→ 02/06/2008 @9:47

O ovo e o cu da galinha (para Douglas Adams)

- Olhe. Desculpe. É neste restaurante que se desvendam os mais ínfimos segredos do Universo? – Perguntei eu.

- Sim – respondeu-me o homem fardado de branco.

- E quanto custa?

- Nada, mas tem de mandar vir qualquer coisa. Não se pode descobrir os segredos do Universo se o cliente não consumir nada. Desculpe. Ordens da casa. – A perplexidade no meu olhar sensibilizou-o. – Posso sugerir-lhe uma especialidade do chefe? Frango assado na brasa. Simplesmente divinal.

- Frango assado é uma especialidade?

- Você nunca comeu frango como este!

- Está bem. Ainda não jantei, por isso…

- Óptimo! – O criado indicou-me uma mesa da enorme esplanada. Abarrotava de sofisticação.

Tentei agir com naturalidade, mas os nervos fizeram-me sentar com demasiada força. Os joelhos bateram na mesa, estremecendo copos e talheres. Olhei em volta. Estavam todos tão entretidos a conversar que não pareceram reparar no barulho que eu tinha feito. A pouco e pouco, fui ficando mais descontraído.

Estava bem localizada, a esplanada. Um restaurante em Júpiter teria sido interessante, mas descobrir uma casa de comes e bebes no princípio do Tempo tinha sido realmente uma fezada.

O criado deve ter considerado preocupante a minha ansiedade inicial, pois seguira os meus movimentos com ar de vigilante e agora não tirava os olhos de mim, como se estivesse à espera que lhe fizesse sinal. Levantei a mão como se estivesse a pedir desculpa por incomodá-lo. Ele veio logo: sorria e às vezes não sorria, como se a boca fosse um nó de gravata difícil de desapertar.

- Sabe – Falava pomposamente. – Dizer que este é um restaurante de cinco estrelas não é fazer-lhe justiça. Afinal de contas – e apontou para o negrume diante da esplanada – em breve poderá ver o nascimento de todas as estrelas do Universo: as que existirão agora e as que virão com o Tempo. Mas terá de consumir qualquer coisa.

- E se eu pedir uma cerveja?

- Desculpe, mas isto não é uma tasca. É um restaurante.

- Muito bem. Mas frango assado…

- É a especialidade da casa. Tem que ser.

- E se eu não quiser a especialidade da casa?

O criado ficou embaraçado.

- Caro senhor… Devo-lhe um esclarecimento. Tinha esperanças de evitar esta situação. É um bocadinho irregular, sobretudo num restaurante desta categoria, mas a única ementa no cardápio é frango assado. Peço-lhe imensa desculpa. Não estava previsto… Mas é o nosso prato do dia. O nosso prato da noite. De todos os dias e de todas as noites. Por isso é único.

Não estava com disposição para discutir.

- Claro – concedi, cheio de compreensão. – Venha esse prato, pronto!

O criado suspirou de alívio.

- Vou então tratar do seu pedido imediatamente, senhor!

- Eu já bebia uma cerveja – disse eu, aproveitando o facto de estar na mó de cima. – Já que a casa preza assim tanto os seus clientes, podia oferecer-me uma. Um restaurante desta categoria devia ter mais do que um prato!

O criado acenou em concordância, embora eu não tivesse conseguido perceber se estava a concordar comigo ou com a indiscutível categoria do restaurante. Não me deu tempo para tirar grandes conclusões, pois virou costas e dirigiu-se para a cozinha.

Recostei-me na cadeira e apreciei a paisagem. O princípio do Tempo podia vir a ser um espectáculo fantástico, mas para já estava fraquito. O que se conseguia ver da esplanada era um abismo tão negro e sufocante que nem a luz lhe conseguia escapar.

Tentei preencher os espaços, mas a imaginação não conseguia passar aquela barreira. Nada o conseguia – nenhum sentimento seria capaz de atravessar a fronteira da inexistência. Invadiu-me o peito uma sensação de claustrofobia que me fez suar em catadupa. Depois forcei-me a esquecer a sensação, observando a serenidade de todas as pessoas que, tal como eu, esperavam pelo início do espectáculo e do jantar.

Finalmente o criado chegou. Vinha ofegante e desta vez nem tentou sorrir.

- O chefe mandou dar-lhe um recado.

- Não me diga que não têm cerveja!

- Não é bem um recado, é uma pergunta.

O formigueiro da claustrofobia passeava-me no peito. Olhei para as outras mesas. Estavam vazias. Para onde tinha ido toda a gente?

O criado puxou de uma cadeira e sentou-se sem cerimónias.

- Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?

- O quê?

- O ovo ou a galinha! – Também estava com a testa coberta de suor.

- Meu caro amigo… Ora mas que coisa… Sei lá!

- Pense bem. Isto é uma oportunidade única para si. Ovo ou galinha?

Fiquei sem saber o que dizer, o que aumentou o nervosismo do criado.

- O Tempo está quase a começar. Já falta pouco. Não sei exactamente quanto é que falta porque, afinal de contas, o Tempo ainda não existe. Mas está quase! O Tempo é a consciência do Espaço, percebe? Sem o Tempo, o Espaço não consegue aperceber-se de que tem tamanho. Por isso é que esta merda está toda atrofiada. Vamos lá: ovo ou galinha?

- Mas que tenho eu a ver com isso?

- O ovo ou a galinha!?

- Há pelo menos duas possibilidades…

- Isto não é um concurso de respostas múltiplas!

- Calma! Estou a pensar em voz alta. O ovo não pode ter surgido primeiro porque não existia nenhuma galinha para o pôr. Por outro lado, a galinha não pode ter surgido primeiro porque antes de ser galinha ela era pintainho e o pintainho nasce do ovo. Ora, não havendo ovo…

- Qual é a sua resposta, então? O chefe está à espera!

Respirei fundo.

- Nem um nem outro.

O criado abriu-se num sorriso.

- Muito bem! A refeição ser-lhe-á servida imediatamente. – Levantou-se num ápice. – Aprecie o espectáculo do nascimento do Universo. Está na hora. Por pouco não nos atrasávamos. Vá, relaxe!

- Espere! E os outros?

- Quais outros?

- A esplanada estava cheia!

O criado olhou para as mesas vazias com indiferença.

- Pois… Não atinaram com a resposta. Qualquer dos caminhos que lhes propus conduzia a um beco sem saída do pensamento. – Deu-me uma palmadinha amigável nas costas. – Anime-se! Você foi o único que rejeitou a pergunta! Merece o seu lugar na esplanada. Parabéns!

Estava tão satisfeito comigo próprio que a sensação de claustrofobia desapareceu. Recostei-me na cadeira e esperei.

Não sei se terei adormecido.

Do negrume saiu o Espaço – uma sombra à procura da Luz, sugerindo sensações e cheiros e formas que não podia compreender ou explicar mas que aceitava como se fizessem parte do meu próprio corpo. Depois o Tempo chegou. Todo empoleirado, cheio de pujança e orgulho, encheu os pulmões e gritou:

- Cocorocó! Cocorocó!

E então eu talvez tenha acordado.

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