→ 24/08/2011 @4:13

É melhor não expelirmos lava pelo rabo

Roy A. Gallant

Somos um bo­ca­di­nho ma­lu­cos quando re­sol­ve­mos ima­gi­nar vi­das ex­tra­ter­res­tres – mesmo quando a in­ten­ção é brin­car com o conceito.

Esta ado­rá­vel cri­a­tura vive em Vénus – chama-se Oucher-poucher e é fruto da ima­gi­na­ção de Roy A. Gallant, que pu­bli­cou em 1995 – quando Plutão ainda era um pla­neta –  um li­vro de Astronomia cha­mado National Geographic Picture Atlas of Our Universe, com in­for­ma­ções so­bre o Cosmos di­ri­gi­das aos mais novos.

Um dos ca­pí­tu­los chamava-se «What If…» e era um exer­cí­cio ima­gi­na­tivo e bem-humorado de como se­riam as for­mas de vida nos ou­tros pla­ne­tas do Sistema Solar – se tais vi­das exis­tis­sem, claro.

E as­sim vol­ta­mos aos ado­rá­veis Oucher-poucher Ouch sig­ni­fica ai, pou­cher é um ape­lido ame­ri­cano e pouch quer di­zer bolsa.

Explica o au­tor que o ai ai ai do nome pre­tende imi­tar o som que es­tes bi­chos pro­du­zem sem­pre que os ra­bos to­cam na su­per­fí­cie sobre-aquecida de Vénus. Esqueçam o co­mi­lão que se ban­que­teia com os res­tos da sonda so­vié­tica Venera e re­pa­rem na ex­pres­são do­lo­rosa da cri­a­tura em se­gundo plano.

Tem toda a ra­zão, o pe­queno Oucher-poucher.

Imagino que num dia ex­cep­ci­o­nal­mente frio em Vénus a tem­pe­ra­tura desça aos 400 graus. Uma mãe-galinha ve­nu­si­ana di­ria en­tão ao seu fi­lho «Se vais lá para fora veste um ca­saco», mas nós fi­ca­ría­mos trans­for­ma­dos numa tor­ra­di­nha de man­teiga em dois segundos.

E como o pla­neta de­mora mais tempo a ro­dar so­bre si pró­prio (243 dias ter­res­tres) do que a com­ple­tar uma ór­bita à volta do Sol (224 dias), um dia ve­nu­si­ano é mais longo do que um ano.

(Por um lado não deixa de ser uma van­ta­gem in­te­res­sante: ima­gi­nem re­ce­ber o sub­sí­dio de fé­rias an­tes do al­moço e o sub­sí­dio de Natal logo a se­guir ao jan­tar. Todos os dias).

O au­tor da ilus­tra­ção as­sume que o es­paço en­tre as ná­de­gas des­tes ve­nu­si­a­nos se­gue os mes­mos prin­cí­pios bi­o­ló­gi­cos que nós. Sendo as­sim, a ener­gia ne­ces­sá­ria para sal­tar é ob­tida ex­pe­lindo lava pelo rego –  en­fim, não basta ser ex­tra­ter­res­tre: há que parecê-lo.

 

Vénus, esse pa­raíso tropical

Um dia tí­pico em Vénus

As apa­rên­cias ilu­dem – e a ex­pres­são tanto se aplica às pes­soas como aos planetas.

Vénus sem­pre foi visto como um planeta-irmão: tem um di­â­me­tro ape­nas 650 qui­ló­me­tros mais pe­queno do que a Terra e está a 108 mi­lhões de qui­ló­me­tros de dis­tân­cia do Sol – mais perto 41 mi­lhões de qui­ló­me­tros do que nós.

(São dis­tân­cias mé­dias: a ór­bita da Terra é elíp­tica, tal como a da ge­ne­ra­li­dade dos cor­pos ce­les­tes; por­tanto às ve­zes está mais perto do Sol e ou­tras mais longe. No caso da Terra a va­ri­a­ção é mí­nima, não chega à meia-dúzia de mi­lhões de quilómetros.

Quando está mais pró­ximo do Sol, diz-se que está no pe­rié­lio; quanto está mais longe, diz-se afé­lio. Da pró­xima vez que es­ti­ve­res es­car­ra­pa­chado numa es­pla­nada do he­mis­fé­rio Sul a go­zar o ca­lor­zi­nho, faz um brinde ao se­nhor pe­rié­lio –  olha que ele merece).

