanha pariu um ET

O caso é sé­rio e Jean-Pierre Delord, pre­feito da co­muna fran­cesa de Bugarach, 194 ha­bi­tan­tes, anda preocupado.

Bugarach é um re­tiro ru­ral si­tu­ado no su­do­este de França, perto da fron­teira com Espanha, um lu­ga­rejo se­reno de pes­soas se­re­nas, mas Jean-Pierre, o pre­feito pre­o­cu­pado, tendo ob­ser­vado o que se está a pas­sar à sua volta e o que se pas­sará a se­guir, já pensa em cha­mar o exér­cito para pro­te­ger a vila.

Jean-Pierre con­si­dera por­tanto que a única ma­neira de tra­tar do grave pro­blema que a co­mu­ni­dade en­frenta será er­guer uma bar­reira que im­peça a en­trada do mundo. Uma obra de in­te­resse pú­blico, disso não du­vida, trans­for­mar Bugarach numa es­pé­cie de al­deia gau­lesa onde to­dos os dias se bebe a po­ção do sos­sego e do bom senso e se re­siste, sem­pre e sem­pre, ao invasor.

 

A grande invasão

Jean-Pierre Delord e, ao fundo, um monte de preocupações

Os «ro­ma­nos» de Jean-Pierre são os ado­ra­do­res de OVNI’s e os que acre­di­tam – via ca­len­dá­rio Maia, pro­fe­cias de Nostradamus ou ou­tra ex­tra­va­gante fan­ta­sia – que o pla­neta Terra ter­mi­nará ofi­ci­al­mente as suas fun­ções a 21 de de­zem­bro de 2012.

Por ra­zões que o pre­feito pre­fere nem apro­fun­dar, uns e ou­tros convenceram-se de que a mon­ta­nha em cujo sopé foi sendo cons­truída a vila – o pico de Bugarach – al­berga no seu in­te­rior uma «ga­ra­gem de OVNI’s».

Tivesse ape­nas de li­dar com essa his­tó­ria ab­surda da ga­ra­gem es­pa­cial sub­ter­râ­nea e as coi­sas es­ta­riam sob con­trole – o pro­blema, apoquenta-se o se­nhor Jean-Pierre, é a quan­ti­dade as­tro­nó­mica de «lu­ná­ti­cos» do ano 2012 con­ven­ci­dos de que aquela «mon­ta­nha sa­grada» é o único sí­tio que os pro­te­gerá do ca­ta­clismo final.

A mon­ta­nha ergue-se so­bre mui­tos sé­cu­los de his­tó­ria, disso nin­guém du­vida, em­bora a his­tó­ria pouco te­nha de sa­grado. Bugarach está si­tu­ada na re­gião dos cas­te­los cá­ta­ros, úl­timo re­fú­gio dos «bons ho­mens» e «boas mu­lhe­res» que pre­ga­vam o catarismo.

O ca­ta­rismo foi um mo­vi­mento cris­tão ini­ci­ado no fi­nal do sé­culo XI e que so­bre­vi­veu até me­a­dos do sé­culo XIV. Os cá­ta­ros pre­ga­vam a vida sim­ples e re­grada, des­po­jada de quais­quer bens ma­te­ri­ais, pois con­si­de­ra­vam o mundo dos ho­mens um lo­cal cor­rupto; os al­tos sa­cer­do­tes an­da­vam sem­pre pe­las ruas aos pa­res, pre­gando e aju­dando os ha­bi­tan­tes sem co­brar um vin­tém. Eram po­pu­la­res e bem acei­tes até pe­los ca­tó­li­cos — a Igreja sen­tiu o seu po­der ame­a­çado por es­tes mon­ges e considerou-os he­ré­ti­cos. Estabeleceram-se tri­bu­nais da Inquisição e ten­ta­ti­vas for­ça­das de reconversão.

Como es­tas me­di­das não pro­du­zi­ram gran­des re­sul­ta­dos, criou-se uma ali­ança que le­va­ria a Cruzada ao sul de França: a co­roa de­se­java apoderar-se das ri­que­zas dos no­bres lo­cais e for­ta­le­cer o seu do­mí­nio na re­gião; a Igreja mais ou me­nos a mesma coisa, em­bora a um ní­vel mais es­pi­ri­tual. Os sa­cer­do­tes cá­ta­ros e as po­pu­la­ções con­ver­ti­das aca­ba­ram por de­sa­pa­re­cer na po­eira dos séculos.

 

A mon­ta­nha mágica

O se­nhor Jean-Pierre não sabe ao certo por que ra­zão tanta gente con­si­dera que os ha­bi­tan­tes de Bugarach vi­vem no sopé de uma mon­ta­nha má­gica com mais de 1230 me­tros de al­tura, mas des­con­fia que, em parte, a culpa é da pró­pria mon­ta­nha, ge­o­lo­gi­ca­mente bi­zarra, com as ro­chas mais an­ti­gas no topo e as mais re­cen­tes na base, re­pleta de gru­tas inex­plo­ra­das e ex­cên­tri­cos magnetismos.

