→ 06/06/2008 @16:07

Peidinhos abertos de Richard Stallman

Dizem al­guns ge­eks mais aten­tos – ver co­men­tá­rio neste post da Maria João Nogueira – que Richard Stallman se pei­dou du­rante o dis­curso que fez na Faculdade de Engenharia do Porto. A ser ver­da­deiro, con­si­dero este epi­só­dio comovente.

Para com­pre­en­der­mos o al­cance de um peido do Richard Stallman e por­que ra­zão o peido de um rabo geek nunca será igual a um peido de um Bill Gates, é pre­ciso co­nhe­cer pri­meiro o cur­rí­culo do se­nhor: Stallman é o fun­da­dor do Projecto GNU e da Free Software Foundation, é o cri­a­dor da li­cença GPL, é um pro­gra­ma­dor (Emacs/GNU Emacs, GNU C Compiler, GNU Debugger), um ac­ti­vista do Software Livre e uma lenda no mundo Open Source.

Não há nada pior para um ora­dor do que ver o seu peido a ser ci­tado fora de con­texto. Embora o co­men­ta­dor no blo­gue da Maria João te­nha tido o mé­rito de nos in­for­mar da fla­tu­lên­cia geek do se­nhor Stallman, não se pre­o­cu­pou em cla­ri­fi­car o con­texto em que aquela ocorreu.

De que fa­lava Stallman no mo­mento em que lar­gou mais umas quan­tas do­ses de me­tano na at­mos­fera? Estaria a di­zer, como de resto o faz há anos, que o Linux não deve ser cha­mado Linux, mas GNU/Linux? Neste caso, o peido po­de­ria ter as­su­mido o pa­pel de um ponto de ex­cla­ma­ção, por exem­plo. Stallman te­ria usado o peido para ob­ter um efeito dra­má­tico en­tre a as­sis­tên­cia. Em vez de co­lo­car um dedo em riste, como fa­zem os po­lí­ti­cos, peidou-se. É muito mais geek. Sendo as­sim, o peido — par­tindo do prin­cí­pio de que foi so­noro e não ape­nas uma bufa, au­dí­vel só para quem es­tava na pri­meira fila -, po­derá ter sido uma de­mons­tra­ção de forte au­to­ri­dade moral.

Estaria a fa­lar da Microsoft? Também é pos­sí­vel. Neste caso a ex­pli­ca­ção ainda é mais sim­ples: a Microsoft dá-lhe a volta ao estô­mago e o peido assume-se, as­sim, como uma forma de pro­testo. Geek que seja geek, em vez de aplau­dir o dis­curso de Stallman, de­verá peidar-se em si­nal de so­li­da­ri­e­dade. Nunca se deve su­bes­ti­mar a força de um peido, so­bre­tudo se este for dado em unís­sono por uma as­sis­tên­cia de cen­te­nas de pes­soas. Os pei­dos, uni­dos, ja­mais se­rão ven­ci­dos. Não se­ria ape­nas um acto de so­li­da­ri­e­dade, mas até um con­certo de mú­sica de vanguarda.

Não creio, con­tudo, que Richard Stallman se deva alon­gar so­bre o Windows Vista – para uma pes­soa que se ex­prime desta forma, não po­de­mos adi­vi­nhar qual se­ria o re­sul­tado para a assistência.

Por úl­timo, de­ve­mos ter em conta que um geek do Open Source não se re­funde. Um gajo como o Bill Gates, por exem­plo, é ca­paz de ter um ata­que de tosse en­quanto dá um peido – só para dis­far­çar ou escondê-lo, dado que muito pro­va­vel­mente será um peido fe­chado, pro­pri­e­tá­rio. Um geek do Open Source, por ou­tro lado, não he­sita em partilhá-lo.

Por exem­plo, o sím­bolo do GNU é, jus­ta­mente, o gnu – o gnu é um ma­mí­fero da fa­mí­lia dos bo­vi­nos cuja fla­tu­lên­cia é im­por­tante para de­ter­mi­nar a quan­ti­dade de gás me­tano de ori­gem bi­o­ló­gica exis­tente na nossa at­mos­fera — e eles têm uma bela quota-parte da res­pon­sa­bi­li­dade, acre­di­tem. Não creio, con­tudo, que seja justo cul­par Richard Stallman pelo au­mento do efeito de es­tufa e pelo aque­ci­mento glo­bal. Se al­guém lhe dis­ser isto, considere-o pro­pa­ganda da Microsoft, um da­que­les case stu­dies independentes.