→ 05/08/2012 @5:00

Ioiô marciano

Centro de con­trolo da mis­são Mars Science Laboratory (NASA/JPL)

O ro­ver Curiosity e o mó­dulo Sky Crane (NASA/JPL-Caltech)

A par­tir das 6 ho­ras e 24 mi­nu­tos da ma­nhã de segunda-feira, 6 de agosto, uma sé­rie de ex­tra­or­di­ná­rios even­tos terá iní­cio na at­mos­fera de um pla­neta inós­pito, mor­tal e fascinante.

A mis­são Mars Science Laboratory (MSL) de­po­si­tará um jipe ci­en­ti­fi­ca­mente ar­ti­lhado – o Curiosity – na su­per­fí­cie de Marte.

O acon­te­ci­mento pode ser glo­bal­mente acom­pa­nhado a par­tir da pá­gina do MSL. O link para a emis­são da NASA TV (em alta de­fi­ni­ção) é este. Se tudo cor­rer bem, as pri­mei­ras ima­gens en­vi­a­das pelo ro­ver se­rão mos­tra­das aqui.

Os even­tos que te­rão de ocor­rer para que esta pro­eza de en­ge­nha­ria seja pos­sí­vel a mi­lhões de qui­ló­me­tros de dis­tân­cia, sem pos­si­bi­li­dade de cor­re­ções de úl­tima hora, im­pli­cam o cor­reto fun­ci­o­na­mento de um es­cudo de ca­lor, um pa­ra­que­das, fo­gue­tes para ma­no­bras, uma es­pé­cie de ioiô de ca­bos de nái­lon cha­mado Sky Crane e cál­cu­los ma­te­má­ti­cos à prova de bala.

O ob­je­tivo é pou­sar um jipe de 899 qui­los com a mesma de­li­ca­deza e su­a­vi­dade com que uma mãe co­loca o seu bebé no berço.

Da en­trada na at­mos­fera à amar­ta­gem na cra­tera Gale de­cor­re­rão sete minutos.

Sete mi­nu­tos de terror.

Tendo em conta a com­ple­xi­dade e im­por­tân­cia da mis­são do ro­ver Curiosity, os 2,5 mil mi­lhões de dó­la­res que cus­tou até agora, os nove anos de tra­ba­lho ár­duo, os oito me­ses e meio de vi­a­gem e a mar­gem de erro ine­xis­tente, al­guém na NASA com sen­tido de hu­mor ba­ti­zou a ope­ra­ção como se pro­mo­vesse um filme de Ridley Scott e não uma das mais ou­sa­das ope­ra­ções de en­ge­nha­ria es­pa­cial da his­tó­ria da Humanidade.

Sete mi­nu­tos de ter­ror, chamou-lhe.

O si­nal que for en­vi­ado para a Terra anun­ci­ando o equi­va­lente ma­te­má­tico de um «vou en­trar agora na at­mos­fera mar­ci­ana, por fa­vor fa­çam fi­gas» de­mo­rará 14 mi­nu­tos a che­gar. Quando fi­nal­mente a men­sa­gem ti­ver sido re­ce­bida na Terra, já tudo terá acon­te­cido em Marte: o ro­ver po­derá ter pou­sado em se­gu­rança ou ja­zer des­pe­da­çado na su­per­fí­cie há sete minutos.

Sete mi­nu­tos de terror.

Três ge­ra­ções de ro­vers O pe­que­nino, ao meio, é o Sojourner, o pri­meiro; à es­querda dos en­ge­nhei­ros da NASA um ir­mão gé­meo dos veí­cu­los se­guin­tes, SpiritOpportunity; de­pois te­mos o gi­gante Curiosity.

 

A longa in­fo­gra­fia que se se­gue (ver ori­gi­nal) mostra-nos o que é ne­ces­sá­rio acon­te­cer para que tudo corra como pla­ne­ado. Ajuda-nos tam­bém a per­ce­ber por que ra­zão ha­verá pro­va­vel­mente mais unhas roí­das por me­tro qua­drado no Jet Propulsion Laboratory do que em qual­quer ou­tro la­bo­ra­tó­rio do mundo.

Perfeitamente com­pre­en­sí­vel o ner­vo­sismo: uma dé­cada de tra­ba­lho pode espatifar-se em sete minutos.

A maior e mais dis­pen­di­osa mis­são de ex­plo­ra­ção ci­en­tí­fica do pla­neta Marte só po­derá ter iní­cio se o «plano ma­luco», como tam­bém é co­nhe­cido, cor­rer na perfeição.

Adam Steltzner, engenheiro-chefe da NASA res­pon­sá­vel pe­las ope­ra­ções, afir­mou à National Geographic que «quando apre­sen­tá­mos o pro­jeto, quase fo­mos cor­ri­dos da sala à gar­ga­lhada. As pes­soas di­ziam que era im­pos­sí­vel re­sul­tar.»