Os ha­bi­tan­tes de Bugarach sa­bem que a mon­ta­nha tem de facto um mag­ne­tismo pró­prio que pro­voca um certo «bem-estar» às pes­soas, mas isto não é de todo uma cren­dice, tais vi­bra­ções po­si­ti­vas es­tão ci­en­ti­fi­ca­mente de­mons­tra­das, em­bora se­jam di­fí­ceis de ex­pli­car por A mais B.

O al­caide da co­muna re­corda, sem dis­far­çar um certo or­gu­lho, que foi de­pois de dar um re­con­for­tante pas­seio pela mon­ta­nha que Júlio Verne se lem­brou de es­cre­ver «Viagem ao Centro da Terra» e que Steven Spielberg en­con­trou ins­pi­ra­ção para re­a­li­zar «Encontros Imediatos do 3º Grau».

Incompreensíveis são os bo­a­tos se­gundo os quais os te­sou­ros que os tem­plá­rios ar­re­ba­nha­ram nas ará­bias es­tão se­cre­ta­mente es­con­di­dos na mon­ta­nha, in­cluindo o Santo Graal; os que di­zem que a Arca an­ti­di­lu­vi­ana que sal­vará a Humanidade da ca­tás­trofe tam­bém está lá; a his­tó­ria dos OVNI’s, que deu ori­gem a múl­ti­plas cons­pi­ra­ções en­vol­vendo os ser­vi­ços se­cre­tos dos EUA e de Israel, vi­a­gens se­cre­tas de he­li­cóp­tero do pre­si­dente fran­cês Mitterrand, proi­bi­ção de cir­cu­la­ção aos aviões ci­vis, en­fim, a po­bre mon­ta­nha tre­sanda a Área 51 e ao suor dos ex­tra­ter­res­tres de Roswell, e é ex­plo­rada por gente que gosta de usar o cha­péu do Indiana Jones.

Como che­ga­ram os ca­tas­tro­fis­tas à con­clu­são de que a mon­ta­nha os sal­vará, o pre­feito não sabe nem quer sa­ber; culpa a Internet e o seu gran­di­oso po­der para dis­se­mi­nar disparates.

O que o deixa hor­ro­ri­zado e a fa­zer con­tas ao fu­turo da vila é cons­ta­tar a ali­ança es­pi­ri­tual for­jada no sopé do pico de Bugarach en­tre ado­ra­do­res de OVNI’s, adep­tos da tre­ta­to­lo­gia new age e ca­tas­tro­fis­tas do fim do mundo: não bas­tava a mon­ta­nha ter pro­pri­e­da­des má­gi­cas e ser um co­vil de ex­tra­ter­res­tres; agora já se diz que será essa pan­di­lha dos dis­cos vo­a­do­res a sal­var uns quan­tos hu­ma­nos da des­trui­ção total.

Se a mon­ta­nha não vai ao ca­tas­tro­fista, o ca­tas­tro­fista vai à mon­ta­nha; se o ca­tas­tro­fista vai à mon­ta­nha re­zar aos ET’s, au­men­tará as pos­si­bi­li­da­des de cair nas gra­ças dos an­jos tec­no­ló­gi­cos que mon­ta­ram o es­ta­miné in­ter­ga­lác­tico no seu interior.

Como con­sequên­cia, ado­ra­do­res e ca­tas­tro­fis­tas en­di­nhei­ra­dos mais uns quan­tos se­gui­do­res de cul­tos pa­gãos, vin­dos de vá­rias par­tes do mundo, an­dam a com­prar ter­re­nos e pro­pri­e­da­des ao preço da uva mi­jona e a ins­ta­lar um gra­nel new age como nunca se viu na­quela zona. Bugarach está cheia de bu­gi­ganga esotérica.

Contam os ha­bi­tan­tes da vila que al­guns des­ses fo­ras­tei­ros che­gam a fa­zer umas dan­ças sem qual­quer roupa no pelo, sabem-no bem por­que lá de baixo se vis­lum­bram uns cu­zi­nhos tão pá­li­dos que até me­tem dó, se caís­sem mon­ta­nha abaixo al­guém os po­de­ria con­fun­dir com flo­cos de neve e pen­sar que o Inverno che­gara mais cedo; nin­guém tem nada de me­ter o na­riz nas par­tes pri­va­das dos ou­tros mas, por amor da santa

sabe-se lá em nome de quê e com que pro­pó­sito an­dam para ali agora aque­las al­mi­nhas a fa­zer nu­dismo de montanha.

Jean-Pierre ga­rante que o as­sunto não tem pi­ada ne­nhuma. Sendo as­sim – re­pete, de­ter­mi­nado -, cha­mará o exér­cito para im­pe­dir mais in­va­sões e sal­var os na­ti­vos do caos e da desordem.