Antes de sa­ber­mos as ver­da­dei­ras con­di­ções em Vénus, imaginámo-lo como um pân­tano tro­pi­cal lu­xu­ri­ante, um pla­neta de ja­cuz­zis, ou, nas vi­sões mais pes­si­mis­tas, como um de­serto do tipo Saara onde pos­sí­veis be­duí­nos ex­tra­ter­res­tres se pas­se­a­vam em dro­me­dá­rios de oito patas.

É por causa deste tipo de es­pe­cu­la­ções que con­vém man­ter a lu­ci­dez quanto à atual busca de Terras em ór­bita de ou­tras estrelas.

Imaginem uma ci­vi­li­za­ção com o mesmo avanço tec­no­ló­gico que o nosso e que, tal como nós, ande a ten­tar des­co­brir exo­pla­ne­tas ha­bi­tá­veis. Que di­riam es­ses ET’s se des­co­bris­sem Vénus? Aposto que po­de­riam con­cluir, cheios de en­tu­si­asmo, que aquele pla­neta ro­choso te­ria to­das as con­di­ções para su­por­tar «a vida tal como a conhecemos».

A Natureza tem uma ca­pa­ci­dade in­crí­vel de nos sur­pre­en­der. E pouco lhe im­porta se as no­tí­cias são más.

Alguma vez essa hi­po­té­tica ci­vi­li­za­ção ve­ria a «es­trela bri­lhante» Vénus como um inferno?

Até ame­ri­ca­nos e rus­sos so­bre­vo­a­rem e ater­ra­rem no pla­neta, res­pe­ti­va­mente, não nos pas­sava pela ca­beça que as con­di­ções fos­sem tão hos­tis: nu­vens de ácido sul­fú­rico, 500 graus à su­per­fí­cie e uma at­mos­fera de dió­xido de car­bono tão densa que, se es­ti­vés­se­mos lá, equi­va­le­ria a su­por­tar­mos o peso de um oce­ano ter­res­tre a 1000 me­tros de pro­fun­di­dade. Vénus não é um bom lo­cal para se cu­rar uma dor de costas.

Por causa desta at­mos­fera tão densa, uma sim­ples brisa em Vénus é um fu­ra­cão. E ta­ma­nha quan­ti­dade de dió­xido de car­bono pro­vo­cou um po­de­roso efeito de es­tufa – ne­nhum ca­lor es­capa da sua superfície.

Os as­tró­lo­gos da Babilónia chamavam-lhe «Brilhante Rainha do Céu», mas Vénus é, nos nos­sos dias, uma «Brilhante Rainha do Aquecimento Global

É por causa desse efeito de es­tufa ra­di­cal que o des­tino da­quele pla­neta é apon­tado por al­guns ci­en­tis­tas como um exem­plo do que po­derá acon­te­cer à nossa Terra se con­ti­nu­ar­mos a in­to­xi­car o ar com dió­xido de car­bono e ou­tras mer­das ve­ne­no­sas vo­mi­ta­das pe­los tu­bos de es­cape deste mundo.

50 mil anos de­pois de o Homo Sapiens atin­gir a mai­o­ri­dade an­tro­po­ló­gica, ainda pre­ci­sa­mos de ser re­cor­da­dos de que uma Civilização só so­bre­vive se ti­ver muito juízinho.

E em­bora o ser hu­mano — como qual­quer ou­tra cri­a­tura na Terra — seja fan­tas­ti­ca­mente adap­tá­vel, não será a ex­pe­lir lava pelo cu como o Oucher-poucher que con­se­guirá safar-se da ex­tin­ção, se per­sis­tir em trans­for­mar este pre­ci­oso pla­neta re­pleto de vida num se­gundo Vénus.

 

7 comentários

  1. Torres — 24/08/2011 @12:46 (6 comentários)

    “Quando está mais pró­ximo do Sol, diz-se que está no pe­rié­lio; quanto está mais longe, diz-se afé­lio. Da pró­xima vez que es­ti­ve­res es­car­ra­pa­chado numa es­pla­nada a go­zar o ca­lor­zi­nho, faz um brinde ao se­nhor pe­rié­lio – olha que ele merece.”