 

Os sete

Eis a lou­cura im­pos­sí­vel de con­cre­ti­zar: a nave en­trará na at­mos­fera mar­ci­ana a uma ve­lo­ci­dade de 21 mil e du­zen­tos qui­ló­me­tros por hora, al­tura em que en­tra­rão em ação os es­cu­dos pro­te­to­res, ca­pa­zes de su­por­tar tem­pe­ra­tu­ras na or­dem dos 1600 graus cel­sius.

A fric­ção cau­sada pelo im­pacto na at­mos­fera será tão in­tensa que a de­sa­ce­le­ra­ção da nave es­tará 90 por cento com­pleta quando ti­ver des­cido os pri­mei­ros 130 qui­ló­me­tros na at­mos­fera, dos ini­ci­ais 21 mil e du­zen­tos para 1600 qui­ló­me­tros por hora.

Quanto des­cer aos 12 qui­ló­me­tros de al­ti­tude, abrir-se-á o maior e mais forte pa­ra­que­das al­guma vez en­vi­ado em ex­plo­ra­ções es­pa­ci­ais: um mons­tro com 18 me­tros de lar­gura e 45 qui­los de peso, ca­paz de su­por­tar os 30 mil qui­los de força de ar­ras­ta­mento do ro­ver em queda. Se o me­ca­nismo de aber­tura fa­lhar, es­tará tudo per­dido: o ro­ver despedaçar-se-á em mil bo­ca­dos como uma taça de champanhe.

A 9 qui­ló­me­tros de al­ti­tude e à ve­lo­ci­dade de pouco me­nos de 600 qui­ló­me­tros por hora, dar-se-á a se­pa­ra­ção do es­cudo de calor.

Será al­tura de en­tra­rem em ação os cinco retro-foguetes que aju­da­rão a es­ta­bi­li­zar a nave e a re­du­zir ainda mais a ve­lo­ci­dade. Numa pri­meira fase, para 112 qui­ló­me­tros por hora; por fim, es­ta­bi­li­zará nos três qui­ló­me­tros por hora – tendo em conta as ver­ti­gi­no­sas ve­lo­ci­da­des an­te­ri­o­res, um hi­po­té­tico pas­sa­geiro sentir-se-ia a flutuar.

Durante esta fase da des­cida, uma câ­mara de alta de­fi­ni­ção mon­tada na parte de baixo do ro­ver (a MARs Descent Imager — MARDI) dis­pa­rará cinco fra­mes por se­gundo du­rante um pe­ríodo de dois mi­nu­tos. (Adenda: o ví­deo pode ser visto aqui)

O sky crane es­tará a 20 me­tros da su­per­fí­cie com o ro­ver na bar­riga quando o mais es­pe­ta­cu­lar mo­mento da ma­no­bra acon­te­cer: for­tes ca­bos de nái­lon pou­sa­rão o ro­ver su­a­ve­mente na superfície.

Isto faz-me lem­brar o ve­lho brin­quedo ioiô: a mão é o sky crane; o con­junto de dois dis­cos uni­dos no cen­tro por um eixo é o ro­ver; o cor­del que se de­sen­rola é o cabo de nái­lon. Esta ma­no­bra é uma es­pé­cie de ioiô mar­ci­ano feito em câ­mara lenta, com a di­fe­rença de que o ro­ver não vol­tará a su­bir e a mão se afas­tará de­pois de lar­gar o cordel.

O sky crane usará no­vos fo­gue­tes para sair dali e cair a uma dis­tân­cia se­gura. Quanto ao ro­ver, a pri­meira coisa que fará quando es­ti­ver pen­du­rado no sky crane será es­ti­car as per­nas – o que se com­pre­ende, tendo em conta que aca­bou de fa­zer uma vi­a­gem de mi­lhões de quilómetros.

O Curiosity en­vi­ará en­tão uma foto de baixa re­so­lu­ção da su­per­fí­cie — uma forma de nos di­zer um «olá, es­tou bem». Uma nova opor­tu­ni­dade de ob­ter mais in­for­ma­ção so­bre o des­tino do Curiosity de­verá ocor­rer duas ho­ras de­pois da amar­ta­gem, quando a sonda em ór­bita Mars Odissey pas­sar so­bre o ro­ver.

No dia se­guinte – terça, 7 de agosto, por volta da uma da tarde – o Curiosity co­mu­ni­cará di­re­ta­mente com a Terra atra­vés da Deep Space Network (DSN). O si­nal de alta frequên­cia trans­mi­tirá duas in­for­ma­ções: a ve­lo­ci­dade a que des­ceu à su­per­fí­cie e a lo­ca­li­za­ção atual.

Se o ro­ver en­viar as fo­tos de­pois de pou­sar na su­per­fí­cie, os lon­gos sete mi­nu­tos de ter­ror já te­rão pas­sado e po­de­re­mos ini­ciar a con­ta­gem de­cres­cente para o lan­ça­mento das ro­lhas das gar­ra­fas de champanhe.

