A partir das 6 horas e 24 minutos da manhã de segunda-feira, 6 de agosto, uma série de extraordinários eventos terá início na atmosfera de um planeta inóspito, mortal e fascinante.
A missão Mars Science Laboratory (MSL) depositará um jipe cientificamente artilhado – o Curiosity – na superfície de Marte.
O acontecimento pode ser globalmente acompanhado a partir da página do MSL. O link para a emissão da NASA TV (em alta definição) é este. Se tudo correr bem, as primeiras imagens enviadas pelo rover serão mostradas aqui.
Os eventos que terão de ocorrer para que esta proeza de engenharia seja possível a milhões de quilómetros de distância, sem possibilidade de correções de última hora, implicam o correto funcionamento de um escudo de calor, um paraquedas, foguetes para manobras, uma espécie de ioiô de cabos de náilon chamado Sky Crane e cálculos matemáticos à prova de bala.
O objetivo é pousar um jipe de 899 quilos com a mesma delicadeza e suavidade com que uma mãe coloca o seu bebé no berço.
Da entrada na atmosfera à amartagem na cratera Gale decorrerão sete minutos.
Sete minutos de terror.
Tendo em conta a complexidade e importância da missão do rover Curiosity, os 2,5 mil milhões de dólares que custou até agora, os nove anos de trabalho árduo, os oito meses e meio de viagem e a margem de erro inexistente, alguém na NASA com sentido de humor batizou a operação como se promovesse um filme de Ridley Scott e não uma das mais ousadas operações de engenharia espacial da história da Humanidade.
Sete minutos de terror, chamou-lhe.
O sinal que for enviado para a Terra anunciando o equivalente matemático de um «vou entrar agora na atmosfera marciana, por favor façam figas» demorará 14 minutos a chegar. Quando finalmente a mensagem tiver sido recebida na Terra, já tudo terá acontecido em Marte: o rover poderá ter pousado em segurança ou jazer despedaçado na superfície há sete minutos.
Sete minutos de terror.

Três gerações de rovers O pequenino, ao meio, é o Sojourner, o primeiro; à esquerda dos engenheiros da NASA um irmão gémeo dos veículos seguintes, Spirit e Opportunity; depois temos o gigante Curiosity.
A longa infografia que se segue (ver original) mostra-nos o que é necessário acontecer para que tudo corra como planeado. Ajuda-nos também a perceber por que razão haverá provavelmente mais unhas roídas por metro quadrado no Jet Propulsion Laboratory do que em qualquer outro laboratório do mundo.
Perfeitamente compreensível o nervosismo: uma década de trabalho pode espatifar-se em sete minutos.
A maior e mais dispendiosa missão de exploração científica do planeta Marte só poderá ter início se o «plano maluco», como também é conhecido, correr na perfeição.
Adam Steltzner, engenheiro-chefe da NASA responsável pelas operações, afirmou à National Geographic que «quando apresentámos o projeto, quase fomos corridos da sala à gargalhada. As pessoas diziam que era impossível resultar.»
Os sete
Eis a loucura impossível de concretizar: a nave entrará na atmosfera marciana a uma velocidade de 21 mil e duzentos quilómetros por hora, altura em que entrarão em ação os escudos protetores, capazes de suportar temperaturas na ordem dos 1600 graus celsius.
A fricção causada pelo impacto na atmosfera será tão intensa que a desaceleração da nave estará 90 por cento completa quando tiver descido os primeiros 130 quilómetros na atmosfera, dos iniciais 21 mil e duzentos para 1600 quilómetros por hora.
Quanto descer aos 12 quilómetros de altitude, abrir-se-á o maior e mais forte paraquedas alguma vez enviado em explorações espaciais: um monstro com 18 metros de largura e 45 quilos de peso, capaz de suportar os 30 mil quilos de força de arrastamento do rover em queda. Se o mecanismo de abertura falhar, estará tudo perdido: o rover despedaçar-se-á em mil bocados como uma taça de champanhe.
A 9 quilómetros de altitude e à velocidade de pouco menos de 600 quilómetros por hora, dar-se-á a separação do escudo de calor.
Será altura de entrarem em ação os cinco retro-foguetes que ajudarão a estabilizar a nave e a reduzir ainda mais a velocidade. Numa primeira fase, para 112 quilómetros por hora; por fim, estabilizará nos três quilómetros por hora – tendo em conta as vertiginosas velocidades anteriores, um hipotético passageiro sentir-se-ia a flutuar.