    Durante o pe­rié­lio o mais certo, no he­mis­fé­rio norte, é es­tar de chuva e bas­tante frio, visto ser inverno.

    Mas da­qui a pouco vou a uma es­pla­nada e vou fa­zer um brinde ao afélio!

    • Sim, eu sei, mas nesse pa­rá­grafo brin­ca­lhão o pe­rié­lio é tam­bém um sím­bolo de pro­xi­mi­dade ao sol. Nada de ci­en­tí­fico, ape­nas uma pi­a­di­nha :)

  2. Ativo — 24/08/2011 @13:49 (17 comentários)

    Aí está um termo que de­via ser sem­pre apli­cado quando se fala de so­bre­vi­vên­cia em con­di­ções ex­tre­mas: a vida tal como a conhecemos.

    Por ve­zes, vejo do­cu­men­tá­rios onde ci­en­tis­tas afir­mam que é im­pos­sí­vel exis­tir vida num de­ter­mi­nado sí­tio. Errado. É im­pos­sí­vel exis­ti­rem hu­ma­nos, cães, ca­va­los e pei­xi­nhos dou­ra­dos mas, even­tu­al­mente, po­dem exis­tir ou­tras criaturas.

    Se isto já foi pro­vado den­tro do nosso mi­nús­culo pla­neta, imagine-se numa ex­ten­são tão vasta como o Universo.

  3. Pedro — 25/08/2011 @3:33 (385 comentários)

    Isto já são pre­ci­o­sis­mos, mas

    “Até ame­ri­ca­nos e rus­sos so­bre­vo­a­rem e ater­ra­rem no pla­neta, respetivamente,”

    mas não fo­ram os rus­sos os 1ºs a co­lo­ca­rem son­das em Vénus, ou es­tou en­ga­nado? Refiro-me en­tre ou­tras às son­das Venera (que já agora sig­ni­fica Vénus em russo)

  4. @Pedro

    Não, os ame­ri­ca­nos fo­ram os pri­mei­ros a che­gar a Vénus, mas não ater­ra­ram. Foi a Mariner que lá che­gou, em 1962.

    É ver­dade que o pro­grama Venera co­me­çou mais cedo (1961) mas as duas pri­mei­ras son­das (1 e 2) perderam-se an­tes de che­gar ao pla­neta e a Venera 3 (1965) perdeu-se quando co­me­çava a en­trar na atmosfera.

    Nem os rus­sos nem nin­guém fa­ziam ideia da bru­tal pres­são at­mos­fé­rica, e só de­pois de cons­trui­rem son­das su­fi­ci­en­te­mente re­sis­ten­tes é que con­se­gui­ram ater­rar. A Venera 7, salvo erro, foi a pri­meira a so­bre­vi­ver o tempo su­fi­ci­ente (23 mi­nu­tos) para con­se­guir en­viar al­guns da­dos — aliás, foi a pri­meira sonda da his­tó­ria a ater­rar nou­tro pla­neta e a con­se­guir en­viar da­dos de volta à Terra. Só com a Venera 14 foi pos­sí­vel en­viar fo­tos da su­per­fí­cie. Estou a ci­tar de me­mó­ria, mas acho que é isto.

  5. Pedro — 25/08/2011 @5:05 (385 comentários)

    Isso tudo de ca­beça, não está mau :)

    Já agora, as Venera 4, 5 e 6 tam­bém en­vi­a­ram da­dos, mas fo­ram es­ma­ga­das ainda an­tes de atin­gi­rem o solo.

    A 10 já en­vi­ara ima­gens, mas a 13 e 14 en­vi­a­ram a cores

    Um por­me­nor cu­ri­oso é que houve uma mis­são con­junta en­tre os EUA e URSS, a Venera 4–Mariner 5 para ex­plo­ra­rem Vénus, isto em plena Guerra fria e ri­va­li­dade d econ­quis­tas espaciais.

    Mas isto tudo eu vi na Wikipédia :D http://en.wikipedia.org/wiki/Venus#Early_efforts

  6. Eduardo — 26/08/2011 @19:21 (1 comentário)

    O Sagan não ti­nha pre­visto as con­di­ções de Vénus an­tes das pri­mei­ras mis­sões? Acho que foi a tese de li­cen­ci­a­tura dele (ou uma tese de doutoramento?).