 

Atualização: Depois do pe­queno passo, seis gran­des rodas

Adenda en­so­nada, 06/08, pouco de­pois das seis e meia da ma­nhã: esta ima­gem à di­reita mostra-nos a som­bra do ro­ver na su­per­fí­cie da cra­tera de Gale. O «plano louco» re­sul­tou!

Equipado com 17 câ­ma­ras, um la­ser ca­paz de pul­ve­ri­zar ro­cha, sen­so­res cli­má­ti­cos, es­pec­tró­me­tros, ins­tru­men­tos para iden­ti­fi­car mi­ne­rais e com­pos­tos or­gâ­ni­cos, en­tre ou­tras ma­ra­vi­lhas, o ro­ver Curiosity pas­sará agora os pró­xi­mos dois anos à pro­cura de si­nais de vida no pas­sado dis­tante de Marte, e em es­tu­dos e ex­pe­ri­ên­cias cu­jos re­sul­ta­dos se­rão im­por­tan­tes para fu­tu­ras mis­sões tripuladas.

Acredito que desta vez en­con­tra­re­mos res­posta a uma das gran­des ques­tões ci­en­tí­fi­cas da Humanidade: a exis­tên­cia de vida ex­tra­ter­res­tre. Um brinde à grande aven­tura do conhecimento!

Autor: Cameron Cardow

 

12 comentários

  1. Marco, não sei se é do meu brow­ser ou não mas a for­ma­ta­ção do teu texto apa­rece toda des­fi­gu­rada: as pa­la­vras em itá­lico es­tão en­ca­va­li­ta­das nas ou­tras e o fi­nal de al­gu­mas li­nhas apa­rece cor­tado. :(

    Outra coisa: “sen­so­res cli­ma­té­ri­cos” ou “sen­so­res cli­má­ti­cos”? :D

    Ok, são pre­ci­o­sis­mos. Quanto ao con­teúdo, ir­re­pre­en­sí­vel, como sempre!

  2. Carlos

    Tendo em conta que aca­bei de es­cre­ver este texto às 5 da ma­nhã, até me sur­pre­ende que essa as­neira que viste seja a única… Obrigado, vou cor­ri­gir :)

    Quanto a esse erro… Desde que meti o blog no Cloudflare é só er­ros in­com­pre­en­sí­veis des­ses. Acho que vou tirá-lo.

  3. Esquece a parte re­la­tiva à for­ma­ta­ção. Assim que o meu co­men­tá­rio se­guiu e a pá­gina ac­tu­a­li­zou, vol­tou tudo ao normal.

  4. Paulo — 05/08/2012 @15:44 (29 comentários)

    Há vá­rios me­ses que es­tou à es­pera deste dia… E agora es­pero que corra tudo bem e que o ro­ver aterre em se­gu­rança… Well, se­gunda feira de ma­nhã saberemos.

    Entretanto tam­bém es­tou com um fe­e­ling que desta vez va­mos en­con­trar um ves­tí­gio qual­quer, ou qual­quer coisa… Mas acho que é um fe­e­ling que to­dos nós te­mos, certo?… Seria um dos acon­te­ci­men­tos mais im­por­tan­tes da nossa história…

    Abraços e gods­peed Curiosity!

  5. João Carlos — 05/08/2012 @16:01 (1 comentário)

    Marco, pa­ra­béns pelo blog. Consegui fi­car bem in­for­mado so­bre o as­sunto e os links que pos­tasse fo­ram óti­mos. Cuntinue com seu blog.

  6. Mig — 06/08/2012 @10:48 (1 comentário)

    “Tendo em conta que aca­bei de es­cre­ver este texto às 5 da manhã…”

    http://imgs.xkcd.com/comics/curiosity.png

  7. Augusto Tomé — 06/08/2012 @12:27 (45 comentários)

    Fantástico e ir­re­pre­en­sí­vel como sem­pre, nada como vi­si­tar o Bitaites à se­gunda feira de ma­nhã para fi­car a par das úl­ti­mas so­bre a humanidade.

    Excelente, como sempre.

    Abraço

  8. Vinício — 06/08/2012 @17:37 (18 comentários)

    Fiquei ima­gi­nando os téc­ni­cos da Nasa como aque­les tor­ce­do­res de fu­te­bol na ex­pec­ta­tiva de uma co­brança de pe­nâlti que po­derá de­fi­nir o tí­tulo da tem­po­rada: da ex­trema ten­são ao êxtase!

  9. Cavalcanti — 06/08/2012 @23:00 (54 comentários)

    Artigo sim­ples­mente per­feito, Marco. :)

    Está em meus favoritos.

    Abraços. :)

    • Ora, muito obri­gado, Cavalcanti. Uma noite memorável!