Durante esta fase da descida, uma câmara de alta definição montada na parte de baixo do rover (a MARs Descent Imager — MARDI) disparará cinco frames por segundo durante um período de dois minutos. (Adenda: o vídeo pode ser visto aqui)
O sky crane estará a 20 metros da superfície com o rover na barriga quando o mais espetacular momento da manobra acontecer: fortes cabos de náilon pousarão o rover suavemente na superfície.
Isto faz-me lembrar o velho brinquedo ioiô: a mão é o sky crane; o conjunto de dois discos unidos no centro por um eixo é o rover; o cordel que se desenrola é o cabo de náilon. Esta manobra é uma espécie de ioiô marciano feito em câmara lenta, com a diferença de que o rover não voltará a subir e a mão se afastará depois de largar o cordel.
O sky crane usará novos foguetes para sair dali e cair a uma distância segura. Quanto ao rover, a primeira coisa que fará quando estiver pendurado no sky crane será esticar as pernas – o que se compreende, tendo em conta que acabou de fazer uma viagem de milhões de quilómetros.
O Curiosity enviará então uma foto de baixa resolução da superfície — uma forma de nos dizer um «olá, estou bem». Uma nova oportunidade de obter mais informação sobre o destino do Curiosity deverá ocorrer duas horas depois da amartagem, quando a sonda em órbita Mars Odissey passar sobre o rover.
No dia seguinte – terça, 7 de agosto, por volta da uma da tarde – o Curiosity comunicará diretamente com a Terra através da Deep Space Network (DSN). O sinal de alta frequência transmitirá duas informações: a velocidade a que desceu à superfície e a localização atual.
Se o rover enviar as fotos depois de pousar na superfície, os longos sete minutos de terror já terão passado e poderemos iniciar a contagem decrescente para o lançamento das rolhas das garrafas de champanhe.
Atualização: Depois do pequeno passo, seis grandes rodas
Adenda ensonada, 06/08, pouco depois das seis e meia da manhã: esta imagem à direita mostra-nos a sombra do rover na superfície da cratera de Gale. O «plano louco» resultou!
Equipado com 17 câmaras, um laser capaz de pulverizar rocha, sensores climáticos, espectrómetros, instrumentos para identificar minerais e compostos orgânicos, entre outras maravilhas, o rover Curiosity passará agora os próximos dois anos à procura de sinais de vida no passado distante de Marte, e em estudos e experiências cujos resultados serão importantes para futuras missões tripuladas.
Acredito que desta vez encontraremos resposta a uma das grandes questões científicas da Humanidade: a existência de vida extraterrestre. Um brinde à grande aventura do conhecimento!


















Marco, não sei se é do meu browser ou não mas a formatação do teu texto aparece toda desfigurada: as palavras em itálico estão encavalitadas nas outras e o final de algumas linhas aparece cortado.
Outra coisa: “sensores climatéricos” ou “sensores climáticos”?
Ok, são preciosismos. Quanto ao conteúdo, irrepreensível, como sempre!
Carlos
Tendo em conta que acabei de escrever este texto às 5 da manhã, até me surpreende que essa asneira que viste seja a única… Obrigado, vou corrigir
Quanto a esse erro… Desde que meti o blog no Cloudflare é só erros incompreensíveis desses. Acho que vou tirá-lo.
Esquece a parte relativa à formatação. Assim que o meu comentário seguiu e a página actualizou, voltou tudo ao normal.
Há vários meses que estou à espera deste dia… E agora espero que corra tudo bem e que o rover aterre em segurança… Well, segunda feira de manhã saberemos.
Entretanto também estou com um feeling que desta vez vamos encontrar um vestígio qualquer, ou qualquer coisa… Mas acho que é um feeling que todos nós temos, certo?… Seria um dos acontecimentos mais importantes da nossa história…
Abraços e godspeed Curiosity!
Marco, parabéns pelo blog. Consegui ficar bem informado sobre o assunto e os links que postasse foram ótimos. Cuntinue com seu blog.
Obrigado, João Carlos.
“Tendo em conta que acabei de escrever este texto às 5 da manhã…”
http://imgs.xkcd.com/comics/curiosity.png
@Mig hehehehe
Fantástico e irrepreensível como sempre, nada como visitar o Bitaites à segunda feira de manhã para ficar a par das últimas sobre a humanidade.
Excelente, como sempre.
Abraço
Fiquei imaginando os técnicos da Nasa como aqueles torcedores de futebol na expectativa de uma cobrança de penâlti que poderá definir o título da temporada: da extrema tensão ao êxtase!
Artigo simplesmente perfeito, Marco.
Está em meus favoritos.
Abraços.
Ora, muito obrigado, Cavalcanti. Uma noite memorável!