Só em 2009, a co­muna re­ce­beu 10 mil vi­si­tan­tes eso­té­ri­cos; em 2010, vi­e­ram 20 mil; nos pri­mei­ros me­ses deste ano, res­mas de mi­lha­res. Na ima­gi­na­ção do pre­o­cu­pado pre­feito, mi­lhões de ta­ra­dos e con­ver­ti­dos deslocar-se-ão em di­re­ção a Bugarach à me­dida que a data do fim se apro­xi­mar; hor­ro­ri­zado, o al­caide an­tevê a ru­tura do fi­nís­simo te­cido so­cial e eco­nó­mico da vila – dito de ou­tra forma, an­te­cipa o fim do mundo tal e qual o co­nhe­ceu até agora.

Apocalipsis 2012: Bugarach, Francia, el único lu­gar a salvo | French vil­lage which will ‘sur­vive 2012 Armageddon’ pla­gued by vi­si­tors | Bugarach: the mys­tery sur­roun­ding the vil­lage | Catarismo (Wikipédia)

 

11 comentários

  1. Tome M. — 01/06/2011 @9:58 (35 comentários)

    WoW! Excelente post!

  2. :-) Tento en­qua­drar isso numa das aven­tu­ras do Blake & Mortimer, onde os ti­pos da Atlântida es­ta­vam es­con­di­dos sob a ilha de São Miguel, fu­gindo de­pois para o es­paço nas suas na­ves es­pa­ci­ais, atra­vés da Lagoa das 7 Cidades. Afinal ali ha­via uma “Garagem de OVNIS” e nin­guém co­me­çou a fa­zer ro­ma­rias para junto da Lagoa, dan­çando em pe­lota en­quando aguar­da­vam que o co­zido fi­casse pronto.

    Uma coisa é certa, se vier a tal onda de 50Km, que re­fe­riste num ou­tro post, não será esse ca­ga­nito de mon­ta­nha que os irá sal­var. E du­vido muito que nessa ga­ra­gem abram as por­tas a ti­pos com «cu­zi­nhos tão pá­li­dos que até me­tem dó».

    Assustador é pen­sar que his­te­ria de al­guns seja ga­lo­pante até 21.12.2012

  3. J.C.Lopes — 01/06/2011 @12:16 (113 comentários)

    O gajo, des­cul­pem a ex­pres­são, se fosse es­perto, apro­vei­tava mas era a vinda de tanta gente, entenda-se lu­ná­ti­cos, para di­na­mi­zar o co­mér­cio lo­cal. Montava ali umas bar­ra­qui­nhas, ven­dia uns sou­ve­nirs, de acordo com o as­sunto, tipo Fátima, e po­dia apro­vei­tar tam­bém para ar­ran­jar um es­tra­ta­gema para ven­der uns bi­lhe­tes para o pes­soal po­der safar-se nos ov­nis, an­tes do tal Fim do Mundo.

    De cer­teza que ha­ve­ria muito lu­ná­tico dis­posto a comprar.

  4. Chuck — 01/06/2011 @14:21 (27 comentários)

    Uma pes­soa ao ver isto é mesmo obri­gada a pen­sar que o mundo está per­dido :mrgreen:

    Já agora, Marco pode-me di­zer qual é o plu­gin de posts re­la­ci­o­na­dos que usa sff?

    • Olá, Chuck. Trata-me por tu.

      Eu não uso ne­nhum plu­gin, es­tou a ten­tar re­du­zir ao má­ximo o nú­mero de plu­gins que uso e subs­ti­tuir por có­digo que in­cor­poro no tema.
      A ver se eu me lem­bro onde fui bus­car o có­digo, de­pois meto aqui o link :)

      (Não con­se­gui me­ter aqui o có­digo como deve ser)

    • Chuck — 01/06/2011 @22:10 (27 comentários)

      Ok ok, :D

      en­tão podes-me man­dar o có­digo para o mail sff? Deves ter acesso a ele nos co­men­tá­rios não? Para não o es­tar a me­ter por aqui.… obrigado.

    • Já man­dei. :)

  5. Filipe — 01/06/2011 @18:31 (1 comentário)

    Agora fi­quei de­cep­ci­o­nado Marco :(

    http://www.odditycentral.com/pics/bugarach-the-fr

    • @Filipe
      Ora en­tão porquê?
      Afinal o mundo não vai aca­bar? :P

  6. Pedro — 29/06/2011 @16:55 (391 comentários)

    Eu te­nho esse li­vro :D “Curiosamente” os aço­ri­a­nos eram uma es­pé­cie de mar­ro­qui­nos com fato de cam­pino… :P O Edgar P. Jacobs de­via ter feito mais pes­quisa, tal como fa­zia o seu grande in­flu­en­ci­a­dor, Hergé.

  7. Pedro — 29/06/2011 @16:56 (391 comentários)

    Cada vez mais acho iró­nico ha­ver tanta de­sin­for­ma­ção e es­tu­pi­dez na cha­mada “era da informação”



Comentar via Facebook